A baixinha e o baixinho

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Estávamos em Barreiras, no oeste da Bahia, que era ainda uma cidade pequena. Pegamos um hotelzinho vagabundo para ficar...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Estávamos em Barreiras, no oeste da Bahia, que era ainda uma cidade pequena. Pegamos um hotelzinho vagabundo para ficar lá uns dias e depois seguiríamos para o norte de Goiás, de ônibus, carona ou o que fosse, por estradas de terra quase intransitáveis.
Quando anoitecia, fomos tomar uma cerveja num bar. Pegamos uma mesa perto de outra ocupada por duas moças. Uma era baixinha, bonita, a outra alta e de porte atlético, mas feia. Começaram a dar risadinhas para nós, o Mário ficou afim de chegar nelas. Eu não queria:
– É claro que você, baixinho, vai ficar com a baixinha, que é bonitinha. A outra, esquisitona, vai sobrar pra mim.
Insistiu. Nem que fosse só pra quebrar o galho dele. Acedi, mas com uma condição:
– Vou ficar 15 minutos com elas. É o prazo pra você sair com a baixinha. Depois eu me pico.
Topou e lá fomos nós. Nas apresentações, a grandona pegou a minha mão e disse com voz grossa:
– Muito prazer. Nilta.
– Igualmente. Olgo – respondi.
Pra uma mulher chamada Nilta, tinha que ser um homem chamado Olgo ou Auroro. Conversei com ela enquanto o Mário cantava a outra e em uns 15 minutos mesmo ele saiu com ela. Nilta e eu conversamos mais um pouco, tomamos mais uma cerveja e fui embora. Passeei um pouco pelas ruas e depois fui para o hotel.
Quando amanhecia, antes das seis da manhã, acordei com uma mulher varrendo o corredor e cantando. “Ô gente atrapalhada”, pensei, “isto é hora de varrer o hotel? E cantando!”. Antes de resolver se levantaria para reclamar, ela entrou no quarto, varrendo e cantando, na maior folga. Viu que eu estava acordado, olhou a outra cama e perguntou:
– Cadê baixinho?
Só então vi que ele não tinha vindo para o hotel. Respondi que não sabia. A mulher fez uma cara de preocupação e falou:
– Viiixxeee… Onde ele está?
– Sei lá… Ele saiu com uma menina…
– Mataram ele.
Saiu, deu um tempinho, quando eu ia dormindo de novo, ela entrou:
– Baixinho não voltou? — perguntou com o sotaque baiano.
– Não, caramba! E me deixe dormir.
– Mataram ele!
Isso aconteceu mais três vezes, aí resolvi levantar, xingando. A dona do hotel disse então que era comum ali matar gente de fora e jogar no rio.
– Já deve estar longe, indo rio abaixo – falou.
Fui ficando preocupado. Dei mais um tempo pra ver se o Mário chegava, e nada! Lá pelas 9h30 fui à delegacia. Perguntei ao policial de plantão se por acaso haviam prendido um baixinho paulista.
– Faz quase uma semana que a gente não prende ninguém – respondeu.
Voltei preocupado para o hotel e contei à mulher.
– Mataram ele – falou.
Minha preocupação aumentou. Resolvi ir à zona de prostituição ver se ele dormiu lá. Era uma rua inteira, com umas 20 casas. Fui de uma em uma. Imagine acordar prostituta às dez horas da manhã! Ouvi todos os palavrões possíveis, sempre acompanhados da informação de que não havia nenhum baixinho paulista lá.
Às 11 e meia da manhã, no hotel, ouvia a dona e a faxineira falarem “mataram ele” e já pensava que haviam matado mesmo. Como ia chegar em São Paulo e contar pra mãe dele? Fui ficando quase apavorado. Ao meio-dia, atravessei a rua e fui tomar uma cerveja pra ver se relaxava, enquanto pensava no que fazer. Fiquei na porta do bar olhando a rua, pensando no que poderia ter acontecido. De repente, vi que na porta do hotel ao lado do nosso, tão mambembe quanto, ia saindo um sujeito… o Mário, o baixinho. Filho da mãe!
Xinguei bastante e o chamei pra tomar uma cerveja. Ele só descobriu o que tinha acontecido depois que se levantou. Resolveu levar a moça para o hotel em que estávamos, para o nosso quarto, por sinal, e entrou no hotel errado. Pediu a chave do quarto 7, o porteiro deu, ele entrou com ela, transaram, dormiram, de manhãzinha ela foi embora e ele continuou dormindo. Saiu sem pagar nada. Ninguém perguntou nada e nem cobrou nada dele.
– Êh, Bahia… Só aqui mesmo pra acontecer uma coisa dessas – foi a única coisa que pude dizer.



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