A ciência e a estupidez

Editorial de Novembro Por   “Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não. Pessoas que já...

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Editorial de Novembro

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“Todas as nossas políticas sociais são baseadas no fato de que a inteligência deles [dos negros] é igual à nossa, apesar de todos os testes dizerem que não. Pessoas que já lidaram com empregados negros não acreditam que isso [a igualdade de inteligência] seja verdade.” É quase inacreditável que, em pleno século XXI, o cientista James Watson, um prêmio Nobel, possa dizer algo tão hediondo, ressuscitando teses de pseudociência do século XIX que alimentaram os massacres racistas que se seguiram. E, mesmo assim, pretende ter ares de autoridade e de verdade.
Watson nada mais é do que uma caricatura de um tropel de pretensos intelectuais que agora se apóiam no argumento da miscigenação étnica para dizer que não existe racismo no Brasil. Por essa ótica, Neguinho da Beija-Flor teria que alterar sua alcunha para “Branquinho”, já que 67,1% dos seus genes têm origem na Europa e apenas 31,5%, na África. Junto a isso, busca-se afirmar que raças não existem e, portanto, o racismo também não. Provavelmente, uma invenção de cabeças guiadas por algum tipo de paranóia.
A distorção deste tipo de argumentação esbarra no simples fato de que, para discriminar alguém, não se faz qualquer teste de laboratório para saber a composição genética de seu organismo. Como diz o antropólogo Acácio Almeida nesta edição da Fórum, “para dizer quem é negro ou não deveria haver uma comissão de policiais e porteiros. Se os intelectuais não sabem quem é negro, eles sempre sabem”. É a percepção social da cor da pele e dos traços físicos que pesam. Não se dar conta disso é falsear as hipóteses, é tentar ratificar a estupidez transformando-a em fundamento científico.
Faz parte da própria estrutura social do país tratar o negro como inferior. Por isso mesmo, combater o preconceito defendendo a adoção de medidas que já provaram seu sucesso, como o sistema de cotas, é dever não só dos governos, mas de toda a sociedade. Um dever moral, de quem precisa promover uma reparação histórica que condenou gerações inteiras à exclusão e ainda é uma ameaça a qualquer tentativa de se reduzir a desigualdade, num país onde ela ganha um aspecto odioso de perenidade.



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