A consolidação de Kirchner

Centralismo político e crescimento econômico são a base do sucesso do presidente argentino, mas seu projeto de reeleição pode ser ameaçado pela candidatura do ex-ministro da Economia Roberto Lavagna Por Eliza Capai, de Buenos Aires...

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Centralismo político e crescimento econômico são a base do sucesso do presidente argentino, mas seu projeto de reeleição pode ser ameaçado pela candidatura do ex-ministro da Economia Roberto Lavagna

Por Eliza Capai, de Buenos Aires

 

Após a derrubada de cinco presidentes em apenas um mês, em janeiro de 2002, poucos acreditavam que o presidente eleito um ano depois, Néstor Kirchner, pudesse promover a estabilidade política e econômica do país. No entanto, ele aproveitou os bons ventos da economia internacional e fez com que a Argentina apresentasse um crescimento médio de 9% ao ano – um dos maiores da América Latina. Passou também a ser considerado internacionalmente como um mandatário progressista, sendo um ícone mesmo entre a esquerda – a qual ele nunca pertenceu. No entanto, seu governo está longe de ser uma unanimidade e sofre pesadas críticas tanto no campo progressista quanto no conservador.

No último dia 25 de maio, o presidente deu mostras de sua força agregadora. Convocou para o Dia da Independência Argentina uma gigantesca manifestação pública em comemoração ao seu terceiro ano de mandato, onde mais de 150 mil pessoas – em sua maioria pertencentes a entidades civis, ONGs, grêmios, associações e sindicatos – foram à Praça de Maio. Num discurso rápido, transmitido em cadeia nacional, Kirchner convidou as demais forças políticas a uma coalizão a la chilena para construir um “governo pluralista”. “O presidente encampa um discurso de duas caras: uma moderna e progressista, outra clientelista e ultrapassada, bem ao estilo peronista”, conclui Germán Pérez, professor titular de Ciências Políticas da Universidade de Buenos Aires (UBA).

Para manter aliados, Kirchner utiliza recursos que vão além da sedução retórica de seu discurso. “Ele concentrou o poder que pôde em suas mãos, utilizando uma prática bem conhecida dos argentinos: a troca de apoio político por cargos”, analisa Pérez. Uma das principais fontes de investimento em obras públicas e de infra-estrutura na Argentina provém da retenção de impostos de importação e sobre movimentação de cheque. No total, somam algo em torno de US$ 8,5 bilhões – aproximadamente 3% do PIB argentino. Em vez de serem repartidos diretamente entre as províncias, esses recursos ficam retidos no Executivo à espera de liberação. “(Kirchner) construiu um esquema em que peronistas, radicais (membros da União Cívica Radical – UCR, o maior partido de direita argentino) e outros partidos provinciais ficam basicamente obrigados a entrar em acordo com o presidente para conseguir verba”, explica o consultor político Sérgio Berensztein, professor da faculdade Torquato Di Tella. “Esses gastos não têm nenhum critério de transparência, eficiência, nem de estratégia de investimento público. Kirchner usa esses recursos simplesmente para a manutenção do poder”, alfineta.

A generosidade do presidente acaba quando uma voz, ainda que amiga, diverge da sua. Em maio deste ano, a bancada oficialista expulsou da presidência da Comissão de Agricultura do Congresso a deputada Maria del Carmen Alarcón. Aliada histórica do gobierno K, Alarcón foi punida por discordar publicamente da estratégia adotada pela Casa Rosada para baixar os preços da carne bovina. Durante 75 dias, Kirchner ordenou a suspensão das exportações do produto para aumentar a oferta no mercado interno e forçar os pecuaristas a baixarem os preços – o que ainda não aconteceu, passado mais de um mês da volta das exportações. “Kirchner não aceita oposição externa, nem interna. Ele admite só duas instâncias na política: o subordinado e o inimigo. Não tem meio-termo”, diz o deputado líder da bancada de oposição à esquerda (ARI), Eduardo Macaluse.

Os partidos argentinos iniciam uma fase de recomposição, após terem se fragmentado como conseqüência das recentes crises. A oposição está confusa e, entre os radicais, há uma linha encabeçada por Roberto Iglesias, presidente da UCR, que acena para um apoio ao ARI (a oposição de esquerda ao governo, encabeçada por Elisa Carrió). Num paralelo com o cenário brasileiro, seria como se uma corrente do PFL defendesse apoiar a candidata Heloisa Helena do PSOL nas próximas eleições. O ARI nega essa possibilidade: “Não vamos fazer nenhuma coalizão com a UCR”, esclarece Macaluse. “O que está ocorrendo é que o governo continuará aproveitando essa debilidade (da oposição), para acumular força em detrimento das instituições democráticas, sobretudo do parlamento e dos partidos”, esclarece Berensztein. “Kirchner nunca foi, não é e nunca será de esquerda. Ele não é o Lula. Está mais para Garotinho”, completa.

Discurso de esquerda

Apesar do crescimento econômico vertiginoso dos últimos três anos, a Argentina ainda não experimentou melhoras significativas nas áreas de saúde, educação e emprego. A média salarial hoje é aproximadamente 20% mais baixa do que antes da crise, em 1998. Mais de um milhão e meio de aposentados perderam até 35% do poder aquisitivo nos últimos oito anos e a pobreza infantil beira os 50%, atingindo mais de 5 milhões de crianças argentinas. “Não há diferenças estruturais (em relação aos outros governos da década de 1990), há sim uma diferença grande no discurso. Parece um discurso de esquerda, mas na prática o governo mantém o saqueio de muitos em benefício de poucos”, diz o deputado Macaluse.

Quando assumiu em 2003, Kirchner defendia a educação como “o maior fator de coesão e desenvolvimento humano, promotor da inclusão”. Três meses mais tarde anunciava o plano Mais Escolas – Melhor Educação. Com um crédito de US$ 600 milhões do BID e outros US$ 400 milhões de verba estatal, prometia construir 896 escolas por todo o país. Passados quase três anos, apenas 107 escolas foram construídas com apenas 15,5% do orçamento aprovado.. Outras 91 estão em construção e devem estar prontas até o fim de 2006. No último ano de seu mandato, o governo Kirchner precisaria construir 698 para cumprir sua promessa (média de quase duas escolas por dia).

Pelo menos até agora, a estratégia multifacetada do presidente parece dar certo. Kirchner chegou à Casa Rosada com apenas 23% dos votos, numa vitória por W.O., em que o ex-presidente Carlos Menem se retirou da disputa no segundo turno. Três anos depois, os níveis de aprovação do governo alcançam a casa dos 60% e as primeiras projeções econômicas indicam crescimento da ordem de 7% em 2006. Outro sinal entendido como um referendo aprovatório da gestão K foi emitido nas eleições legislativas de outubro passado. Os candidatos oficialistas somaram mais de 6,6 milhões de votos – o equivalente a 40% dos votos de todo o país. Além de fôlego extra, os números garantem ao presidente grande vantagem na corrida para a reeleição em 2007.

Inimigo íntimo

As pretensões presidenciais do ex-ministro da Economia Roberto Lavagna podem ser um elemento complicador para Kirchner. Como ministro, foi o principal responsável pelo plano de “resgate” do país depois da crise de 2001, quando o país renegociou dívida de mais de US$ 80 bilhões com o FMI. Foi graças à agilidade dessa estratégia que a Argentina conseguiu garantir a governabilidade depois de soterrar cinco presidentes em menos de um mês, em janeiro de 2002. Mas se o governo está tão bem avaliado, por que tanto barulho com o efeito Lavagna? “Ele é o responsável pelo principal mérito do atual governo, que é a estabilidade econômica. Mas, diferentemente de Kirchner, o ex-ministro é tido pelos empresários, pela classe política e pelo FMI como confiável e tem bom trânsito internacional”, arrisca Berensztein.

Lavagna conhece como poucos os bastidores da Casa Rosada. Ele participou do governo de Juan Domingo Perón (1973-1976) em seu terceiro mandato. Depois, foi colaborador extrapartidário de Raúl Alfonsin (1983-1989), embaixador comercial de Fernando de La Rúa (1999-2001) e ex-ministro da Economia de Eduardo Duhalde (2002-2003) e de Néstor Kirchner. “Em certos momentos, Lavagna chegava a ter mais poder que o próprio presidente”, sustenta Carlos Losano, diretor do Instituto de Estudos e Formação da CTA (Central dos Trabalhadores Argentinos).

“Ele é bem conhecido em todo o país e, principalmente, nos setores-chave do empresariado e dos sindicatos. Um fator que pode ajudá-lo ou destruí-lo é ter uma boa relação com a velha política e, simultaneamente, um discurso de acordo com as políticas norte-americanas”, contextualiza Sérgio Berensztein. Numa recente pesquisa, o presidenciável foi avaliado como bom administrador por 41% dos entrevistados. Na opinião de Carlos Losano, a entrada de Lavagna bagunçou o cenário político porque desarticulou as bases do Partido Justicialista (de Kirchner). “Existe o medo de uma debandada em prol da candidatura de Lavagna e o esvaziamento da base de apoio de Kirchner seria um golpe duro para presidente.”

O efeito Lavagna mexeu também com a principal força de oposição, o Proposta Republicana (PRO). O nome mais cotado na legenda centro-direitista para enfrentar Kirchner em 2007 é o do deputado nacional Mauricio Macri. Presidente do Boca Juniors, Macri agora se vê obrigado por seus correligionários a considerar uma aliança com o grupo do ex-ministro – o que poderia afastá-lo da corrida presidencial . “Eu pertenço ao centro-progressismo. Não tenho nada a ver com as expressões de direita ou de esquerda”, defendeu-se Lavagna por meio da imprensa, descartando, por ora, a aliança.

Ainda que não possa admitir em público, o ex-ministro aposta na degradação do atual processo econômico, que ele mesmo ajudou a construir. O aumento da inflação atual seria seu maior aliado na disputa contra Kirchner. Para o pleito não ser definido no primeiro turno, o candidato mais votado não pode ter mais que 45% dos votos nem 10% a mais que o segundo colocado. Nas atuais pesquisas eleitorais, feitas pouco antes do anúncio de Lavagna, Kirchner levava 64,3% dos votos, contra magros 8,5% do novo presidenciável. As previsões feitas até agora indicam que a inflação média na Argentina pode chegar a 9,1% em 2006. Quanto mais alto for este número, maiores as chances de um segundo turno na eleição de 2007. F



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