A efetivação da educação integral

Prevista na LDB, seu conceito ainda está em construção, mas debate sobre o tema mobiliza educadores no Brasil Por Por Glauco Faria e Marília Melhado   Desde...

183 0

Prevista na LDB, seu conceito ainda está em construção, mas debate sobre o tema mobiliza educadores no Brasil

Por Por Glauco Faria e Marília Melhado

 

Desde a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) em 1996, muito tem se discutido a respeito da efetiva execução de diversos pontos que, por enquanto, só estão no papel. Um deles – e talvez dos mais importantes – é o que prevê a implantação progressiva do sistema de educação integral, previsto nos artigos 34 e 87 da lei. No entanto, até agora pouco foi feito para que isso se tornasse rea¬lidade, existindo somente algumas experiências isoladas no Brasil.
O Seminário Nacional Tecendo Redes para a Educação Integral, promovido em agosto pela Fundação Itaú Social, Unicef e Centro de Estudos e Pesquisas em Educação Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), discutiu o tema, abordando possíveis soluções e propostas de políticas públicas. Para Cenise Monte Vicente, representante do Unicef Centro-Sul, o ensino em turnos curtos, como ocorre na maior parte do país, é questionável. “É possível oferecer educação integral com os recursos já existentes na comunidade. Tem muita discussão a respeito do dinheiro, dizem que faltam verbas, mas não há um controle social dos investimentos.”
Mas, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, o conceito de educação integral vai além da questão da jornada de aulas, embora esta seja uma pré-condição para sua efetividade. “Educação integral não significa necessariamente a ocupação do espaço físico em tempo integral, mas envolve também outros fatores, como a ampliação dos conteúdos transversais”, explica Ricardo Henriques, secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da educação (Secad/MEC). “Por exemplo, 94% das escolas têm educação ambiental, mas reduzida a temas específicos, como reciclagem. Não há uma visão coordenada”, completa.
O cientista político da PUC-SP Fernando Abrúcio segue na mesma direção, defendendo não apenas a aplicação de conteúdos transversais na escola, mas também o diálogo entre áreas distintas do poder público para a definição de políticas na área de Educação. “É preciso sair dessa lógica setorializada, se a discussão é a respeito de educação integral, é impossível que ela seja discutida e elaborada no prédio da Educação e longe do da Cultura e de Assistência Social”, exemplifica.

O exemplo da escola de samba
Na prática, o conceito de educação integral ainda está em construção, mas existem alguns “quase consensos” em relação a determinados pontos. A partir disso, ela pressupõe não apenas a presença do aluno na sala de aula, mas sua interação com a comunidade e também a vivência em outros espaços com diferentes atividades. Por conta disso, o simples aumento da carga horária realizado em algumas redes de escolas públicas no país pode não ser suficiente para melhorar a qualidade da aprendizagem, sem um aprimoramento da infra-estrutura ou a limitação do número de estudantes em sala de aula, por exemplo.
“A pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) mostra que o aluno que passa mais horas na escola aprende mais. Mas existem outras variáveis, como o fato de a mãe ter alta escolaridade ou se o estudante tem mais de 20 livros em sua casa pode aumentar também o desempenho do aluno”, afirma Naércio Aquino Menezes, economista da University of London. “Dentro do contexto da educação integral, é necessário pensar se o mesmo efeito positivo pode ser alcançado com menos custo por meio de outras atividades também executadas fora da sala de aula.”
Para Elie Ghanem, professor da faculdade de Educação da USP, é necessário que haja maior discussão em torno do tema. “Círculos muito pequenos elaboram políticas na área, ou é quem está no Executivo ou quem pesquisa na universidade. Eles interpretam a sociedade e lançam políticas, isto é extremamente autoritário”, condena. “Para avaliar essas políticas, ou simplesmente não se fazem avaliações ou só os pequenos grupos o fazem e não divulgam”, criticou.
Já Thereza Penna Firme, doutora pela Stanford University, fez uma comparação curiosa para defender a importância de se pensar e planejar a educação no Brasil. “A escola gasta três dias para planejar o ano todo e a escola de samba gasta o ano todo para planejar três horas: uma hora de concentração, uma hora e meia de desfile e meia de dispersão. Por isso, acho que temos muito o que aprender com as escolas de samba.” F



No artigo

x