A mídia ignora os direitos humanos

Classificados como “movimentos que defendem bandidos”, entidades de direitos humanos sofrem com tratamento dos grandes veículos da imprensa Por João Freire   Domingo, 10 de dezembro de...

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Classificados como “movimentos que defendem bandidos”, entidades de direitos humanos sofrem com tratamento dos grandes veículos da imprensa

Por João Freire

 

Domingo, 10 de dezembro de 2006. Uma grande comemoração foi realizada no Rio de Janeiro, em homenagem ao Dia Internacional dos Direitos Humanos. O evento organizado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) reuniu mais de 20 mil pessoas para assistir aos shows de Chico Buarque, Gabriel o Pensador, Daniela Mercury, Elza Soares e Gilberto Gil, na Praia de Botafogo. A grande mídia comercial (impressa e eletrônica) ignorou o evento. No dominical Fantástico (TV Globo), uma matéria com 23 segundos de duração mencionou a comemoração, de forma telegráfica. Para esses veículos, o evento não existiu e, conseqüentemente, para a maioria da população, os direitos humanos continuam sendo pouco conhecidos.
O desinteresse pelo evento da SEDH não foi um fato isolado. Todos os eventos sobre direitos humanos são boicotados pela mídia comercial. Foi assim, por exemplo, com a Conferência Nacional e com o Congresso Interamericano, realizados em 2006.
Outro exemplo ocorreu na terça-feira, 20 de novembro de 2007. Na data em que se comemora o Dia da Consciência Negra, o Jornal Nacional veiculou uma matéria questionando a “utilidade” de esse dia ser feriado. Segundo a matéria, causaria prejuízos para a indústria e para o comércio. Um dos entrevistados afirmou que o feriado é inconstitucional. O preconceito e a luta pela igualdade racial no Brasil não foram abordados.
É importante lembrar que as emissoras de TV são concessões públicas e têm como obrigação constitucional priorizar a informação, a cultura, as artes e a educação. Inclusive a educação em direitos humanos. Mas, na prática, enquanto alguns veículos ignoram, outros discriminam os movimentos de direitos humanos, afirmando que eles “só defendem bandidos”.

“A contribuição prestada pela mídia no Brasil tem sido pouco expressiva e muito aquém das suas potencialidades para a formação e difusão dos valores da cidadania e do respeito aos direitos humanos”, alerta o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (PNEDH).
Um dos capítulos do PNEDH tem o título “Educação e Mídia”, onde estão propostas várias ações que visam estimular uma atuação responsável da mídia com relação aos direitos humanos. Esse documento foi produzido pela SEDH, MEC e Unesco e teve a colaboração de mais de 5 mil pessoas, de 26 estados brasileiros. Para conhecer melhor o PNEDH, acesse: http://www.mj.gov.br/sedh/ct/spddh/pnedh.pdf
Ao mesmo tempo em que boicota esses movimentos, a mídia cobra ações do governo federal para melhorar a saúde, a educação, a segurança pública, mas não menciona que esses são alguns dos direitos humanos. Pode parecer uma contradição, mas não é. Quando a mídia deixa de noticiar algum fato, há sempre uma intenção. A seleção das informações é rigorosa para garantir que os interesses econômicos e políticos dos controladores da mídia sejam preservados. “A imprensa é um espaço público, mas com portões e porteiros seletivos”, explica o professor de jornalismo Luiz Martins da Silva, da Universidade de Brasília (UnB).
A credibilidade, que deveria ser o patrimônio mais prezado pelas empresas de comunicação, fica em segundo plano. Na prática, a imprensa se reduziu aos “conteúdos passíveis de patrocínio”, como destaca o filósofo Jürgen Habermas. “A imprensa tem de se constituir em poder íntegro, sob pena de perder a sua essência e também a sua sobrevivência”, complementa o professor Martins.
A mídia, quando menciona os direitos humanos, tem como objetivo principal criticar o governo. Foi assim com as poucas matérias sobre o tema, veiculadas em 2006. Um relatório da Anistia Internacional alertava para a tolerância do governo com a violência e a tortura praticada por policiais. Algumas matérias se basearam nesse relatório para atacar o governo. No entanto, as denúncias não foram apuradas, e ninguém foi entrevistado. No mesmo relatório em que havia críticas, havia elogios ao programa Bolsa Família. Essa parte do relatório, naturalmente, não foi mencionada. “A mídia vive no calcanhar de um governo popular como o do presidente Lula”, explica a deputada federal Iriny Lopes (PT/ES), da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM). “O papel social da mídia está subvertido. Ela funciona como partido político, mistura opinião com informação e em uma democracia isso não pode ocorrer”, conclui a deputada.



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