A ousadia de experimentar

A Mó!, mostra de música interconectada com outras artes, consegue levar obras inovadoras ao público. Sem intermediários Por Mauricio Ayer   Se a música é um grande...

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A Mó!, mostra de música interconectada com outras artes, consegue levar obras inovadoras ao público. Sem intermediários

Por Mauricio Ayer

 

Se a música é um grande negócio de entretenimento, os músicos, principalmente aqueles cujo trabalho não se encaixa nos padrões estéticos do grande mercado, acabam se tornando reféns de produtores e gravadoras, que sabem o que vende e o que não vende, e não parecem estar muito interessados em fomentar a diversidade musical. É por isso que uma iniciativa como a Mó! – Movimentação Musical, soa tão interessante e alvissareira.
Cansados de esperar a sempre reclamada “mudança de mentalidade” dos curadores, produtores, críticos e jornalistas culturais, quatro bandas independentes de São Paulo decidiram criar um espaço onde coubessem as suas propostas musicais e que lhes permitisse chegar ao seu público sem intermediários. A Mó!, que começou em agosto de 2006, é uma mostra de música interconectada com outras artes que teve sua sétima edição em dezembro, no espaço B_arco, no bairro de Pinheiros, em São Paulo.
A iniciativa rompe com a postura passiva de esperar que vá surgir um produtor ou curador para “descobrir” o trabalho, programar num Sesc ou num evento cultural, ou ainda consagrar num festival. “Essas pessoas [os produtores] têm uma idéia na cabeça do que elas querem ouvir. Se você não misturar com música eletrônica parece que você não está fazendo nada de novo”, ironiza Manu Maltez, baixista, cantor e compositor do grupo Cardume, que também é artista plástico. “Eles têm um pouco de dificuldade de lidar com coisas que não estão esperando. E nós estamos fazendo coisas que não são o esperado.”
Sobre a concepção da mostra, Manu explica que “a idéia não é chamar toda a diversidade do que acontece em São Paulo, mas sim de mostrar uma cena musical que existe na cidade”. Trata-se de uma música experimental, que trafega entre os rótulos e as tradições. “Em geral, são músicos que têm uma formação em música popular e uma aproximação forte com música erudita, ou o contrário. Você não toca esse tipo de música nem no Teatro Municipal, nem num bar, nem numa casa de shows. Então tivemos que criar o nosso espaço.” Fábio Barros, líder do Grupo Grão, complementa: “Os trabalhos são bem diferentes entre si, mas eles têm em comum uma inquietação musical. Não são trabalhos acomodados, que pegaram um filão do mercado que já é tido como boa música”.
Inquietação, ousadia e vontade de experimentar são os elementos básicos esperados também dos grupos que são convidados a participar, ao lado do Cardume, do Grupo Grão e das bandas Projeto B e Axial, que compõem o grupo de organizadores. Um convidado freqüente é o Armazém Abaporu, liderado pelo compositor Sérgio Cardoso. “A idéia é expandir o repertório estético do público, mexer com as muitas possibilidades”, defende Sérgio.
O formato do evento é, portanto, o de uma série de shows com as bandas organizadoras mais artistas convidados. Há ainda espaço para diálogos com as artes plásticas (como as projeções das gravuras de Manu Maltez), o teatro (como a participação de um trabalho do pianista Lincoln Antonio em parceria com a atriz Georgette Fadel) e a literatura (como nas leituras do escritor Marcelino Freire ou ainda no conto-concerto O diabo era mais embaixo, de Manu, para trio de contrabaixos e pequeno grupo instrumental). Outra característica é a de sempre fazer dois ou mais shows por noite. “A idéia é agregar públicos, para que um conheça a música do outro”, explica Yvo Ursini, guitarrista e compositor do Projeto B.
Já foram realizadas edições no Sesc e no teatro do Colégio Santa Cruz, mas também em pequenos espaços fora da região central. E todos põem a mão na massa. “Show do Projeto B, eu estou vendendo CD e o Sergio está fazendo o som. É meio um mutirão. Nós mesmos vamos ao teatro, levamos o som, vamos à rádio levar o release”, conta Fábio.

Curadoria e produção
O que aconteceu no momento em que deixaram de esperar a curadoria de uma instituição e foram atrás de mostrar o seu trabalho por sua conta é que os grupos passaram a ser eles próprios curadores. Com a procura de outros artistas para participar da Mó!, viram-se obrigados a fazer uma seleção.
Além da questão da não acomodação estética, um dos critérios para participar é ter produzido um CD. A idéia é garantir a consistência do evento, com grupos que não são uma reunião ocasional de músicos, e que estão interessados num trabalho continuado. “Pode não ser o critério mais justo, mas, querendo ou não, ter um CD significa que a pessoa ou o grupo focalizou uma energia e consolidou um trabalho”, defende Fábio.
A produção de um CD, principalmente quando é feita pelos próprios músicos, registra a identidade de um trabalho. Isso caracteriza os independentes, que se beneficiam com a difusão dos recursos tecnológicos nos tempos em que vivemos. “Hoje tem estúdio barato, acessível e com qualidade. Antigamente era caríssimo”, argumenta Fábio. Muitos músicos conseguem montar em casa uma pequena ilha de produção com ótimo nível. Alguns trabalhos, no entanto, têm especificidades que exigem salas de gravação maiores e mais bem equipadas, o que encarece um pouco a produção. Mesmo assim, é algo possível de se realizar.
Mas não se pretende limitar o ser ou não ser independente a uma mera questão técnico-econômica sem enxergar as implicações estéticas disso. “Muita gente que é chamada de independente faz uma música com base no que as grandes gravadoras faziam ou fazem. Não estão usando as vantagens artísticas de ser independente, que é não ter um produtor dizendo como você deve fazer, e fazer como você acha que deve ser”, defende Manu.
“Tecnicamente, independente é tudo o que não é das majors”, diz Yvo. “Só que o rótulo que vende o ‘independente’ é a questão estética. Então as pessoas querem ter cara de experimental, mas vender como as majors.” Vale lembrar que nesta categoria entram desde fenômenos de massa, como os Racionais MCs, que vendem como as grandes gravadoras, mas não se importam e até incentivam a reprodução livre de seus CDs, e artistas e grupos que atuam em pequenos nichos de mercado e para quem os CDs não chegam a ser produtos a serem distribuídos e vendidos em escala industrial. Neste caso, que é o dos grupos que organizam a Mó!, o CD é mais um cartão de visitas, um instrumento de divulgação do trabalho. As vendas são realizadas principalmente nos shows pelos próprios músicos, e a renda mal chega para cobrir os custos de produção. Tanto que muitos desses grupos disponibilizam as músicas para serem baixadas da internet.
O que se vê, portanto, é algo muito diferente da crise do mercado fonográfico, depois de anos consecutivos de grandes perdas de vendas de CD. Se as grandes gravadoras se preocupam, e não sabem muito bem o que fazer com as facilidades que as novas tecnologias trazem em termos de reprodutibilidade livre das músicas, os pequenos não vêem a situação com maus olhos. “Essa crise do CD até ajuda um pouco”, opina Sergio. A tendência parece ser a de equalizar mais o mercado, reduzindo, ainda que pouco, a diferença entre grandes e pequenos “negócios”.
Quanto à mídia, o processo é parecido. No momento, “a divulgação pela mídia é mais para tornar o nome familiar”, acredita Manu. “Não adianta sair no Guia da Folha. Às vezes o trabalho sai lá, mas alguém vai por causa disso?”, questiona Yvo. “O que faz a diferença mesmo é o trabalho de formiguinha, o boca-a-boca”, conclui.
E afinal, será que não é assim que tem que ser? As pessoas não têm mesmo que inventar o seu lugar no mundo, sem esperar que ele chegue de presente? É claro que a música, não como entretenimento mas como cultura, não conta com políticas públicas de apoio estruturadas – e isso se deve em grande parte à falta de articulação dos músicos, além de uma visão da cultura.

Consistência fora dos modismos
De São Paulo, Caetano Veloso disse, num show realizado no parque do Ibirapuera, que era a menos brasileira das cidades, o que seria uma desvantagem, mas também uma imensa vantagem. A desvantagem seria a de ser um lugar que enxerga mal sua própria cultura, que não delineia um rosto cultural reconhecível e exportável, e que não entende muito bem como é que se encaixa no quebra-cabeça nacional. A vantagem estaria na possibilidade de vestir todas as máscaras que lhe sirvam, a liberdade de ser mutante e inventar a cultura a partir de quaisquer fontes, sem ter de fazer jus a um compromisso com a cultura regional, mas podendo visitá-la a qualquer momento.
É um pouco esse espírito de turista em seu próprio território que circula entre os músicos que agitam a Mó!. Ter como referência gêneros tradicionais, mas fazer algo que não se enquadra em nenhum gênero específico é algo comum a todas as bandas. Uma música “especulativa”, diz Yvo Ursini, incorporando o jargão da música erudita contemporânea.
O Projeto B de Yvo trabalha nessa linha. “Basicamente, os músicos da banda eram roqueiros, estudaram jazz, foram pra faculdade, piraram com música erudita, e se reuniram para criar uma sonoridade própria. O que fazemos é especular com a escrita erudita num combo de jazz”. As sonoridades são um aspecto marcante, tendo como referência o trabalho do estadunidense Bill Frisell, em misturas com música contemporânea.
Já o Armazém Abaporu utiliza de modo mais explícito materiais de música tradicional brasileira. Com uma rítmica forte e sonoridade ruidosa, observa-se a clara influência de Hermeto Paschoal. “Tentamos trazer a experimentação de texturas sonoras, composições espectrais [técnicas harmônicas de música contemporânea], para dentro de um universo mais reconhecível para o público médio. Então você vai fazer o xote, coloca alguns elementos e começa a mexer nas estruturas”, descreve Sérgio Cardoso.
O Grupo Grão trabalha com canções a partir de uma sonoridade particular do grupo, que é o resultado do trabalho pessoal de cada músico. A opção por não utilizar bateria e dar mais importância à percussão e os sons eletrônicos de Bruno Prado resulta numa grande riqueza de timbres. Essa riqueza é trazida também pelo uso de instrumentos como viola de coxo, viola caipira, violão de sete cordas, sanfona, mas num contexto sonoro original. A intenção, segundo Fábio Barros, é “partir de uma coisa tradicional pra chegar em algo que seja universal”.
Assim como o Grão, a canção é o foco principal do grupo Cardume, embora produza também música instrumental. O trabalho de Manu Maltez, que compõe as músicas e letras e é o responsável pelos arranjos, tem como característica principal o jogo com palavras e sons, em que ambos se correspondem estruturalmente.



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