A perigosa invisibilidade da Aids

Apesar dos medicamentos que prolongam e melhoram a vida do soropositivo, a mudança no perfil dos novos infectados e o pouco destaque dado pela mídia pode fazer com que número de casos aumente ainda...

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Apesar dos medicamentos que prolongam e melhoram a vida do soropositivo, a mudança no perfil dos novos infectados e o pouco destaque dado pela mídia pode fazer com que número de casos aumente ainda mais

Por Brunna Rosa

 

A mídia chamava de “peste gay”, a sociedade ignorava e a comunidade científica não sabia explicar. Foi desta forma que o mundo conheceu a Aids no início dos anos 1980 e foi obrigado a lidar com a epidemia que, em um curto período, gerou conseqüências sociais, econômicas e políticas devastadoras em muitos países. Segundo dados do relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) de 2007, a síndrome, desde sua identificação, foi responsável por cerca de 28 milhões de óbitos no mundo inteiro. Neste ano, 2,1 milhões de pessoas morreram vítimas da doença e 2,5 milhões de pessoas contraíram o vírus.

Estima-se que no mundo atualmente 33,2 milhões de pessoas sejam portadoras do HIV, o vírus transmissor da doença. Em 2006, o relatório publicado pela Unaids afirmava que 39,5 milhões de pessoas estavam infectadas com o vírus. Mas uma revisão na metodologia para contagem de dados, após reavaliação da epidemia na Índia e em mais cinco países da África Subsaariana (Angola, Quênia, Moçambique, Nigéria e Zimbábue), resultou na diminuição das estimativas. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, existem 613 mil pessoas infectadas pelo HIV e 182 mil mortes em decorrência da Aids. “A história da Aids no país tem três grandes pontos. O primeiro vai desde seu surgimento, entre 1980 e 1981, até meados dos anos 90, quando não havia respostas. Entre 1995 e 1996 acontece o divisor de águas e começa a haver tratamento. Desde então, há a luta pela ampliação e acesso às novidades terapêuticas”, esclarece Mário Scheffer, sanitarista e membro do Grupo Pela Vidda/SP.

Em 1996, o Brasil se tornou o primeiro país em desenvolvimento a se comprometer com o acesso gratuito e universal aos anti-retrovirais. A lei nº 9.313/96 garantiu acesso aos medicamentos por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e se tornou um dos pilares do programa brasileiro, referência para o tratamento da Aids no mundo. A iniciativa é responsável pela queda na mortalidade e as internações, além de aumentar a expectativa de vida dos portadores. Em recente pesquisa realizada pela médica estadunidense Amy Nunn em conjunto com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) a política de acesso gratuito aos medicamentos anti-retrovirais fizeram com que o país economizasse US$ 1 bilhão entre 2001 e 2005, por meio de negociações com os laboratórios proprietários de patentes e a produção genérica de oito medicamentos. Apesar do sucesso da iniciativa, os custos dos tratamentos duplicaram nos últimos anos.

“Atualmente, 200 mil pessoas dependem dos medicamentos para viver. O Brasil optou, acertadamente, em dar acesso universal aos medicamentos, mas, com o número crescente de pacientes e os limites impostos à produção dos genéricos, como vamos garantir a continuidade e as novas adesões ao tratamento?”, questiona Scheffer. Ele retorna a uma questão antiga do movimento de luta contra a Aids: a sustentabilidade. O assunto é espinhoso e diz respeito às licenças compulsórias dos anti-retrovirais sob patentes, que têm respaldo na legislação nacional e nos acordos internacionais firmados pelo Brasil, além de investimentos em laboratórios estatais. O Brasil quebrou a patente do Elfavirenz, o anti-retroviral produzido pelo laboratório Merck, em maio deste ano, e passou a importar versão genérica produzida na Índia, além de investir em futura produção própria. O caso quase se repetiu em julho, quando, após uma truncada negociação junto à multinacional Abbott, responsável pelo medicamento Kaletra, a indústria farmacêutica estadunidense cedeu e reduziu em 29,5% o preço do medicamento. “O progresso científico no Brasil é grande. Estão entrando no mercado novos medicamentos, que tornam cada vez mais a Aids uma doença crônica, com novas terapias”, garante o pesquisador da Fiocruz Francisco Inácio Bastos, que participou do estudo sobre a política de acesso gratuito aos medicamentos anti-retrovirais. Ele defende que, para garantir a sustentabilidade, é necessário o governo adotar uma postura mais agressiva e ágil nas negociações e compras do medicamento.

Novas tendências

O relatório da Unaids acompanha a mudança, que acontece já há alguns anos, no perfil dos novos portadores do vírus. A epidemia está se concentrando na população heterossexual, feminina e idosa, acabando com o conceito de grupo de risco. “Na década de 80, no começo da doença, havia 26 homens infectados para cada mulher. Hoje a proporção é de um homem infectado para cada mulher, estamos vivendo uma feminilização da Aids”, explica a advogada feminista e consultora da Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento (Agende) Elizabeth Garcez.

A taxa de incidência do HIV no país está estabilizada em torno de 0,61% da população, número considerado alto pelo Programa Nacional de DST/Aids e pelo movimento de luta contra Aids. Formas de diminuir a taxa de contaminação e a tendência de crescimento do contágio em outros grupos vêm pautando o debate acerca das renovações nas campanhas de prevenção. “Não basta dar informação e insumo se você não trabalhar a questão social e econômica. A epidemia está cada vez avançando mais na periferia”, pondera Mário Scheffer.

Esta análise mais abrangente parece ecoar no movimento nacional de luta contra a Aids. Tanto que, no final do XIV Encontro Nacional de ONGs Aids, que aconteceu em novembro na cidade de Goiânia (GO), foi apresentado documento elaborado pelas 250 ONGs participantes com sugestões para desenvolvimento de ações pontuais com o intuito de diminuir o número de novas infecções. Além disso, o evento também produziu um texto de reflexões sobre a necessidade de articulação dos movimentos sociais que lutam contra a Aids a partir do contraponto ao neo¬liberalismo, da defesa do SUS e da renovação do ativismo.

Banalização

A mídia exerceu um papel decisivo na divulgação da epidemia. No início, as principais revistas semanais do país dedicavam capas sensacionalistas e inúmeras páginas sobre o assunto. As editorias dos jornais, desde os grandes até os mais populares, também tratavam o assunto de uma forma alarmista e histérica, utilizando-se do pânico, manipulando a contabilidade de infectados e usando o impacto psicológico da certeza de morte.

Ao mesmo tempo, o assunto trouxe à tona as práticas de comportamentos sexuais e múltiplas formas de relacionamentos, ainda muito marginalizadas, e obrigou a sociedade a lidar com temas como prostituição, homossexualidade, drogas e o preconceito com os portadores do vírus. Hoje, a situação é diferente. “Apesar do risco que ainda representa para a sociedade, a Aids caiu, infelizmente, na rotina midiática. As notícias dos últimos anos demonstram que a Aids, nas poucas matérias abordadas, tem sido tema da imprensa quase que exclusivamente em função das descobertas científicas acerca de medicamentos e tratamentos ou, no caso brasileiro, quando há uma ação governamental contra os laboratórios internacionais relacionadas, por exemplo, à quebra de patentes”, aponta o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo César Castro de Souza, que tem como tema de sua pesquisa de doutorado a Aids e a mídia impressa nas décadas de 1980 e 90. “Limitar-se às editorias de ciência, onde estas poucas notícias – às vezes, apenas notas – têm espaço, significa simplesmente atingir um público muito restrito, muitas vezes altamente especializado, no geral bem informado sobre a doença. Acredito que a mídia está deixando de lado um papel social importantíssimo: o de ser, pela informação, um agente de transformação. Neste caso, contribuindo para a redução do número de pessoas na iminência de contrair o HIV.”

Com o tema banalizado e sem o apelo polêmico de décadas atrás, a Aids enfrenta dificuldades para ser assunto fora de datas pontuais, como o Carnaval ou o 1º de Dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Os especialistas na doença divergem sobre os motivos desse descaso. A alegação de que a sociedade civil não consegue mais mobilizar e ocupar os espaços públicos tem a ver com a pouca visibilidade na mídia, segundo o sanitarista Mário Scheffer. Já o pesquisador Paulo César Castro acredita que a mídia confia excessivamente nos novos tratamentos e a possibilidade de descoberta de uma cura imediata para a doença. Independentemente dos motivos, ativistas, médicos e pesquisadores são unânimes em reafirmar a necessidade de não retrocedermos aos problemas iniciais da epidemia, o que exige a adaptação e a reinvenção das campanhas de prevenção e a garantia da continuidade ao acesso universal aos medicamentos e serviços de apoio aos portadores.
A epidemia na África

O continente africano continua sendo o mais afetado pela epidemia da Aids. Mais de dois terços – 68%–, de todas as pessoas infectadas pelo HIV no mundo vivem na África Subsaariana. Atualmente, existem 22,5 milhões de pessoas vivendo com o vírus nesses países. Destas, 61% são mulheres.

A região também tem o maior percentual mundial de mortes causadas pelo HIV: 76%. A alta taxa de mortalidade se dá basicamente pela constatação tardia da doença, dificuldade de locomoção até as clínicas especializadas e de acesso aos anti-retrovirais, que ainda são muito precário na região. Os dados são do relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids (Unaids) este ano, que também estima em 1,7 milhões de pessoas infectadas em 2007, na África. Apesar do elevado número, a Unaids considera importante a redução no número de novos casos que vem acontecendo desde 2001.

Uma tendência se confirmou com a divulgação deste novo relatório. O mundo começa a voltar os olhos para a Ásia, especialmente no Sul e Sudeste, onde estima-se que vivam atualmente 4,9 milhões de pessoas com HIV, e o ritmo de expansão da epidemia é acelerado. Desde 2001, o número de pessoas que vivem com Aids aumentou em 150%.



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