A questão do plano estratégico

Fórum Social Mundial em processo Por Moacir Gadotti   A discussão sobre o formato do FSM vem sendo pautada desde os primeiros encontros do Fórum. E não...

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Fórum Social Mundial em processo

Por Moacir Gadotti

 

A discussão sobre o formato do FSM vem sendo pautada desde os primeiros encontros do Fórum. E não poderia ser de outro modo na medida em que o FSM está criando algo novo no cenário político global e não pode, por isso mesmo, reproduzir métodos velhos. Como nossas cabeças pensam de acordo com nossos paradigmas, tão presentes em tudo o que fazemos, precisamos nos colocar a questão de nossos objetivos estratégicos e de como atingi-los. Há algo de “caórdico” nesse processo, isto é, existe uma ordem – traduzida pela nossa missão, que é permanente – e há também um caos criativo no processo do Fórum, representado por essa busca de um formato mais eficaz.
Um exemplo dessa discussão foi dado pela polêmica em torno do artigo de Walden Bello, membro do Conselho Internacional do FSM e diretor do Focus on the Global South (Bangkok), intitulado “O Fórum Social Mundial na encruzilhada”. Nesse artigo, ele apresenta um pequeno histórico do FSM, destacando sua função básica de representar um espaço aberto e democrático de auto-organização dos movimentos sociais e ONGs, na esteira das grandes mobilizações antiglobalização dos anos 90 e a constituição de uma nova cultura política frente aos velhos partidos marxistas-leninistas. A encruzilhada de hoje estaria na sua incapacidade de “tomar posição”, de superar a sua “neutralidade”. Ele cita o Fórum de Caracas como o momento no qual o FSM se viu numa encruzilhada, instigado pelo movimento político bolivariano, e sustenta que Caracas “foi uma estimulante confrontação com a realidade”. Para Bello, o FSM deveria criar um contrapoder e “ocupar espaços de poder no nível local, nacional e regional”, utilizando-se, para isso, das múltiplas redes envolvidas no seu processo. O FSM não pode ser apenas um fórum de idéias; deve ter uma agenda política de ação global.
Francisco Whitaker, um dos fundadores do Fórum, responde a Walden Bello em outro artigo – “As encruzilhadas nem sempre fecham caminhos” – no qual sustenta que o FSM está seguindo por um “caminho paralelo” ao da resistência concreta ao neoliberalismo. Para ele, o FSM abriu esse “novo caminho”, paralelo, “não para substituí-lo mas para dar-lhe apoio”. “Estes dois caminhos não têm por que se cruzar. Sendo distintos, podem seguir paralelamente.” Em vez de um substituir o outro, Whitaker propõe que os dois se relacionem “intensa e permanentemente”. Nesta visão, vejo o perigo da separação entre ação e reflexão. Ele afirma que os organizadores da primeira edição do FSM (2001) viam o Fórum como um espaço de idéias e articulações “a serviço dos que estavam na ação”. Seria o mesmo que utilizar um caminho para pensar e outro, paralelo, para agir. Não creio que exista um FSM dos “de dentro” e um FSM dos “de fora”. Nem podemos dizer que o Fórum apenas oferece uma “oportunidade” para as ONGs e movimentos sociais, separando o Fórum de seus atores. O fato é que o formato atual do FSM não está permitindo a articulação efetiva de ações globais e permanentes. Para alguns esse formato se esgotou e começa a desmobilizar seus participantes. Em Nairóbi, programou-se o quarto dia do encontro para a articulação de ações. Foi a primeira vez que se fez isso. A meu ver foi o ponto alto e inovador do Fórum de Nairóbi. Contudo, por diversas razões, como afirmou Whitaker em seu artigo, esse espaço não foi utilizado “plenamente”. Será necessário fazer um grande esforço de autocrítica para reforçar essas inovações nos próximos encontros e implementá-las no processo permanente do FSM e não só nos seus eventos. Seria uma forma de superar a atual “neutralidade” apontada por Bello: a articulação política dos movimentos e ONGs vai confrontar-se com a sua fragmentação. O FSM surgiu exatamente pela necessidade de superar isso.
É verdade que os movimentos estão mais articulados hoje do que antes do FSM. Mas ainda não têm encontrado um espaço articulado e articulador para incidir politicamente no mundo que desejam transformar. Nesse contexto não devemos esquecer as ONGs e sindicatos que, com os movimentos, também são parte integrante do FSM e da sociedade civil planetária. O formato atual não permite a constituição de convergências e a construção de alianças, propósito inicial do Fórum. Até para utilizar mais “plenamente” esse espaço – utilizando as palavras de Whitaker –, é preciso insistir na reformatação do FSM.
Falta um plano estratégico de longo prazo. Já avançamos muito. Janeiro de 2008 vai exigir mais de nós para conectar-nos globalmente e dar visibilidade às nossas múltiplas iniciativas. Avançamos muito nestes sete anos na formação de uma consciência planetária de resistência ao neoliberalismo. Mas ele continua muito vivo. No próximo número discutiremos o FSM 2008, em busca de ações globais.



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