A terceirização global

Mundo do trabalho Por Marcio Pochmann   A terceirização do trabalho não é uma realidade recente no mundo da produção. Também a experiência do uso da terceirização...

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Mundo do trabalho

Por Marcio Pochmann

 

A terceirização do trabalho não é uma realidade recente no mundo da produção. Também a experiência do uso da terceirização entre distintos países pode ser identificada durante os anos da II Guerra Mundial. Contudo, o seu avanço considerável somente de deu a partir da crise econômica do início da década de 1970, com a difusão de uma profunda reestruturação capitalista que levou à expansão tanto das empresas em rede como da subcontratação da força de trabalho para além das fronteiras nacionais. Até então, a terceirização dos contratos de trabalho encontrava-se contida no âmbito nacional da dinâmica das relações de trabalho.
O novo contexto econômico supranacional decorreu do esgotamento da relação entre as grandes e rígidas escalas de produção de bens e serviços adotados em diversos países por intermédio das empresas multinacionais e a capacidade de consumo saturada de bens e serviços padronizados pelo fordismo aos segmentos sociais com renda disponível. Com isso, a desaceleração das vendas e, por conseqüência, da produção (e da produtividade) levou as empresas a aumentarem seus preços na tentativa de evitar a queda do faturamento.
Ao longo da década de 1970, essa orientação empresarial gerou a fase conhecida por estagflação (estagnação da produção com inflação), sobretudo nas economias desenvolvidas. Como resposta, os governos dos países ricos terminaram optando, em maior ou menor medida, por políticas recessivas orientadas pelo receituário neoliberal, conforme as experiências dos Estados Unidos e Inglaterra, logo seguidas por outras nações.
Nesse novo ambiente em que passaram a predominar altas e variáveis taxas de juros reais, a manutenção de grandes estoques pelas empresas do padrão fordista tornou-se quase proibitivo, tendo em vista tanto o maior custo que isso implicou como a perda relativa de ganhos possibilitados pelas aplicações financeiras nos mercados especulativos. Naquela oportunidade, a exitosa experiência japonesa de produção a tempo justo (just in time) já indicava a possibilidade de operação com estoques reduzidos a partir de uma inovadora organização empresarial (firma enxuta, downsize, qualidade total, entre outras medidas). Para isso, tornou-se necessária tanto a constituição da empresa em rede como a subcontratação da força de trabalho.
Em outras palavras, a empresa em rede permitiu a integração de praticamente todo o processo de trabalho adotado no interior das cadeias de produção, mesmo que isso viesse acompanhado de um conjunto crescente de empresas menores e especializadas em cada uma das etapas da atividade empresarial. Em virtude disso, a integração vertical do processo produtivo avançou simultaneamente à desverticalização das atividades no interior da grande empresa capitalista, cuja ampliação da presença de trabalhadores subcontratados acontecia imediatamente à redução dos empregos contratados diretamente pela grande empresa. A retomada do lucro empresarial foi acompanhada pelo acirramento da competição intercapitalista, implicando concentração e centralização ainda maior do capital (fusão e conglomeração de empresas). Com isso, as antigas empresas multinacionais transformaram-se em corporações transnacionais que operam acima dos países, alterando a relação da matriz com as filiais para permitir a produção de bens e serviços em escala global, a partir da localização geográfica onde se alcança menor custo e maior qualidade.
Nesse sentido, passou-se a assistir não apenas à reestruturação do sistema de produção, como o deslocamento de atividades, acompanhadas de oportunidades de empregos para outros países, especialmente os asiáticos. O resultado foi a mudança na composição setorial do emprego no mundo. O movimento experimentado pelas nações desenvolvidas que se seguiu à industrialização implicou reduzir a ocupação rural acompanhada pela ampliação dos postos de trabalho urbanos gerados pela indústria e serviços. Nas últimas três décadas, essa situação ganhou maior dimensão nos países não desenvolvidos, que mesmo sem grande crescimento da industrialização, observam a ampliação da população trabalhadora urbana, geralmente alocada no setor de serviços. Este, por sinal, pode ser, muitas vezes, estritamente voltado às estratégias de sobrevivência de trabalhadores desempregados e subocupados.
No caso dos países desenvolvidos, o emprego da mão-de-obra na agropecuária alcança índices abaixo de 5% do total da ocupação. Mas a principal referência em termos de redução do peso da força de trabalho no campo ocorre, sobretudo, em países como China e Índia, que rapidamente reduzem o contingente de trabalhadores rurais. O resultado da maior expansão das ocupações urbanas pode estar relacionado ao avanço das cadeias produtivas dos países de alta renda por habitante para as economias não desenvolvidas, acompanhadas da internacionalização das empresas, do deslocamento das firmas e dos investimentos estrangeiros. Percebe-se que atualmente são os países não desenvolvidos que possuem uma das mais altas participações do emprego industrial na ocupação total, representando quase 1/4 do emprego total (equivalente à situação dos países desenvolvidos vivida na década de 1950).
Possivelmente, o emprego industrial continuará a se expandir nas economias não desenvolvidas, especialmente com o peso que os países asiáticos passam a ter nas cadeias produtivas de bens manufaturados. Papel principal deve ser creditado às economias asiáticas, que quase triplicaram o peso do emprego industrial nas últimas três décadas. Já na América Latina ocorreu uma situação inversa. Países como o Brasil reduziram o peso relativo do emprego no setor industrial mundial (de 3% em 1980 para 2,3% em 2006). Simultaneamente, sua participação no emprego agropecuário do mundo se elevou de 1,8% em 1980 para 2% em 2006.
Diante da força da terceirização global, há que se repensar novas estratégias nacionais de inserção econômica. O Brasil deveria aproveitar essa oportunidade para se reposicionar no panorama da nova divisão internacional do trabalho, com políticas de fortalecimento da capacidade empresarial e de qualificação dos trabalhadores vinculadas à mudança na condução da atual política macroeconômica nacional. F



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