A vida depois de Fidel

Confira a avaliação de personalidades de diferentes áreas a respeito do futuro de Cuba, oficialmente sem o líder de Sierra Maestra no poder Por Anselmo Massad e Glauco Faria  ...

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Confira a avaliação de personalidades de diferentes áreas a respeito do futuro de Cuba, oficialmente sem o líder de Sierra Maestra no poder

Por Anselmo Massad e Glauco Faria

 

Veja, sabemos que o tempo passa e que as energias humanas se esgotam. Mas vou lhe dizer o que disse aos companheiros da Assembléia Nacional em 6 de março de 2003, quando me reelegeram presidente do Conselho de Estado: ‘Agora compreendo que meu destino não era vir ao mundo para descansar no final da minha vida’. E prometi estar com eles, se assim desejassem, todo o tempo que fosse necessário, enquanto soubesse que poderia ser útil. Nem um minuto a menos, nem um minuto a mais.”
Era dessa forma que o líder cubano Fidel Castro tratava a questão do seu afastamento do poder, que, por conta da sua idade, já se avizinhava quando deu esse depoimento ao jornalista francês Ignacio Ramonet. A declaração é encontrada em meio às entrevistas concedidas entre os meses de janeiro e dezembro de 2005 ao editor do Le Monde Diplomatique, e que se transformaram no livro Fidel Castro – Biografia a Duas Vozes, lançado no Brasil pela Editora Boitempo.
Ali, ele já discutia sua sucessão e como Cuba enfrentaria o desafio de assegurar a perenidade das conquistas da revolução, tentando mostrar que o regime do país não era algo personalista sustentado somente na figura do herói de Sierra Maestra. Muitos especialistas, tanto à direita quanto à esquerda, sempre acharam que a saída do líder cubano da presidência poderia significar um momento propício para uma ofensiva contra os comunistas caribenhos. Mas o fato é que Fidel está longe do poder, ao menos formalmente, desde 1º de agosto de 2006 e Cuba não passou por nenhuma mudança que afetasse sua realidade.
Mas toda e qualquer discussão sobre o futuro da ilha passa por uma questão que vem sendo pouco discutida na grande imprensa, mais preocupada em focar – e espinafrar – a figura de Fidel: o embargo estadunidense. Nas barbas do mais poderoso país do mundo, é impossível falar de mudanças no sistema político cubano sem tocar na posição estadunidense. Fórum, em sua edição 40, tratou do tema, em ocasião do aniversário de 80 anos de Fidel Castro. Ali, Arthur Amorim, autor do livro Y Ahora Fidel? (Editora Conex), deixa claro que a discussão sobre o sistema político cubano dependia essencialmente da posição dos EUA.
Amorim recorda que o vizinho do Norte cortou relações diplomáticas com Cuba em janeiro de 1961 e, três meses depois, 1.500 homens treinados pela Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) invadiram a baía dos Porcos. Foi uma operação fracassada, que terminou com o saldo de centenas de estadunidenses presos e que acirrou, de modo definitivo, as relações entre os dois países. “[A invasão] só serviu para consolidar, e até mesmo justificar, a posição de Fidel. Perante os olhos do mundo ele tornou-se o líder com coragem para enfrentar a grande potência dominadora. O Davi que ousava contrapor-se a Golias”, explica Arthur Amorim.
Desde então, cada medida estadunidense contra Cuba era respondida à altura pelo governo cubano. “Quando os Estados Unidos cortam o fornecimento de petróleo, Fidel passa a comprar o produto da Rússia. Quando a Texaco e outras empresas petrolíferas da ilha se recusam a refinar o petróleo comunista, Fidel desapropria as refinarias. Quando Kennedy suspende a importação do açúcar cubano, cortando quase toda a receita financeira de Cuba, Fidel desapropria 36 engenhos e usinas, todos eles americanos. Quando as centrais de energia elétrica e de telefonia param seus trabalhos, Fidel decreta sua imediata estatização. E assim foi, de medida em medida, sempre uma reação igual e contrária. Com o passar do tempo, ficou impossível saber o que era causa, o que era efeito”, conta.
E é essa questão fundamental que conta agora. A saída de Fidel muda as relações entre os dois países? A possibilidade da eleição do democrata Barack Obama pode facilitar um retorno do diálogo entre os dois países ou os EUA adotarão uma posição radical ao estilo da invasão de 1961? Nesta edição, Fórum escutou personalidades que dão sua avaliação sobre o que pode acontecer em Cuba a partir de agora em diversas áreas. E em breve saberemos se a avaliação de Fidel feita para Ramonet irá ou não se confirmar. “Já há algumas gerações prontas para substituir outras. Tenho confiança, e sempre digo isso, mas estamos cientes de que são muitos os fatores que podem ameaçar um processo revolucionário. Há os erros de caráter subjetivo… Houve erros, e temos a responsabilidade de não ter descoberto determinadas tendências e erros. Hoje eles já foram superados. Eu disse o que aconteceria amanhã; mas já estão aí as novas gerações, porque a nossa está acabando.”
Luiz Alberto Moniz Bandeira, cientista político especializado em política externa, autor de diversos livros, entre eles De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina.
Como tenho dito, a transição do poder se havia efetuado há muito tempo. A renúncia de Fidel já era esperada. Não me surpreendeu, porque o afastamento dele para tratamento de saúde evidenciara que sua presença no governo não era mais necessária. Ele é o presidente emérito, o símbolo de uma época, o herói nacional.
O presidente George W. Bush é um lame duck, um pato manco, como se diz nos Estados Unidos, porque está no fim do mandato. Creio que nada mais pode fazer além de falar. E, como o processo eleitoral ainda não se definiu, é difícil saber como os Estados Unidos agirão depois da partida de George W. Bush. Endurecer mais é difícil.
Mudanças já haviam começado em Cuba, e continuarão a ocorrer, gradualmente. Com respeito às relações com os países americanos, não vejo em que podem mudar. Cuba atualmente mantém boas relações com todos os países da América Latina, embora mais estreitas com alguns do que com outros.

Oscar Niemeyer é arquiteto e foi citado por Fidel Castro em sua carta de renúncia. A declaração foi dada em entrevista à GloboNews.
Estou espantado de ver o povo tão triste, de ver tanta tristeza na fisionomia dos cubanos. Mas ao mesmo tempo sentindo que havia uma firmeza, que estavam confiantes, porque Fidel ia continuar a participar, quer dizer, muda de função, deixa o cargo de comandante das forças armadas, mas vai trabalhar, vai ser um lutador pelas idéias, como ele disse. Vai trabalhar, vai escrever no jornal, vai continuar a ser o líder do povo cubano, ou melhor, dessa América Latina que ele tanto engrandeceu com a revolução em seu país. (…) É um líder inconteste, uma figura fantástica que honra o ser humano.
Frei Betto, autor de Fidel e a Religião, esteve em Cuba em janeiro deste ano.

Enquanto perdurar o bloqueio a Cuba imposto pela Casa Branca não haverá ali nenhuma mudança substancial. E quando falo de mudanças não me refiro à volta ao capitalismo, e sim ao aprimoramento do socialismo. O povo cubano olha em volta e não quer o futuro de Cuba semelhante ao presente de Honduras ou Guatemala… Pode ser que Raúl Castro, eleito para o lugar de Fidel, tome iniciativas que configurem seu modelo próprio de governo, como a convocação que fez, recentemente, para que os cubanos critiquem a Revolução, no sentido de aprimorá-la.
Cuba não está disposta a abrir mão de suas conquistas relevantes nesses quase 50 anos de Revolução: 99,8% de alfabetizados; um médico para cada 160 habitantes; 800 mil diplomados em 67 universidades a cada ano; saúde e educação de qualidade e gratuitas a 11,2 milhões de habitantes etc.
Na última feira industrial de Havana, o maior número de acordos fechados foi com empresários estadunidenses. E Obama e Hillary já acenaram com uma mudança de posição frente a Cuba. Em outras palavras, o bloqueio, do ponto de vista diplomático, é uma peneira, com furos por todos os lados, pois há diálogos informais. Do ponto de vista de importação de matérias-primas e uso de patentes, sacrifica o povo cubano.
Fidel fez um gesto de humildade ao renunciar, e de sensatez ao preferir cuidar de sua saúde e priorizar a trincheira do debate político, que o encanta. Só o acusa de ditador quem não entende que Cuba fez uma revolução popular, adotou o regime socialista e está a 150 km de distância de um inimigo poderoso que a ameaça permanentemente. Que ditadura é esta que assegura a toda a população direitos fundamentais como alimentação, saúde e educação? E que democracia é essa nossa que condena 36 milhões de usamericanos à miséria e 40 milhões de brasileiros? Liberdade de passar fome e ser oprimido? Liberdade de votar em eleições controladas pelo poder econômico?
Ignacio Ramonet é editor do Le Monde Diplomatique e autor da Fidel Castro – Biografia a Duas Vozes. Em artigo publicado no jornal britânico The Guardian.

A longa e extraordinária carreira de Fidel Castro acabou – pelo menos enquanto presidente. Mas sua enorme influência continua. Seus artigos regulares para o Granma, o jornal estatal, que ele manteve mesmo depois de adoecer, conti¬nuam. Apenas o chapéu se altera: em vez de reflexões de “comandante em chefe”, agora será somente “velho camarada”. Cubanos e observadores internacionais continuam leitores atentos.
Não há substituto para Fidel. Não apenas por suas qualidades de líder, mas pelas circunstâncias históricas que nunca são as mesmas. Castro viveu todo o processo, da Revolução Cubana à queda da União Soviética, e décadas de confronto com os Estados Unidos. A saída ainda vivo ajudará a assegurar uma transição pacífica. O povo cubano agora aceita que o país pode ainda ser conduzido na mesma direção por um time diferente. Por um ano e meio, eles foram se acostumando com a idéia, enquanto Castro permaneceu teoricamente como presidente, mas seu irmão, Raúl, assumiu os controles. Foi Fidel o mentor, como sempre. (…)
Agora, ele entrega [o poder] a um time que testou e confia. Isso não vai levar a mudanças espetaculares. A maioria dos cubanos – mesmo os que criticam aspectos do regime – não enxerga nem deseja mudanças: não quer perder as vantagens trazidas, a educação gratuita até a universidade, saúde gratuita e universal, ou o simples fato de haver uma vida segura e pacífica em um país onde a vida é calma.
Enquanto Castro se torna colunista em período integral, a principal tarefa de seus herdeiros políticos será decidir como confrontar o desafio perpétuo da vida cubana: as relações com os Estados Unidos. É preciso esperar para ver se haverá mudanças. Raúl Castro anunciou por duas vezes que está preparado para sentar e conversar com Washington sobre os problemas entre os dois países. (…)
Mas tudo em Cuba está relacionado aos Estados Unidos: que é o aspecto de tensão na vida política que os estrangeiros precisam entender. A aposentadoria de Castro, longamente antecipada, significa continuidade. Mas, na evolução da história desta pequena nação, a eleição de [Barack] Obama poderia ser sísmica.
Emir Sader é sociólogo, autor de Cuba, Chile e Nicarágua: o socialismo na América Latina, entre outros livros.
A decisão do Fidel Castro foi a formalização de um processo que já vinha acontecendo e se precipitou, porque havia a eleição. Sem ela, provavelmente haveria um arranjo para que ele mantivesse os cargos. Mas foi um “pouso suave” promovido desde a licença por motivos de saúde, no mês de agosto de 2006.
Com ou sem ele no poder, uma série de reformas está pendente. O período mais duro da história desde a revolução foi entre 1989 e 1994, e Cuba teve a sorte de ter Fidel como líder, por seu carisma e moral, para passar por ela. Mas os jovens podiam fazer menos peças, menos shows, menos filmes. Criou-se uma demanda reprimida muito forte. Agora, estão criadas condições para superar essas dificuldades, com a descoberta de petróleo, com os acordos com a Venezuela e a China. Cuba precisa superar as demandas econômicas e políticas.
Fidel sempre foi o maior crítico da revolução e dava segurança nas transformações. É uma espécie de Pelé, não vai ter outro. Raúl tem consciência de que é transição para outras pessoas mais jovens que, em conjunto, vão ocupar o espaço. Fidel poderia ser mais audaz, mas Raúl é mais pragmático, mais realista para atender as demandas concretas da vida das pessoas, para dar incentivos e fortalecer a produção no campo.
O líder cubano se livra de um certo desgaste de passar pelo enfrentamento das adequações, mas ele passou por períodos difíceis à frente do país, e o moral dele foi importante.

Rubens Diniz, diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), que morou em Havana de 2000 a 2006.
Se outro mundo é possível, ele vem sendo construído a 90 milhas dos Estados Unidos. Ao estudar na Universidade de Havana, tive um contato com pessoas comuns que tinham uma cultura política elevada. Isso se percebe com pessoas na universidade, nas ruas. O debate de idéias é muito valorizado, o que gera uma massa crítica que dá sustentação ao regime político socialista. Mesmo porque seria impossível manter um regime por tanto tempo sem apoio da maioria. O grande feito do Partido Socialista Cubano foi o de transformar o socialismo em bandeira nacional, sem que isso significasse esconder os problemas.
Uma discussão a que assisti, nos anos seguintes ao período especial da década de 90, era se a ilha estaria preparada para receber de 2 a 5 milhões de turistas caso os Estados Unidos normalizassem as relações com Cuba. Pela formação da população, sem dúvida que sim, mas nem todos os problemas estariam resolvidos.
Fidel é a referência moral, política e ética, e não terá como substituto uma pessoa, mas sim um coletivo. E como ele escreveu na carta do dia 19, não há saída fácil.
Sócrates Brasileiro, ex-jogador de futebol, médico e colunista da revista CartaCapital.
Tenho uma admiração antiga por Fidel Castro. Um de meus filhos se chama Fidel Brasileiro, uma homenagem clara. Sou socialista, ele realizou um sonho meu. Ele não saiu, só abriu mão de uma nova candidatura por motivos de saúde. No texto que as agências reproduziram à exaustão por aqui, ele agradece os votos que teve a vereador distrital, mas não tem condições de saúde para exercer a presidência. Isso mostra uma dimensão que nem sempre é lembrada: o povo cubano vota mais do que o dos Estados Unidos.
O futuro é difícil de dizer. Fidel é o símbolo, o gênio, o mobilizador, o gerador de idéias. Enquanto ele estiver vivo, nada vai mudar.

Paula, ex-jogadora de basquete, diretora do Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP) de São Paulo. Em 1991, no Pan-Americano de Havana, recebeu, ao lado de Hortência, a medalha de ouro das mãos do líder cubano.
Discordo da visão de que Cuba tem uma política esportiva modelo. É preciso pensar na cultura de um povo e no que o esporte representa. O jovem brasileiro nem sempre quer o compromisso de se sacrificar em treinos. Em Cuba, se envolver com esporte e com a cultura acaba sendo uma forma de reconhecimento que assegura regalias que os outros não têm. Em termos de instalações esportivas, Cuba está longe do Brasil, que está longe das potências olímpicas. São equipamentos antigos, velhos.
Ao todo, estive em Cuba cinco vezes, incluindo 1991, no Pan-Americano em que houve o episódio da medalha. Na primeira, ainda na faculdade, um professor até pediu que eu fizesse um depoimento, porque voltei maravilhada porque havia igualdade, todos viviam bem. Mas a cada vez que voltava, ia me decepcionando ao ver o país minguando. Cuba perdeu muito, principalmente depois do rompimento de relações com alguns países e da retirada de suporte que a ilha tinha.
Não sei o que vai acarretar a saída do Fidel, mas acho que está mais do que na hora de mudar. Não só na parte esportiva, Cuba deve se abrir mais para melhorar a qualidade de vida do povo. F



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