Alguma coisa está fora da ordem

Enquanto PT e PSDB se digladiam em plano nacional, em Belo Horizonte os dois partidos se unem para garantir a hegemonia municipal, estadual e – por que não? – conquistar a presidência da República...

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Enquanto PT e PSDB se digladiam em plano nacional, em Belo Horizonte os dois partidos se unem para garantir a hegemonia municipal, estadual e – por que não? – conquistar a presidência da República em 2010. Agora só falta convencer as bases

Por Pedro Venceslau

 

Dizem que em Minas Gerais o último a fazer oposição morreu enforcado. Trata-se de um exagero, claro. Mas não há como negar que o estado é pródigo em construir consensos. Ao longo do último mês de fevereiro, a mídia mineira celebrou, por meio de artigos, reportagens e notinhas, o desfecho de uma negociação que só mesmo na terra de Tancredo Neves seria possível: um acordo entre o PT e o PSDB visando às disputas municipal deste ano e estadual de 2010. Depois de muita conversa, os aliados e amigos Aécio Neves (governador tucano) e Fernando Pimentel (prefeito petista de BH) chegaram, enfim, a um nome de consenso para colocar na prefeitura: Márcio Lacerda, secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico. Ele é homem de confiança de Aécio, mas não é tucano. Pode-se dizer que Lacerda é “tecnicamente” filiado ao PSB, embora não tenha relações históricas com o partido. No entanto, isso não importa. Não ser quadro do PSDB era um dos pré-requisitos impostos por Pimentel. Quando a dupla prefeito-governador anunciou que esse seria o nome, a mídia mineira ficou eufórica e os aliados de ambos os lados atônitos.
Os jornalões do estado foram rápidos na produção do perfil do futuro prefeito da cidade: não é um nome conhecido, mas está em um cargo com bastante visibilidade. Tem um passado de militância de esquerda – foi quadro da Aliança Libertadora Nacional (ALN), a mitológica organização de Carlos Marighella, onde militou ao lado de Pimentel. Entrou no curso de Administração de Empresas da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas só se graduou dez anos depois. Foi secretário-executivo de Ciro Gomes (PSB-CE) no Ministério da Integração Nacional, além de assessor do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Por fim, os veículos alertaram que ainda falta fazer alguns ajustes e apagar pequenos incêndios internos (Luiz Dulci e Patrus Ananias são contra). Mas isso é um detalhe. Colunistas e repórteres, em coro, acreditam que essa fatura está liquidada.
Talvez por pressa, talvez por amnésia, alguns detalhes sobre a biografia de Lacerda não foram mencionados. Bastava procurar no Google para saber que o nome indicado da inusitada aliança aparece nas primeiras 20 citações sob o chapéu “escândalo do mensalão”. Quando o publicitário Marcos Valério leu para os parlamentares, durante a CPI, duas listas de pagamentos feitas por suas empresas, foram “revelados” os nomes das pessoas que sacaram recursos das suas contas em 2003 e 2004. Entre eles está Márcio Lacerda, então secretário-executivo do ministro Ciro Gomes, que teria sacado R$ 457 mil. Na ocasião, Ciro saiu em defesa de seu secretário e disse que houve um equívoco. Mas não teve jeito. Lacerda teve que deixar o cargo. Em nota lacônica, a assessoria do ministro informou: “Para assegurar a normalidade da missão institucional do Ministério da Integração Nacional e compreendendo que estaria em marcha uma tentativa de envolver esta pasta e seu titular no ambiente de escândalo por que passa o país, o senhor Márcio Lacerda solicitou seu afastamento do cargo”. Pode ser que Márcio Lacerda tenha sido vítima de mais um linchamento da mídia. Mas também pode ser que não. A novela do “mensalão”, como sabemos, está em curso e ainda vai demorar para terminar. O que causa estranheza é que uma passagem relevante como essa não tenha sido sequer citada em nenhum jornal ou site local. “O sonho de Minas é voltar à presidência. E o setor empresarial do estado, incluindo aí a mídia mineira, acredita que só Aécio tem viabilidade para isso. Existe uma coesão nesse sentido, trabalhando nesse projeto”, avalia a deputada federal e pré-candidata a prefeita Jô Moraes, do PCdoB. Outro pré-candidato, o deputado estadual Sávio Souza Cruz, do PMDB, é mais duro na crítica ao acordo: “Tá tudo dominado. Minas, hoje, reproduz a Bahia de ACM. Aécio Neves domina a Assembléia, o Ministério Público e o Judiciário. Nesse cenário, o prefeito de Belo Horizonte é um mero cargo de confiança”.

Programático, pragmático e estratégico
Mas nem tudo em Minas é tão simples quanto parece. Apesar da hegemonia de Aécio no Palácio da Liberdade, a prefeitura de Belo Horizonte é um dos mais antigos e resistentes redutos do PT no país. Nos últimos quinze anos, os petistas vêm comandando a capital (mesmo no período de Célio de Castro, eleito pelo PSB, era o PT quem dava as cartas).
Patrus Ananias, em 1992, foi o primeiro. Depois foi a vez de Célio de Castro, em 1996, que, depois de reeleito, em 2000, saiu por motivos de saúde dando lugar ao vice, Fernando Pimentel, reeleito em 2004. A pergunta que não quer calar: se o PT é tão forte na capital, por que insistir em um acordo com os tucanos e abrir mão da cabeça da chapa? Ocorre que os projetos pessoais de poder de Aécio e Pimentel não só são compatíveis como se complementam. Além disso, representam à imagem e semelhança o sonho mineiro de voltar ao Planalto. Tudo seria mais fácil se o mundo político não tivesse dado tantas voltas nos últimos dois anos. O plano inicial da dupla era lançar, em 2008, Walfrido dos Mares Guia para prefeitura. Mas ele foi tragado pelo escândalo do “mensalão tucano” e hoje está recluso em sua fazenda no interior do estado.
Foi então que Aécio lançou o nome de Lacerda. Engana-se, porém, quem pensa que o caminho dessa aliança será um céu de brigadeiro. Um intenso movimento de reação à indicação de Lacerda – que sequer mora na capital, vive na vizinha Brumadinho – foi desencadeado por um grupo, mais precisamente pelo Fórum Permanente dos Pré-Candidatos do Campo do Governo Lula. A resistência ao nome de Lacerda é especialmente forte dentro do PT estadual, dirigido pelo deputado estadual Reginaldo Lopes. “Não há consenso no partido em torno do nome de Lacerda. É ruim lançar nomes antes de debater teses. Estamos trabalhando, a curto prazo, uma aliança nacional com o PMDB para enfrentar o PSDB e o DEM. Ainda assim, se o PSDB aceitar indicar o vice, é possível chegar a um acordo”, aponta Lopes. “O PT tem a obrigação de apresentar um nome, já que governa há 16 anos a cidade de Belo Horizonte. Além disso, Márcio Lacerda é um nome desconhecido do eleitorado. Não adianta fazer uma aliança superficial com um terceiro partido”, completa.
Já o deputado federal Virgílio Guimarães, considerado um dos principais articuladores junto ao prefeito Fernando Pimentel, minimiza o possível mal-estar no partido em relação à aliança. “Não vai ter racha. Esse não é o ponto de vista do PT, mas do presidente esta¬dual do partido, deputado Reginaldo Lopes. O PT é um partido democrático, que discute suas posições. O diretório municipal apóia essa aliança. E essa é uma decisão municipal”, ressalta. Questionado se não seria melhor lançar um nome do partido para o pleito em BH, Guimarães reafirma a preferência pelo acordo. “Prefiro a aliança. As pesquisas mostram que mais de 80% do eleitorado apóia. As bases e os movimentos sociais, portanto, não vão se rebelar. Pelo contrário: receberam muito bem a proposta”, assegura.
A disputa vai ser boa, como conta, em off, um importante dirigente estadual de um partido aliado do PT. “O Pimentel jamais entrou na sede do PT estadual. O diretório municipal do partido, por sua vez, é do prefeito. O PSB virou um condomínio do PSDB e do PT em Minas, assim como o PV”. Pendengas a parte, o fato é que o personalismo é um traço histórico da política mineira pós-ditadura. “Os dirigentes mantêm seus partidos em um tamanho conveniente para seus interesses, tentando evitar o surgimento de quadros fortes. Ao mesmo tempo, operam para garantir uma certa influência em outras siglas”, diz o peemedebista Sávio Souza Cruz.

Dulci seria “o cara”
Os movimentos do PT estadual de Minas têm um objetivo claro, porém não declarado: criar um ambiente de consenso para convencer o secretário-geral da presidência, Luiz Dulci, a deixar Brasília para concorrer – e vencer com folga – a prefeitura de Belo Horizonte. Para tanto, o deputado Reginaldo Lopes conta com um aliado de peso, o ministro Patrus Ananias. Ele é rival direto de Pimentel na disputa interna pela candidatura ao governo de Minas em 2010. Mas também é constantemente citado como possível candidato do PT à presidência. Luiz Dulci já deixou claro que topa deixar Brasília para disputar prévias.
Do Palácio do Planalto, o presidente Lula observa de longe os movimentos mineiros. Ele não quer entrar nesse debate porque sabe do desgaste que isso pode causar no partido. Por outro lado, o presidente tem interesse no fortalecimento de Aécio – que significa enfraquecimento de José Serra, o líder nas pesquisas. “Não seria estranho se Aécio fosse candidato, em 2010, em uma aliança apoiada pelo PT, que tem tido dificuldade para emplacar o nome Dilma Rousseff. Além disso, uma ala do PT e outra do PSDB apostam em um acordo para isolar Serra. O processo em BH pode ser, portanto, uma prévia para 2010”, pondera o cientista político Francisco Fonseca, da Fundação Getúlio Vargas. Diferenças ideológicas, segundo ele, não serão obstáculo para essa aliança: “PT e PSDB são, cada vez mais, partidos pragmáticos e sem diferenças ideológicas. Se existe uma contradição, ela é meramente político-eleitoral, de ocupação de espaço, já que existe uma estratégia nacional dos tucanos de se colocar, junto ao DEM, como oposição ao PT e o governo Lula”.
Correndo por fora, a deputada federal comunista Jô Moraes, pré-candidata mais bem colocada nas pesquisas nos cenários sem Patrus e Azeredo, acredita que, se a aliança PSDB–PT der certo, quem ganha força é uma candidatura de esquerda. “Nunca, nos últimos 15 anos, o PSDB integrou a base de apoio do PT na prefeitura. O prefeito erra quando diz que quem está contra o acordo está contra a cidade. O PCdoB não faz aliança com partidos da oposição ao governo Lula. A tecnocracia substitui a dinâmica cotidiana das forças sociais. Isso de duas administrações definirem o candidato é uma lógica que compromete a democracia. Duas máquinas não podem se apropriar do processo”.
E a confiança das ditas “duas máquinas” é tão grande que nem mesmo o fato de Mário Lacerda ser relativamente desconhecido pela maior parte do eleitorado preocupa os defensores da aliança. “O Fernando Pimentel também era um nome desconhecido, estava em uma situação semelhante, mas foi eleito com 60% dos votos. Não existe contradição nisso, é uma plataforma de continuidade”, sustenta Virgílio Guimarães. Ao que parece, o jogo da sucessão do presidente Lula pode ter outro rumo depois do arranjo das peças nas Alterosas.



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