Anomalia do desemprego intelectual

Coluna Mundo do Trabalho Por Marcio Pochmann   Contrariando as tendências mundiais, que exigem a ampliação da escolaridade e a maior qualificação profissional como componentes do conjunto...

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Coluna Mundo do Trabalho

Por Marcio Pochmann

 

Contrariando as tendências mundiais, que exigem a ampliação da escolaridade e a maior qualificação profissional como componentes do conjunto dos requisitos necessários ao menor risco de desemprego, o Brasil segue gerando maior ociosidade na força de trabalho com mais anos de estudos. Percebe-se que, a despeito do esforço de elevação da escolaridade protagonizado pelo conjunto da população durante a última década, aumentou significativamente o desemprego para o segmento de maior escolaridade.
De um lado, constata-se uma importante elevação nos anos de estudos por parte da população em praticamente todas as faixas etárias. No ano de 2004, a população brasileira tinha 6,6 anos de estudos em média, contra um índice de somente 5,1 anos em 1993. Ou seja, um aumento de quase 30% no conjunto da população brasileira. Em contrapartida, 60,2% do total dos desempregados (8,3 milhões de pessoas) tinham, em 2004, o ensino básico completo (ou até oito anos de estudo); em 1995 eram apenas 37,7% (4,5 milhões).
No caso do número de desempregados de nível universitário, houve multiplicação por quase três vezes no mesmo período de tempo (passando, entre 1995 e 2004, de 98 mil a 247 mil desempregados). Em 2004, havia 1,7 desempregado analfabeto para cada desempregado com 15 anos ou mais de estudos, enquanto em 1992 eram 3,6 desempregados analfabetos para cada desempregado universitário.
Para um aumento de 83,2% no total de pessoas desempregadas entre 1995 e 2004, o crescimento no desemprego de analfabetos foi de apenas 15,5%. Para as pessoas com menos anos de estudos (um a três anos) houve decréscimo na quantidade de desempregados. Isso faz com que a economia nacional se caracterize por apresentar a anomalia do desemprego intelectual em maior profusão que o desemprego de trabalhadores de baixa escolaridade.
Nota-se que durante as décadas de 1970 e 80, ter maior escolaridade garantia um menor risco de ficar desempregado. Para o segmento da força de trabalho com 12 anos ou mais de estudos, por exemplo, a taxa nacional de desemprego era 44,6% menor que a verificada entre trabalhadores com até oito anos de escolaridade. Já em 2004, a taxa nacional de desemprego do estrato da população economicamente ativa com maior escolaridade ultrapassou a dos trabalhadores com menos anos de estudos.
Com isso, a relação entre as taxas nacionais de desemprego do segmento com escolaridade equivalente ao ensino básico e do segmento com escolaridade equivalente ao ensino médio e superior passou a decrescer desde a década de 1990. A taxa para o segmento da população economicamente ativa com nível educacional equivalente ao ensino básico era quase a metade da taxa para o segmento com escolaridade equivalente ao ensino médio no ano de 2004. Quinze anos antes, a relação era praticamente equivalente entre as taxas de desemprego destes dois segmentos. O mesmo movimento também pode ser constatado na relação entre as taxas de desemprego dos trabalhadores com ensino básico e superior. Portanto, confirma-se que o desemprego estrutural tende a convergir para os trabalhadores com maior escolaridade.
Esta situação, no entanto, representa uma anomalia específica do Brasil nestas últimas duas décadas. Conforme a experiência internacional, sobretudo nos países desenvolvidos, que contemplam crescentes investimentos em novas tecnologias, a condição do desemprego converge inexoravelmente para os segmentos da força de trabalho com menor escolaridade. Na Alemanha, por exemplo, a taxa de desemprego da força de trabalho com escolaridade equivalente ao ensino básico subiu 3,3 vezes nas duas últimas décadas, enquanto a taxa de desemprego da população econo¬mi¬camente ativa com ensino superior aumentou 2,6 vezes, permitindo que a relação entre as taxas de desemprego de trabalhadores com ensino básico e de trabalhadores com ensino médio e superior cres¬cesse. Bem ao contrário do Brasil.

 



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2 comments

  1. Rafael Responder

    Em um país exportador

  2. Rafael Responder

    Em um país exportador de commodities em que boa parte das oportunidades para os engenheiros estão no mercado financeiro, o alto nível de estudo tem pouco valor. É preciso incentivo do governo para correção dessas anomalias!


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