Aos Mortos de Iquique

Chile relembra o centenário do assassinato em massa de operários das minas de salitre do Atacama Por Maurício Ayer   “Senhoras e senhores viemos contar aquilo que...

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Chile relembra o centenário do assassinato em massa de operários das minas de salitre do Atacama

Por Maurício Ayer

 

“Senhoras e senhores
viemos contar
aquilo que a história
não quer recordar”

Assim começa a “cantata popular” Santa María de Iquique, composta por Luis Advis em 1969, que narra um dos fatos mais atrozes de que se tem notícia na história da repressão à luta operária. Foi em dezembro de 1907, em Iquique, cidade portuária do Norte chileno, responsável naquele tempo pelo escoamento da produção de salitre das minas da região.
As empresas salitreiras, basicamente inglesas, manejavam todo o sistema, inclusive comercial. Os trabalhadores não recebiam dinheiro, apenas fichas, que só eram aceitas em lojas, chamadas de pulperías, pertencentes aos patrões, onde eram obrigados a comprar aquilo que necessitavam. Com o tempo, o poder de compra das fichas foi baixando, mas o valor do soldo se mantinha o mesmo. Os operários decidiram se organizar, pedir o fim do sistema das fichas e que o soldo subisse para 18 peniques (os pennies, “centavos” da libra esterlina). Além de melhores condições de segurança no trabalho.
“Falamos de uma atividade de extração de salitre em pleno deserto do Atacama, com temperaturas de 30oC durante o dia e -5oC à noite. Falamos de condições de trabalho do princípio do século XX, quer dizer, mínimas condições de segurança e de higiene, moradias precárias. E um trato econômico muito deficiente”, explica o sociólogo e historiador Bernardo Guerrero, professor na Universidade Arturo Prat de Iquique.
Como os patrões viviam na Inglaterra, não havia quem os ouvisse. Decidiram então ir a Iquique, onde estavam a aristocracia salitreira, o porto, os bancos e a intendência do governo central de Santiago. “Descem caminhando ou de trem – homens, mulheres e crianças –, por 80, 90, 100 quilômetros. E praticamente invadem a cidade. São entre dez e 20 mil operários, numa cidade onde vivem 20 mil habitantes”, retrata Guerrero.

“Os senhores de Iquique tinham pavor;
era pedir demais ver tanto trabalhador.
Na gente dos pampas não se podia confiar,
podiam ser ladrões ou assassinar.
Enquanto isso as casas eram fechadas,
olhavam somente pelas janelas.
O comércio fechou também suas portas
havia que tomar cuidado com tantas bestas.
Melhor juntar todos em algum abrigo,
andando pelas ruas eram um perigo.”

O pânico tomou conta da aristocracia salitreira, e a administração local resolveu concentrar a massa em uma escola, chamada Domingo Santa María, vazia por ser período de férias. Organizou-se um comitê de greve, e líderes como José Brigg e Luis Olea foram negociar com o intendente Carlos Eastman e os salitreiros.
Eastman disse então que iria a Santiago buscar a solução para os conflitos. Era 16 de dezembro. No dia 20, retornou em um navio de guerra, com um destacamento da Marinha e o general Roberto Silva Renard. Os grevistas os receberam no porto com grande festa e aclamações, esperando pela resposta que trariam. Mas naquela noite declara-se estado de sítio, suspendendo-se os direitos civis.

“Sou operário do pampa e estou
envelhecido como ninguém mais
e começa a cantar minha voz
com temores de algo fatal”

No dia 21 de dezembro, a escola Santa María amanhece cercada de canhões e metralhadoras. O general Silva Renard exige que a multidão deixe a escola, que volte ao trabalho, e que fiquem apenas cinco dirigentes para debater. Os operários dizem que não, que vão ficar e esperar a resposta. Então, eram 15h, o general ordena que os marinheiros bombardeiem a escola Santa María e que a golpes de baioneta terminem de matar os que sobrassem.
A cantata fala em 3.600 mortos. O número pode até ser este, mas na realidade não há como contabilizar com precisão. “Não havia registros e a maioria foi enterrada em valas comuns”, afirma Guerrero. “O que não se discute é que foram mais de 500. Mas podem ter sido milhares.”

Memória política
“A cantata é um relato fiel do que aconteceu”, assegura Guerrero, reconhecendo o mérito da obra de Advis, que ganhou notoriedade entre a esquerda latino-americana com a gravação realizada pelo grupo Quilapayún em 1970, recentemente relançada em CD (Warner Music Chile). Não fosse a cantata, o massacre teria caído em completo esquecimento, afinal “os primeiros escritos sobre o tema datam de 1984”.
Hoje, uma coordenação reúne sindicatos e centrais sindicais, partidos políticos de esquerda, movimentos sociais, entre outros, em torno de diversas atividades culturais e políticas para marcar o centenário do massacre. A maior concentração de eventos acontecerá na semana de 14 a 21 de dezembro, na cidade onde se deu a matança.
Juan Carlos Zambrano, do departamento de imprensa da Central Unitaria de los Trabajadores de Chile (CUT-Chile), diz que o movimento tem procurado situar as comemorações “num contexto mais positivo”. Mais que relembrar o massacre, os sindicalistas chilenos comemoram os 100 anos da Grande Greve de Tarapacá (região onde está Iquique). O sindicalista acredita que, “à parte o fim trágico, as greves desencadearam uma série de processos que resultaram no desenvolvimento de uma consciência de classe e numa maior organização. Significou um avanço qualitativo, portanto, e a partir daí se iniciou um fortalecimento da organização sindical, com o surgimento de unidades e centrais”.
O movimento também procura estabelecer pontes entre os contextos históricos. Zambrano cita o exemplo da proteção ao sindicalismo. “Uma das reivindicações dos operários era segurança às lideranças sindicais, que elas não pudessem ser demitidas.” Ainda hoje, mesmo havendo leis que protegem o direito de organização trabalhista, a justiça é morosa, um processo pode durar três, quatro anos. Empresários se aproveitam disso, sentem-se à vontade para demitir, enquanto para um trabalhador passar anos desempregado esperando a resolução judicial pode ser desastroso. Assim, é ainda difícil abrir sindicatos no Chile, por conta da perseguição que sofrem. As comemorações poderão ampliar a discussão sobre as lutas dos trabalhadores, com a cobertura mais forte da imprensa esperada para o mês de dezembro.
Bernardo Guerrero, no entanto, é menos “positivo” quanto ao significado que o dia 21 de dezembro de fato tem para a sociedade de seu país. O sociólogo acredita que a data não participa efetivamente da vida de cada um dos chilenos, para a maioria ela não existe ou é um fato histórico ao lado de outros. “Não há memória política. Ninguém tem uma recordação afetiva desse evento que possa se converter em um ato de afirmação política. Temo que vamos apenas assistir ao Quilapayún tocar a cantata em Iquique e, no dia seguinte, tudo vai voltar a ser o que era.”
É certo que as atividades deverão ter visibilidade maior neste mês. A ampla programação oficial (confira no www.centenariosantamaria.cl) garantirá uma atenção maior da mídia. Mas não parece haver uma ênfase no que um massacre de tamanhas proporções e nas condições em que ocorreu pode significar em termos de humanidade e civilização. “Não vai haver reflexão, como a que acontece com o holocausto judeu na Europa”, pontua Guerrero. A não ser pela cantata popular, suas flautas rústicas e duras, e a voz forte e áspera dos cantores chilenos.
“Salitre, chuva bendita
tornava-se malvada.
O pampa, pão dos dias,
cemitério e terra amarga.
Seguia passando o tempo
e seguia história ingrata,
dureza desertificada
para sempre aí ficava.”



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