As contradições do Norte Araguaia

O local onde dom Pedro Casaldáliga empreende sua luta tem um histórico de conflitos e desigualdade, típicos de um país como o Brasil Por Ana Cristina D´Angelo  ...

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O local onde dom Pedro Casaldáliga empreende sua luta tem um histórico de conflitos e desigualdade, típicos de um país como o Brasil

Por Ana Cristina D´Angelo

 

Muita gente que vive no Sudeste, região que concentra a produção de informação, poderia ver o Norte Araguaia como um lugar exótico. Ou, para citar um clichê, um dos muitos “Brasis” desconhecidos. Mas quem visita essa beirada do Mato Grosso, que faz divisa com o Pará e Tocantins, não tem como ficar imune à sua beleza. Nem à sua precariedade.
O rio Araguaia é que define a vida das populações para alimentação, lazer e transporte. Adentrar a paisagem é uma experiência única, e São Félix do Araguaia é a cidade mais emblemática. Fundada por um piauense na década de 1940, foi ocupada durante a marcha para o oeste promovida pelo governo de Getúlio Vargas. A invocação de São Félix provinha do sofrimento do povo na conquista de uma terra povoada por nações indígenas, região de tensão social. Tomaram São Félix por padroeiro, acreditando que os protegeria contra os índios xavantes, que faziam incursões sobre o nascente povoado, pois não admitiam a ocupação de seu território.
Em princípio, a cidade pertencia a Barra do Garças. Foi com a emancipação que vieram estrada, luz, água e melhores condições de vida para os cerca de 10 mil habitantes, metade no campo e a outra na cidade, que apresenta atualmente um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,726 (IBGE, 2000), bem abaixo do brasileiro (0,792), considerado médio.
A ocupação da região foi se consolidando nas décadas de 70 e 80 com incentivos do governo. As distâncias largas são sentidas pelos moradores. O transporte de ônibus é precário e não é barato. Para cruzar 300 km, se leva pelo menos sete horas. A vista exuberante da ilha do Bananal delimita a divisa com Tocantins. Do lado de lá, 5 km rio afora, se chega em outro estado, onde mora a maioria dos povos carajás. Eles convivem na cidade, fazem compras, vendem seu artesanato, freqüentam os restaurantes. São facilmente identificáveis pelas rodelas pretas abaixo dos olhos, que todo carajá ganha quando chega à idade adulta.
Alguns moradores se aproveitam dos turistas que vão pescar na cidade para exibir cumprimentos em língua carajá e oferecer pacotes de visita à ilha, que é o maior cartão postal da região. Em um dos seus momentos mais glamurosos, o então presidente Juscelino Kubitschek construiu um hotel no meio da ilha para receber personalidades ilustres e fazer reu¬niões do seu governo. Nas horas vagas, JK passeava de voadora, um barco pequeno com motor, pelas águas do Araguaia, tomava café nos botecos de São Félix e conversava com os moradores. Ao menos é isso que conta o barqueiro, Natural, que nos leva até lá. Hoje restam ruínas do luxuoso empreendimento e muitas histórias sobre o seu final.
A mais curiosa dá conta de uma caixa de marimbondos que incomodava os índios carajás, vizinhos do hotel. Em uma noite, um índio decidiu botar fogo na casa dos insetos, o fogo se alastrou e provocou um incêndio no hotel. Já os donos de uma pousada existente na ilha dizem que funcionários do Incra ficaram responsáveis pelo hotel e o dilapidaram ao longo do tempo. No local, é possível ver o gigantismo do projeto: restos de um cofre, de uma sauna, de um frigorífico e muito mato tomando conta das ruínas. Um pouco adiante, o barqueiro pára numa fazenda, em plena ilha do Bananal, que segundo ele, tem 10 mil cabeças de gado.
O vigia, Amado, nos recebe na sombra para uma conversa. Na época da cheia, o curral muda de lugar e o gado tem que ser deslocado para outra área a ser desmatada. O professor José Maria, que dá aulas no ensino médio em São Félix, explica que a região tem duas estações: a das chuvas e a seca. De novembro a maio é quase impossível chegar porque as estradas alagam. E quem vai comprar terra faz duas visitas, nas duas épocas. “Às vezes o sujeito chega lá e acha bom o lugar; quando vê tudo inundado com a cheia do rio, aí a terra perde valor.”
Saindo do rio e pegando a estrada, a conversa é outra. Cercas de fazendas imensas tomam quilômetros da beira do caminho. Os trabalhadores rurais entram e saem de ônibus, se deslocando para fazer serviços cuja diária chega a R$ 25. Muitas meninas que não chegaram aos 18 anos carregam seus bebês.
Greice, com 15 anos, é filha de Suiane e mãe de Suellen. Na hora do parto, uma cesariana feita pelo SUS no hospital de Ribeirão Cascalheiras, Greice e Suellen chegaram a correr risco de morte. “Mandaram minha mãe escolher com quem ia ficar o oxigênio e ela queria que ficasse comigo porque eu sou a filha dela, mas depois me perguntaram e resolvi dividir com o neném”, conta Greice. Passado o susto, Suellen, nascida com 2,25 kg, foi dada a avó para ser criada.
A conversa do momento entre os homens é o biodiesel. Plantações de cana-de-açúcar não são novidade na região, mas os fazendeiros estão investindo cada vez mais no combustível alternativo que promete mudar a vida brasileira. Os fazendeiros da região dificilmente são encontrados e, quando se pergunta por eles, a prosa toma um rumo diferente. “Ele vem no final de semana, você vai saber quem é”, diz João, taxista em São Félix. Para João, é preciso ficar no meio, ou seja, nem só do lado dos fazendeiros nem só dos trabalhadores.
Em 2005, o grupo de direitos humanos da prelazia recebeu 20 denúncias de trabalho escravo, sendo que o grupo móvel do Ministério do Trabalho e Emprego esteve em cinco das empresas denunciadas. No ano passado, as queixas caíram para seis e não houve denúncia este ano ainda. Contudo, a explicação não indica qualquer tipo de melhora na situação. Extra-oficialmente, a coordenadora do grupo, a advogada Maria José Souza Moraes, soube que uma carta assinada pelos trabalhadores da região pedia que o grupo móvel não fiscalizasse mais porque ficariam sem emprego. Ou seja, o grupo móvel atuava, constatava o trabalho escravo, mas, passado o tempo, o fazendeiro não queria mais empregar.



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