As histórias do "Canhão da Vila"

Um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, José Macia, o Pepe, conta causos e relembra fatos memoráveis de uma época de ouro do futebol. Por Renato Rovai e Glauco Faria  ...

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Um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, José Macia, o Pepe, conta causos e relembra fatos memoráveis de uma época de ouro do futebol.

Por Renato Rovai e Glauco Faria

 

O jogo que passava na televisão era Argentina e México, válido pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo. Os olhos vidrados na partida já denunciavam que aquele senhor de 71 anos tinha muita intimidade com a bola. José Macia tornou-se mundialmente conhecido como Pepe, o segundo maior artilheiro da história do Santos com 405 gols e jogador do esquadrão daquele que é considerado por muitos o maior time de futebol de todos os tempos.

Títulos não faltam para Pepe como jogador, famoso pelo forte chute de esquerda que fazia aquela antiga bola pesada chegar a 122 km/h. Em seus 16 anos na Vila Belmiro, entre 1954 e 1969, foi campeão paulista 11 vezes, pentacampeão da Taça Brasil, bicampeão da Libertadores e Mundial. Na Seleção Brasileira, foram 40 jogos e 22 gols e o bicampeonato de 1958 e 1962, embora não tenha entrado em campo em nenhum jogo, uma de suas grandes frustrações. Como técnico, foi campeão brasileiro pelo São Paulo em 1986, sendo que, no mesmo ano, foi campeão paulista com a surpreendente Inter de Limeira.

Agora, o “Canhão da Vila” está lançando o livro Bombas de Alegria, uma coletânea das histórias vividas por ele no futebol. “Se fosse contar todas, ficaria três dias com vocês”, brinca ao final da entrevista, não escondendo sua vocação de contador de causos. Leia a seguir alguns deles.

Fórum – Pepe, tem uma história que não está no livro e queria saber se é real. O Antoninho (ex-técnico do Santos) o trouxe para o time de cima do Santos porque você teria acertado um chute na testa do goleiro e ele teria desmaiado. Isso é verdade?
Pepe –
 É lenda. O Antoninho sabia que eu chutava muito forte, mas o que eu fiz no Santos foi aquela história com o Alfredo, jogador do São Paulo. Dei uma bolada no nariz dele em uma cobrança de falta e ele caiu desmaiado. Ficou fora uns 20 minutos e depois voltou. Quando terminou o jogo, perguntaram ao Alfredo o que tinha sentido e ele respondeu que não sentiu nada, só tinha visto borboletas voando e passarinho cantando… Teve também outra vez que, em um treino, dei um chute tão forte na bola que ela pegou na trave e voltou com toda a velocidade, mas veio esvaziando. Achei muito engraçado, parecia aqueles buscapés, foi murchando e acabou parando no meio do campo.

Fórum – E quando você entrou pela primeira vez no time titular do Santos?
Pepe –
 Comecei no infantil, fiquei um ano e depois cheguei ao juvenil, onde permaneci por dois anos. No final de 1954, já comecei a jogar amistosos do profissional e, em 1955, me firmei como ponta-esquerda efetivo do Santos, me revezando com o Tite, que era ótimo. Ganhei a posição de titular em uma excursão ao Peru, onde ele não pôde ir porque estava com problemas na renovação do contrato. Um ano depois eu já estava na Seleção.

Fórum – O Lula é um dos técnicos mais vitoriosos do futebol mundial e sempre se fala dele como se fosse um entregador de camisas. Era só isso mesmo?
Pepe –
 O Lula deve ser o treinador que tem mais títulos no mundo, ganhava tudo. A dificuldade que tinha era de se expressar. Uma vez ele chegou e disse em uma preleção: “vocês quatro do meio de campo fazem um triângulo”. Aí a gente falava “é difícil quatro fazerem um triângulo”; e ele retrucava “vocês, entenderam, vocês entenderam…”.
Era um time de feras e a maioria foi descoberta e criada pelo Lula, que tinha um olhar clínico muito bom. Antes dele as categorias de base eram muito fracas e não revelavam quase ninguém.

Fórum – Ele conseguia fazer alterações táticas?
Pepe – 
Não era um excepcional estrategista, mas sabia, se dessem 50 jogadores para ele, escolher os 11 melhores. Sempre me lembro dele com muito carinho. Há algum tempo escrevi um texto em sua homenagem, intitulado “Ao Professor com Carinho”. Nós o chamávamos assim até com uma certa ironia, mas ele não deixava de ser um professor. E levava tudo numa boa.

Fórum – Não devia ser fácil lidar com um time repleto de estrelas…
Pepe –
 Ele era o paizão do grupo, todo mundo jogava por ele, que sabia fazer um ótimo ambiente. Mas tinha suas vaidades também. Anos depois, em 1962, o Santos foi campeão mundial, ganhando do Benfica em Portugal, e quando o Lula anunciou a escalação do time, que nem tinha sido treinado, ele tirou um dos melhores jogadores do time, o Mengálvio, e colocou o Lima no meio-campo. Mas a surpresa maior foi colocar o Olavo de lateral-direito, sendo que ele era zagueiro-central. Ganhamos de 5 a 2 e o Lula foi muito elogiado pelos jornais da época, mas o Olavo teve muita dificuldade para marcar o Simões, o ponta-esquerda do Benfica que era um excelente jogador. Com o Lima de lateral e Mengálvio de meia, íamos ganhar até de mais.
No ano seguinte, disputamos o Mundial com o Milan e aí tínhamos que ganhar no Maracanã, no Rio de Janeiro. Concentramos no estádio, inclusive foi o Santos quem inaugurou a concentração. Gostávamos de jogar no Rio porque em São Paulo não tínhamos torcida, os torcedores dos outros grandes não iam torcer para o Santos. Mas foi lá, na manhã do jogo, que o Dalmo chegou pra mim e disse que eu não ia jogar. Daquela vez ia sobrar pra mim…

Fórum – O Santos sem Pelé, machucado, e você não ia jogar…
Pepe –
 A equipe precisava de mim, dos meus chutes e ele ia colocar o Batista, que jogava mais na armação. O Lula estaria preocupado porque o time do Milan era muito forte e ele queria fechar mais o meio. Quando o Dalmo me disse isso, falei: “vou dar um bico na bola e vou embora, vou pegar o primeiro trem”. Bem na hora da decisão com o Milan eu ia ficar de fora para entrar um jogador que nem é ofensivo?¬
Acabei ficando lá e quando deu 5 horas da tarde – o jogo era às 9¬–, fui chamado para um quarto da concentração. E lá estava o Lula, que me perguntou: “ô, ‘Bomba’, como é que tu está hoje?” Respondi: “estou bem, professor, pode contar comigo”. Acho que o Modesto Roma e o Nicolau Moran tiraram da cabeça dele a asneira que iria fazer, talvez, por conta daquela pontinha de vaidade. Aí joguei e, se eu não jogasse, realmente o resultado seria outro. Virei a partida, marquei o primeiro gol e aproveitei bem o campo molhado com meu chute forte, coisa que o Batista não tinha como aproveitar.

Fórum – Você foi para as Copas do Mundo de 1958 e 1962, mas as contusões lhe atrapalharam, não?
Pepe –
 Em época de Copa sou muito entrevistado e realmente me aborreço muito porque não joguei nem em 1958, nem em 1962. Antes da Copa de 1958 fizeram exames médicos mais rigorosos na Seleção e me pegaram com um problema na gengiva e nos dentes. Tive de fazer algumas extrações e perdi tempo, fiquei sem treinar por uns dez dias e o Zagallo começou a ganhar a posição. A dúvida do Feola [Vicente, técnico da Seleção] era se ia cortar eu ou o Canhoteiro. E, no jogo contra a Bulgária, Feola optou por ele. Quando estava 1 a 1 e faltavam 20 minutos para acabar o jogo, eu entrei e mandei uma bomba no peito do goleiro. No rebote, o Pelé fez 2 a 1 e eu fiz o terceiro. Os jornais diziam que eu tinha assinado o passaporte para a Suécia. Depois, teve um jogo de “desagravo” contra o Corinthians, porque Luizinho não havia sido convocado e a torcida não aceitava. Ganhamos de 5 a 0 e já joguei de titular e marquei 2 gols.
Viajamos para a Europa e fomos enfrentar a Fiorentina, ganhamos de 4 a 0 e fiz um gol. O fatídico jogo foi contra a Inter de Milão, o último amistoso antes de embarcarmos para a Suécia. Estávamos ganhando de 2 a 0, quando parti com a bola dominada e um italiano me deu uma no tornozelo direito que cheguei a virar o pé. Desembarquei na Suécia de chinelo com o pé muito inchado. Com o tratamento, fiquei bom só na quarta rodada e o Zagallo já estava jogando com o time embalado.

Fórum – E em 1962?
Pepe –
 Em 1962, pensava “agora é comigo mesmo”. Depois de 1958, fui titular em 1959, 1960 e 1961 e aí veio a Copa. No Chile, tive novamente problema de contusão, estava treinando e de repente cresceu uma bola na minha perna. Fiquei fazendo tratamento e não consegui me recuperar. Naquela época, o tratamento era toalha quente, água quente, raios-X e infravermelho. Falei para o Mário Américo: “doutor, preciso ficar bom, preciso jogar. Lá no Santos, quando tem um problema muito sério, a gente toma uma infiltração e em três, quatro dias fica bom”. Aí ele me deu a injeção. No dia seguinte, teve uma missa e eu apareci agarrado em dois jogadores, nem podia andar por causa da reação que deu na perna. Não sei se houve imperícia da parte dele porque não estava acostumado a dar injeção, sei que perdi de vez o foco da Copa, não tive mais chance alguma de jogar. Vim para o Brasil e o médico do Santos me examinou e perguntou: “o que fizeram com você?” Estava com queimadura de terceiro grau no joelho.

Fórum – Comenta-se que em 1958 foram os jogadores que colocaram o Pelé e o Garrincha para jogar. Isso é verdade?
Pepe –
 Eu fazia o meu papel e jogava, não participava de nenhum tipo de reunião com a comissão técnica. Pode ter acontecido com o Nílton Santos, com o Didi, o Bellini, jogadores mais experientes, que tenham pedido a presença do Garrincha e do Pelé. Não participei de nenhuma reunião, mas acho que houve. Estava saltando aos olhos que estávamos precisando do Pelé e do Garrincha, embora a gente não pudesse prever que um menino de 17 anos fizesse aquele estrago todo.

Fórum – Como era a cartolagem daquela época?
Pepe –
 Até 1962, o grande comandante era o Paulo Machado de Carvalho, o apelido dele era “Cabeça de Manga”, mas claro que ele não sabia disso. Era um homem inteligente. Não sei se você sabe dessa história, mas em 1958 o Brasil perdeu no sorteio e teve que trocar de camisa, já que a Suécia também tinha uniforme amarelo. A gente ia ter que jogar com a camisa azul. Aí, ele chegou para nós eufórico: “puxa, eu estava torcendo para jogar com a camisa azul, que é a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida. Estamos mais protegidos ainda, nós vamos ganhar”.

Fórum – Como técnico, você passou pela experiência de dirigente chegar e falar “coloca fulano, bota ciclano”…
Pepe –
 Comigo nunca aconteceu, mas já conheci dirigentes que gostam de dar palpites.

Fórum – Você treinou o Guarani do Beto Zini?
Pepe –
 É o nome que eu ia citar. Tenho uma relação de amizade muito boa com ele, que gosta realmente de interceder. Nós íamos jogar com o Mogi-Mirim e o meu auxiliar era o Gersinho, que hoje trabalha com o Vadão. O Mogi naquela época jogava com o 3-5-2, era o “carrossel capirira”. O Beto apareceu na concentração e almoçou conosco. Viu minha preleção, me chamou e falou: “Dom, que beleza de preleção. O jogo está ganho, você mandou marcar certo, está marcando os melhores jogadores… Você foi maravilhoso, me deu vontade de jogar. Se pudesse, ia jogar”.
Dois a um para o Mogi-Mirim. Acabou o jogo, vim para Santos e na segunda recebi um telefonema. Era o Gersinho que me falou: “Dom, o ‘rei de espadas’ disse que você não precisa mais voltar”. ‘Rei de espadas’ era o apelido que eu botei no Beto.

Fórum – Muitos jogadores começaram novos no Santos como você. De repente, vira o maior time do mundo e como fica o dinheiro? Vocês falavam nisso?
Pepe –
 Falávamos individualmente com os dirigentes, mas não era como hoje que tem contrato com marca de chuteira, camisa… Era qualquer chuteira, qualquer bola. Na época, virava o saco de chuteiras e cada um pegava a sua. Hoje tem calçado azul, amarelo, especial… O Santos ganhava muito dinheiro com as excursões internacionais, inclusive deixou de disputar mais de uma Libertadores para ganhar dinheiro lá fora, mas não pensamos que futuramente essa ausência faria falta para o clube. A gente recebia boas gratificações. Em janeiro e fevereiro íamos pelas Américas, em maio e junho corríamos a Europa. Recebíamos no máximo US$ 150, mas o Pelé já recebia US$ 10 mil por partida. Se o Santos ganhava US$ 30 mil por jogo, US$ 10 mil eram para o Pelé.

Fórum – Se fosse hoje, você acha que os jogadores aceitariam essa diferenciação?
Pepe –
 Na minha opinião, mesmo se fosse com todo esse pessoal que está aí, ainda deveria ter esta diferença com o Pelé. Ele é eterno, fez coisas que nunca ninguém vai fazer, sempre estará um patamar acima. Além do mais, era um bom companheiro.

 

As sete ondas – 1969

O jogo era contra o Corinthians no Pacaembu. Lula havia deixado o Santos e era agora técnico da A.A.Portuguesa também da cidade praiana. Chamou o seu massagista Beicinho, um crioulinho ágil e esperto, e intimou:

– Beicinho, hoje é sexta-feira. Você vai logo mais à meia-noite no mar, conta direitinho sete ondas e as pega num balde. Pois o Corinthians é um time perigoso, de mandingas, e temos que estar prevenidos, não quero perder esse jogo domingo!

Assim foi feito.

No domingo a delegação da Lusa santista chega nos vestiários do Pacaembu com o chefão Lula à frente. Examinou bem o recinto e antes de nele entrar gritou:

– Ninguém entra! Aqui há coisa feita!

Chamou Beicinho e ordenou que lavasse os vestiários arremessando a água do balde com as sete ondas apanhadas na sexta-feira à noite. E Lula exclamava enquanto a água escorria:

– lemanjá vai nos garantir e proteger tranquilamente! Ela não falha! Após o apito final, com sete a zero para o Corinthians, Beicinho quase “recebeu as contas” quando disse ao Lula:

– Professor, ainda bem que eu só peguei sete ondas. Já pensou se eu pegasse umas dez ou quinze?

 

Gerson, “o Papagaio” – 1971

A decisão do campeonato brasileiro era no Mineirão. 1971. Atlético Mineiro e São Paulo tentavam a conquista do título. Jogo incrivelmente equilibrado e sem favorito. O placar de 0 a 0 persistia até os 15 minutos finais, debaixo de um clima de expectativa.

Havia muita técnica, muito talento, e até alguma violência. Gerson, o extraordinário “canhotinha de ouro” da Seleção brasileira, fazia como de costume um partidaço pelo São Paulo E C.
De súbito, o árbitro aponta uma falta perigosa contra o Tricolor. Perigo de gol iminente. O lateral do Atlético, Oldair, tinha uma dinamite nos pés. Feita a barreira com cinco atletas, o goleiro Sérgio Valentim vigiava próximo a um dos postes, orientando o paredão humano. Gerson era o terceiro homem. Tudo pronto, Oldair toma distância enorme. Vem em velocidade de trem-bala e dispara um míssil certeiro. A bola (ou torpedo), vem direto no caminho do Gerson, que instintivamente se abaixa. Gol! Um a zero! Atlético campeão! Festa no campo, vestiários invadidos, muita champagne, faixas e pique – piques!

No triste vestiário do derrotado São Paulo, Sérgio Valentim era a imagem da desolação. Inconformado, dirige-se a Gerson já banhado e com o inconfundível cigarrinho no canto da boca: “Pô, Gerson, perdemos o jogo e o título porque você se abaixou na barreira, e eu nem vi por onde a bola entrou!”

– Calma, Sérgio – responde o sempre tranqüilo Gerson – Título a gente ganha o ano que vem. Agora, cabeça nunca mais eu ia arrumar outra se aquela bola me acertasse!



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