As verdades e os mitos do Quênia

Falsa estabilidade política fez com que o mundo se surpreendesse com os conflitos no país. No entanto, os combates violentos eram uma questão de tempo Por Carol D´Essen  ...

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Falsa estabilidade política fez com que o mundo se surpreendesse com os conflitos no país. No entanto, os combates violentos eram uma questão de tempo

Por Carol D´Essen

 

Quênia, 27 de dezembro de 2007. Dois candidatos disputam a presidência do país: Mwai Kibaki, atual presidente do Quênia, da Coalizão Nacional Arco-Íris (Narc), e Raila Odinga, do Partido Democrático Laranja (ODM), de oposição. Resultado divulgado pela Comissão Eleitoral: Kibaki vence com 4.584.721 votos contra 4.352.993 de Odinga. O partido de Odinga pede a recontagem dos votos, que é negada, e acusa Kibaki de fraude eleitoral. Pessoas saem pelas ruas para protestar e são reprimidas pela polícia. O confronto se estende pelo resto do território nacional, com mortes e abandonos de casas e mesmo do país. Nos dias seguintes, lê-se nos jornais: “Conflitos étnicos e bárbaros surpreendem o Quênia, um dos países mais estáveis da África”.
A manchete acima, divulgada após a deflagração do conflito pós-eleições no Quênia, é controversa, embora a grande mídia viesse perpetuando esta idéia. Situado na costa oriental da África, o Quênia era uma colônia britânica, que teve suas fronteiras delimitadas pela Conferência de Berlim (1884–85) juntamente com o restante da África. Em 1963, conquistou sua independência. Um único partido, chamado Kanu, assumiu então a presidência com a figura de Jomo Kenyatta, líder da libertação, que ficou no poder até sua morte em 1978. Foi substituído por Daniel Arap Moi, do mesmo partido, que governou até 2002, por 24 anos.
O multipartidarismo só foi instituído depois de 1991, devido às pressões nacionais e internacionais. Em 2002, as eleições foram ganhas por outro partido, o Narc, encabeçado por Mwai Kibaki, o atual presidente do país, que prometia mudanças e combate à corrupção. Entretanto, durante seus cinco anos de mandato, pouco mudou do antigo cenário e as promessas ficaram por cumprir. O descontentamento da população veio à tona, e os conflitos tiveram seu estopim nas eleições do último mês de dezembro.
“A maioria das pessoas se refere ao Quênia como um país estável porque, ao contrário de muitos outros países africanos, seu período pós-independência foi marcado pela paz, enquanto em outras nações seguiram-se as guerras civis pela disputa do poder. Esse período pacífico dá uma falsa sensação de estabilidade”, explicou Kabengele Munanga, diretor do Centro de Estudos Africanos da Universidade de São Paulo. Segundo o antropólogo, o descontentamento queniano não é nenhum fenômeno atual, ele existia há muito tempo. Se olharmos para o passado do país, é possível encontrar alguns fatos que não indicam a estabilidade que se estampa nos jornais.
Um exemplo foram as eleições de 1997, quando Daniel Arap Moi foi eleito para seu quinto mandato. O evento foi marcado por confrontos entre a polícia e a oposição, que denunciava fraude, assim como agora. No mesmo ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) interrompeu sua ajuda financeira ao país devido à falta de empenho do governo em combater a corrupção no setor público. Em 1998, 254 pessoas morreram em um atentado com carros bomba contra a embaixada dos Estados Unidos na capital Nairóbi.
Um acadêmico de Nairóbi, que não quis se identificar, em entrevista à BBC afirmou que políticos de todos os grupos étnicos, já estavam preparando o caminho, às vésperas das eleições, para tirar proveito das animosidades levantadas pelos chamados “confrontos pela terra”, que tradicionalmente vêm à tona em tempos de votação. “Ocorreram episódios na violência em confrontos pela terra em 1992–93, 1997 e 2001–02, sempre em épocas de eleição”, acrescentou.

Conflitos étnicos ou partidários?
Muito se explicou que a crise no Quênia devia-se ao fato de que cada um dos candidatos pertencia a uma etnia diferente, das 40 existentes no país. Mwai Kibaki respresentaria os kikuyus, principal grupo étnico local, e Raila Odinga, os luos, terceira etnia mais numerosa. Segundo o acadêmico de Nairóbi, os kikuyus dominam economicamente e são vistos pela oposição como quem tem o controle do governo. “É fácil nos concentrarmos nos kikuyus, mas (o conflito) é causado por desigualdades de renda profundas e antigas do Quênia”, afirmou.
Quando falamos em etnias no continente africano estamos nos referindo a povos que durante séculos possuíram sua própria história, cultura, língua e tradições e que depois da Conferência de Berlim se viram fazendo parte de uma só unidade nacional. Entretanto, a característica desse atual conflito é muito mais partidária do que étnica. “A questão queniana tem muito mais a ver com a manipulação do poder por partidos políticos do que com as etnias dos povos que lá vivem. Obviamente que existe o clientelismo político, assim como em qualquer lugar do mundo. Por isso é normal que um candidato apele a aqueles que com ele se identificam, seja por meio de etnia, religião, nacionalidade ou ideais. Isso é visível em todas as partes do mundo, inclusive no Brasil. A indignação do povo queniano é pela sua representatividade política, o que não vem ocorrendo. O poder não é dividido e muitas vezes se caracteriza pelo nepotismo, o que faz com que as pessoas apóiem os candidatos de suas etnias”, esclarece Kabengele.
“A destruição, o caos e as mortes violentas se sucedem estes dias, e nos querem fazer acreditar que é fruto das diferenças étnicas. Porém, no Quênia, a luta é sobre a riqueza do país e sua divisão, sobre a terra, sobre as tribos, sobre todo um leque de questões que os sucessivos governos e seus oponentes não estão sabendo ou não estão querendo enfrentar e solucionar”, disse Txente Rekondo, membro do Gabinete Vasco de Análise Internacional (Gain).

Perspectivas
O conflito iniciou-se em dezembro de 2007 e até o fechamento desta edição as mortes continuavam acontecendo pelo país. Muito se apela para a intervenção da comunidade internacional nas mediações da resolução do conflito. Entretanto, segundo Kabengele, as negociações dependem muito mais dos quenianos do que da comunidade internacional.
“A situação só vai se resolver na hora em que representantes do povo queniano sentarem-se à mesa juntos. Se eles são um país democrático como ostentam, deveriam realmente fazer a recontagem dos votos e dar o cargo da presidência para aquele que foi eleito pela maioria. Não estou dizendo que se deva negar a solidariedade internacional, mas o entendimento tem que ser entre eles. A violência não vai resolver nada, vai apenas exacerbar ainda mais as tensões já existentes”, completou. “As transformações de que necessita o continente africano devem estar nas mãos de seus protagonistas, a maioria da população, e não em poder das corruptas classes políticas que utilizam a comunidade internacional. Somente assim se poderá obter uma transformação que beneficie os povos do continente”, conclui Rekondo.
A crise no Quênia mostra que o mundo deve estar atento para o continente africano. Não que haja perigo de esse conflito se espalhar para outros países, mas sim de que aconteça “também” em outros países. “As histórias dos países africanos são muito parecidas umas com as outras, no sentido de que a maioria deles era de colônias que se libertaram nas décadas de 1960 e 70. Depois disso, poucas nações africanas se caracterizaram pelo revezamento de partidos no poder. Foi justamente o contrário: apenas um ou dois partidos governam o país durante décadas sem querer dividir ou representar o povo por completo”, alerta Kabengele. O que acontece no Quê­nia mostra que a estabilidade aparente muitas vezes significa apenas uma tolerância que existe há anos. Mas que uma hora acaba. F

O papel da mídia
Inúmeros conflitos acontecem na África todos os anos com um número de mortos muito superior aos do Quênia. Entretanto, a atenção da mídia é praticamente nula. No início deste ano, ela deu uma atenção especial para o Quênia. Algo que deveria ser positivo para alertar o mundo sobre a situação africana acabou, neste caso, por estereotipar ainda mais a idéia sobre o continente.
Imagens de casas incendiadas, de gente correndo pelas ruas com suas catanas e gritos desesperados foram divulgadas por todo o mundo. Isso rendeu comentários sobre a “selvageria” de seu povo. “Será que os conflitos no Oriente Médio e na própria Europa, como o atentado terrorista ao metrô em Madri são menos bárbaros do que o que acontece na África? Se o povo africano tivesse armas de fogo e conseguisse organizar um atentado terrorista com bombas, talvez não usasse seus facões e incendiasse casas, algo que parece causar mais pavor no Ocidente, embora a violência seja a mesma nos conflitos citados”, reflete Kabengele Munanga.
Além da cobertura midiática ter contribuído para ratificação da África “selvagem”, a maior parte dos veículos de comunicação fez uma análise bastante superficial da questão, sem refletir sobre a história do país como um todo. “Isso é negativo, pois passa a idéia errada de um continente que parece ser um barril de pólvora com pessoas que saem nas ruas matando umas às outras simplesmente porque são de outra etnia, o que é falso”, conclui Kabengele.

Quem é Mwai Kibaki?
Mwai Kibaki nasceu em 1931, filho de camponeses pertencentes à etnia kikuyu. Estudou economia, história e ciência políticas e fez sua pós-graduação em Londres. Retornou ao Quênia em 1959 e, ao lado de Jomo Kenyatta, participou da fundação do partido político Kanu, que lutou pela independência do país. Foi vice-presidente do partido nos primeiros anos pós-independência. Depois da morte de Kenyatta, continuou como vice-presidente do país, então liderado por Daniel Arap Moi. Em 1991, com o estabelecimento do multipartidarismo no país, rompeu com o Kanu e fundou o Partido Democrático, de característica interétnica, que foi capaz de aglutinar todos os descontentes com a ditadura prolongada e o marasmo econômico. Em dezembro de 1992 concorreu às primeiras eleições multipartidárias e ficou em terceiro lugar. Em 1997, ficou em segundo lugar. Devido ao crescente descontentamento popular, a recessão econômica e as contínuas denúncias de nepotismo, Kibaki conseguiu organizar a Coalização Nacional Arco-Iris (Narc), uma aliança de seu partido com outros de oposição. Nas eleições de 2002, obteve 62,2% dos votos com um discurso multiétnico, de combate a corrupção e de desenvolvimento econômico, encerrando 40 anos de domínio de um único partido, o Kanu, no governo.



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