Até o fôlego acabar

Cortadores de cana têm exigências de produtividade cada vez maiores no estado de São Paulo Por Anselmo Massad   Valdomiro Soares Figueiredo é contratado há dois anos...

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Cortadores de cana têm exigências de produtividade cada vez maiores no estado de São Paulo

Por Anselmo Massad

 

Valdomiro Soares Figueiredo é contratado há dois anos por uma usina de cana que mantém imensas propriedades na região de Ribeirão Preto. Nascido em Berilo (MG), no Vale do Jequitinhonha, o cortador de cana de 27 anos é remunerado para trabalhar em terras no município de Jaboticabal. No corte há nove anos, antes de ser efetivado e ter trabalho durante todo o ano, foi safrista. Nos dois primeiros, passava o período na região e voltava para a terra natal. Depois se instalou até ser contratado. Tem plano de saúde, recebe caneleiras que protegem até os joelhos, luvas, óculos escuros, botas com proteção. Além da indumentária, veste um agasalho de manga comprida, e boné para se proteger da cana, do facão e do sol.
No ônibus que conduz os trabalhadores ao extenuante trabalho que se estende das 7h às 15h45, com pausa às 11h para almoço, em meio aos pés de cana cultivados durante um ano e queimados poucas horas antes de eles chegarem, entre 3h e 4h da madrugada, há água gelada e um forno para aquecer a quentinha. Existe também, no veículo, um ponto que registra em cartões as pausas para almoço e descanso.
No grupo em que Valdomiro está, de 46 pessoas, só mais um é contratado pelo ano todo, os demais só têm ocupação por seis ou sete meses no ano. Ao que consta, todos registrados. Algumas usinas da região de Ribeirão Preto, preocupadas inclusive com a péssima imagem que têm pela exploração dos canaviais e pressionadas pela fiscalização, dão condições bem diferentes em termos de proteção, mas ainda muito mais exigentes quando o assunto é produtividade.
“Na média, corto uns 150 metros por dia”, calcula Valdomiro. Isso varia porque tem cana que rende mais do que outras. Se a cana está de pé depois da queimada, facilita o corte e a produtividade é mais alta. Se cresceu inclinada por estar em encostas, barrancos ou perto das vias de passagem de carros e máquinas, o corte é mais lento do que se estivessem retos.
Por essa exigência de produção, que determina o salário do trabalhador, os canaviais não estão livres de acidentes. Parte dos casos não é acompanhada do Comunicado de Acidente de Trabalho (CAT), e grupos como a Pastoral do Migrante acusam a concessão de plano de saúde como subterfúgio para evitar a comunicação dos acidentes. Embora os cortes com o facão afiado sejam menos freqüentes, todo cortador tem história de colegas que talharam dedos, braços e pernas. Piores são as lesões por esforço repetitivo e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/Dort).
“Se na década de 1960 a produtividade do trabalho era, em média, de três toneladas de cana por dia de trabalho, na década de 1980 a produtividade média passa para seis toneladas por dia por homem ocupado e, no final da década de 1990 e início da presente, atinge 12 toneladas”, esclarece Francisco Alves, professor de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O salário, segundo Alves, foi reduzido pela metade. É o aumento da produtividade com salários mais baixos que retém a ampliação da mecanização. “Esses dados os usineiros omitem, os trabalhadores morrem por excesso de trabalho”, ataca.
Também de Berilo, César Aparecido Ferreira, de 24 anos, é safrista, vai e volta para sua cidade natal, onde vive amasiado, sem filhos. Em 2006, trouxe a mulher, mas os custos com moradia e mudança acabaram com a rentabilidade da temporada de trabalho. Ele sente dores nas costas e no peito todo dia. Na véspera do encontro com a reportagem, passou em um farmacêutico que receitou um antiinflamatório. Por que não no médico? “É, preciso ir no médico do convênio”, promete para si mesmo, sem convicção.
Ele garante já ter passado uma noite sem conseguir respirar por conta da dor, resultado de um “mau-jeito” qualquer no corte da cana. Mostra a bota com cortes e sorri ao dizer que errou alguns golpes, mas que não perfuraram o equipamento. Aponta para um entalhe no alto do cano da bota e diz que “foi quase”.

O trabalho
Um cortador chega às 7h ao canavial. Três ou quatro horas antes, normalmente, funcionários da usina ateiam fogo nas quadras, delimitadas por ruas por onde passam ônibus que transportam a mão-de-obra, treminhões que levam a cana, caminhões-pipa que trazem o garapão.
Para o corte, o trabalhador abraça os caules de uma moita, se abaixa, e desfere três ou quatro golpes. São pelo menos 30 por minuto. A cana cortada é enfileirada, e o movimento se repete sem parar. Ao fim do dia, as fileiras são carregadas por treminhões para a usina. Quase todos levam uma mochila e uma garrafa térmica de cinco litros para não ter que se deslocar até o ônibus. Tudo, em geral, sob o sol forte e o ar seco de uma plantação incendiada. O corte da cana crua tem mais dificuldade, mas remunera com o dobro do valor por quilo cortado, por acordo coletivo. Por usar equipamentos e roupas, o calor é especialmente grande, bem como a perda de água pelo corpo.
Para calcular o quanto cada um conseguiu colher, uma área de 70, 100 ou 200 metros por cerca de oito de largura é determinada como a faixa de corte de cada trabalhador, de acordo com a capacidade e resistência física. O sistema adotado na região consiste em medir a área em que cada um vai trabalhar em um dia e estabelecer um preço preliminar baseado no peso do metro da safra de 2006. Em geral, depois da pesagem, há a correção.
Miguel Ferreira dos Santos, tesoureiro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jaboticabal e Região e dirigente da Federação dos Empregados Assalariados Rurais do Estado de São Paulo (Feraesp), acredita que na pesagem pode haver desvios. Normalmente, diz ele, o ajuste é cerca de 10% para mais. Mas o sindicalista faz as contas comparando ao tempo em que começou a cortar cana, no início dos anos 1990.
Miguel nasceu em Guariba, e começou a trabalhar no canavial aos 16, junto com a mãe. Ele começava às 7h, ia até às 15h, com a parada do almoço, e garante que cortava 20 toneladas. Ainda voltava para casa e jogava futebol na rua até às 18h. O que soa a princípio como um “causo” é uma amostra para se exigir algum tipo de fiscalização na pesagem, uma das lutas da entidade.
Parte da resposta para a questão da diferença de pesagem pode estar no desenvolvimento de novas variedades da cana, principalmente pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que trabalha com 30 espécies com concentração cada vez maior de sacarose e menos água. Isso significa plantas mais leves com a mesma quantidade de açúcar. Essa conta não fecha bem para os cortadores, que ganham por peso.

Mecanização e salários
Miguel conta que os problemas maiores atualmente estão a oeste do estado, na região de Presidente Prudente, onde a cana chegou há menos tempo. “O pior é que algumas das usinas instaladas lá, são as mesmas que aqui [em Jaboticabal] já garantem condições melhores” revela.
Os sindicatos vivem um dilema. Entidades como a Pastoral do Migrante, por exemplo, divulgam amplamente material e informações sobre acidentes e más condições de trabalho. Aliada à restrição em São Paulo de queimadas, a pressão sobre os usineiros é mais um motivo para investir em mecanização na região de Ribeirão Preto. Algumas empresas usaram em 2007 de 65% a 85% de colheitadeiras.
Em termos de produção, o etanol é a bola da vez. “Quer saber? É mais precário o trabalho no laranjal do que no corte da cana”, revela Miguel. “Na década de 1980, quando estourou a laranja, e tinha suco para todo lado, a pressão foi sobre eles. Agora, é a cana.”
Já o presidente do sindicato da cidade, Lineu Nobokuni, é bem mais cauteloso. Conta já ter desafiado um político que o acusou de omissão por deixar trabalhadores ganhando um salário mínimo. “‘Só se for na sua casa, para a sua empregada’, respondi, porque no canavial o acordo coletivo garante piso de R$ 517, mais auxílio-refeição de R$ 70, mais participação nos resultados e comissão por produção”, desafia.
Em sua sala, ele busca no armário a folha de pagamento de duas das principais usinas da região, Santa Adélia e Nardini. A média é de R$ 1.059, incluindo gente que trabalhou apenas uma semana – e ganhou R$ 290 por isso – ou os campeões que receberam em agosto até R$ 1.970. Ao perceber o estranhamento, Lineu admite que é preciso ter certo grau de parceria com os usineiros para que o número de vagas não caia ainda mais.
Mas não há regime análogo ao de escravidão, falta de registro profissional, falta de equipamento? Na região central do estado, é difícil encontrar durante a safra. No período de plantio, é mais freqüente, explicam os sindicalistas, porque os produtores menores se encarregam dessa parte e arrendam a colheita para as grandes usinas, muito mais visadas pela fiscalização.
O fato é que, em 2006, as ações conjuntas de fiscalização do Ministério Público do Trabalho e Grupo Móvel de Fiscalização Rural do Ministério do Trabalho e Emprego nas lavouras de cana-de-açúcar do interior paulista resultaram em 140 autuações a todas as 71 empresas no estado visitadas. Elas descumpriam exigências da Norma Regulamentadora 31 (NR31), que dispõe sobre as condições de trabalho rural. A falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), excesso de jornada, não-fornecimento de água fresca e potável, falta de sanitários e abrigo para refeições, ausência de exame médico de admissão, de pausa para descanso durante a jornada, transporte irregular e alojamentos precários foram os mais comuns. Em menor número, ocorreu falta de registro, atraso de salário e outros. Nestes casos, o regime de trabalho na propriedade pode ser considerado como análogo à escravidão.
Enquanto Lineu mostra algum ressentimento com os críticos muito duros dos usineiros, prefere poupá-los para garantir os postos de trabalho cada vez menos numerosos. Miguel não hesita em apontar a Pastoral e outros movimentos como parceiros estratégicos na luta por qualidade no trabalho. Ele lembra que, quando começou a cortar, só tinha equipamento de segurança quem improvisava o seu próprio.
“Por mais que a mecanização avance, certos trabalhos só podem ser realizados por pessoas”, explica Alves. Além das áreas de declive acentuado (superior a 12%), onde as grandes colheitadeiras não chegam, há um trabalho de catador de sobras. Passada a máquina, pedaços de 20 a 50 centímetros são deixados para trás pelo sistema mecânico. Um grupo de homens e mulheres passa pelas áreas e recolhem a cana. “Não sou de chorar trabalho ruim, e o presidente Lula já teve de ouvir poucas e boas, porque o mundo não quer comprar o álcool que mata trabalhadores”, sustenta.
Se os usineiros estiverem dispostos a cumprir a determinação de abolir o trabalho nos canaviais, para evitar queimadas e os acidentes freqüentes, será preciso definir o destino das áreas de declive, se serão aproveitadas para produção de alimentos e reforma agrária ou mantidas para o agronegócio.

Sair ou ficar Edileusa de Matos Sousa, mãe de duas filhas, está grávida de três meses. Continua o trabalho, com uma produção bem mais baixa do que antes, porque não quer se esforçar demais. Ela veio de Chapada do Norte (MG), casou-se e trabalha há cinco anos nos canaviais. Depois do nascimento da terceira criança, quer largar o ramo, mas ainda não sabe em que vai trabalhar. Abrir um negócio ou tentar a vida como empregada doméstica são possibilidades.
Já as irmãs Sandra e Dagmar Almeida Santos sabem que esse tipo de trabalho elas não querem. “Prefiro aqui, solta, sem ninguém para encher o saco”, atira Sandra, sob aceno de concordância da irmã, que já se ocupou como doméstica. “Não agüentaria patroa no ouvido reclamando. Aqui, se fizer o serviço direitinho, ninguém fala nada”, avalia.
Quem falaria sobre o trabalho delas são os fiscais da usina. Para cada turma conduzida por um ônibus, há um encarregado. Outros empregados circulam em caminhonetes. Não há problema em conversas, piadas e pausas entre os trabalhadores. Eles ganham por produção e isso é razão suficiente para não os encontrar parados durante muito tempo.
Se não reclamam de falta de empenho, por três vezes a reportagem, acompanhada por Miguel, foi abordada por fiscais. Queriam saber o que estava sendo feito. “Uma pesquisa do sindicato”, respondia de pronto o dirigente, que havia avisado da dificuldade.
Escaldados com um turbilhão de críticas, os usineiros se preocupam com as repercussões do trabalho. As 33 mortes em quatro anos em São Paulo, segundo dados da Pastoral do Migrante de Guariba, que contabilizou principalmente trabalhadores que vieram de outros estados, entre abril e novembro de cada ano, período de preparo e safra. Um terço delas foi causada por enfarte ou parada cardiorrespiratória. Outras oito foram causadas por queimaduras ou asfixia, três em um acidente de ônibus e o restante por causas desconhecidas.
O processo de migração permanece como principal fonte de mão-de-obra. A maior parte dos jovens de cidades da região prefere outros empregos, urbanos, e até sonham com uma universidade. Mesmo com ensino médio completo, quando falta opção, vão para o corte. Mas para quem vem do Vale do Jequitinhonha (MG) ou do Nordeste, a opção de ser safrista pode ser melhor do que outro tipo de ocupação. Giovani Oliveira Santos tem 41 anos e corta cana há 23 na região, nasceu em Virgem da Lapa (MG). “O serviço é bom porque não sei fazer outro”, resigna-se. Passou dois anos em São Carlos, e trocou de empregador apenas duas vezes. Sem alternativas nem o vigor de quando começou, corta metade do que conseguia, pára em 200 metros no máximo. Enquanto tiver fôlego, vai trabalhar na safra.



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