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Dicas de livros Por   Do golpe ao Planalto – Uma vida de repórter Ricardo Kotscho Companhia das Letras R$ 46 “– Nenhuma gafe do presidente hoje? – Como não? Você soube o que aconteceu durante a...

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Dicas de livros

Por

 
Do golpe ao Planalto – Uma vida de repórter
Ricardo Kotscho 
Companhia das Letras
R$ 46
“– Nenhuma gafe do presidente hoje?
– Como não? Você soube o que aconteceu durante a viagem no avião?
– Não, me conta, que preciso escrever sobre isso.
– Ah, o deputado fulano, que estava no avião me disse que…
Não recordo os detalhes, mas eu estava no avião, e nada do que elas disseram tinha de fato acontecido. Escrever sobre gafes de Lula passara a ser uma pauta fixa para alguns jornalistas, pouco importando se haviam sido cometidas ou não. Embora não estivessem presentes ao jantar, as duas repórteres e outros, como se tivessem combinado fazê-lo, escreveram no dia seguinte que o presidente, no final de seu discurso, cometera uma gafe ao propor um brinde num país onde bebidas alcoólicas são proibidas, e que isso teria causado grande constrangimento.
Em nota oficial que distribuí aos jornalistas, expliquei que o intérprete, Said Khoury, traduzira a expressão ‘proponho um brinde’ para o árabe como ‘faço uma saudação’. Portanto, os participantes no jantar não poderiam ter ficado incomodados, pelo simples e bom motivo de que não falavam português.”
Este trecho, narrado pelo jornalista Ricardo Kotscho em Do golpe ao Planalto: Uma vida de repórter, mostra que a relação conflituosa da grande mídia com o presidente não tem a ver apenas com os interesses dos donos dos veículos. Alguns “jornalistas já fazem o serviço” por conta de seus preconceitos.
Das redações às campanhas presidenciais, das grandes reportagens pelo Norte e Nordeste desconhecido do país às caravanas da cidadania, da Ditadura às Diretas Já, Kotscho faz um relato pessoal, fácil de ler, como uma grande reportagem.

Sem pauta
Luiz Cesar Pimentel

Editora Seoman
R$ 26
O jornalista Luiz Cesar Pimentel, que colaborou para Fórum em suas primeiras edições, é autor de Sem Pauta, um trabalho autêntico de histórias vividas em 18 países visitados à base de coragem e mochila.
Dos 18, 11 são asiáticos, o que torna o livro só por este motivo diferenciado. O mais interessante, porém, é que a visão de Pimentel não é a do autor-guia, mas a do bom repórter. Aquele que escolhe as pautas que cada lugar tem de melhor e revela a essência para o leitor, sem se preocupar em ficar explicando qual o melhor hotel ou o restaurante adequado para se comer.
Além disso, o livro segue o padrão que parece ter sido o da viagem: gostoso e sem grandes compromissos. Dividido por países, ele permite que sua leitura seja realizada ficar presa à ordem numérica das páginas. As fotos, espalhadas pela obra, podem ser lidas à parte, já que as legendas fogem do lugar-comum e se tornam mais do que um complemento.
O texto mistura um relato de diário de viagens com reportagens de caráter jornalístico. Indicado para quem pretende viajar, principalmente pela Ásia, mas também para os que curtem o prazer de correr pelo mundo, mesmo que seja, por um motivo ou outro, sem sair do lugar.

Espaço Urbano e Inclusão Social – A gestão pública na cidade de São Paulo (2001-2004)
Fundação Perseu Abramo

R$ 30
A obra, organizada por Ricardo Gaspar, Marco Akerman e Roberto Garibe, aborda os quatro anos de Marta Suplicy à frente da prefeitura de São Paulo. Uma administração considerada ótima ou boa por 49% dos paulistanos, mas que não conseguiu um segundo mandato.
Ali estão elencadas não apenas as razões para o sucesso da gestão como também diversas das dificuldades enfrentadas ao assumir uma prefeitura após oito anos de Maluf/Pitta. Foi necessária uma reestruturação da máquina pública, já que, para se ter uma idéia, nos primeiros meses a folha de pagamento era elaborada manualmente, tal o nível de desordem de uma administração que teve seu prefeito afastado legalmente por alguns dias. Integrar a cidade ao Sistema Único de Saúde (SUS) para voltar a receber recursos da União foi outro desafio emergencial.
Chamam a atenção os capítulos que descrevem experiências inovadoras mesmo dentro do campo progressista, como a descentralização administrativa por meio da implementação das subprefeituras, ou a priorização da área social com o desenvolvimento de programas de transferência de renda e a elaboração dos Centros Educacionais Unificados (CEUs).

Filosofia Política Contemporânea – controvérsias sobre civilização,
império e cidadania
Atilio A. Boron (org.)

Clacso Livros
R$ 35
Em agosto de 2002, um ano depois que o ataque às Torres Gêmeas calou o bordão neoliberal do “fim da história” e fez o Império mostrar sua face mais peçonhenta, intelectuais latino-americanos – principalmente da USP e da UBA (Universidade de Buenos Aires), mas não só – se juntam para discutir os novos desafios da teoria política. Na corrente contrária ao esvaziamento político que a ideologia neoliberal tenta incutir na discussão da coisa pública, Filosofia Política Contemporânea retoma as controvérsias sobre a construção da democracia e da civilização. “Mas”, diz Gabriel Cohn no artigo que abre o livro, “fazemos isso contra o pano de fundo de que a barbárie está aí”. Há ainda espaço para se discutir “Liberalismo e Socialismo hoje” e as teorias pós-modernas sobre império e imperialismo (por exemplo, nos notáveis artigos que discutem o polêmico best-seller Império, de Michael Hardt e Antonio Negri). É a oportunidade de aguçar a sensibilidade para o nosso “ser político” e lembrar que a convivência com os outros pode ser difícil, mas talvez seja o lugar próprio do humano. Afinal, como diz Cohn, “indiferença é barbárie, não é civilização; civilização é exatamente a atenção ao outro”



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