Banda Marchista

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Quando a gente se juntava para tomar cerveja e falar bobagens, o Osvaldinho sempre tinha alguma proposta revolucionária ou...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Quando a gente se juntava para tomar cerveja e falar bobagens, o Osvaldinho sempre tinha alguma proposta revolucionária ou algum projeto de pesquisa. Uma vez falou que queria desenvolver um milho de pipoca sincronizado. Estourariam todos os grãos de uma só vez. Era um grande “poc” e pronto, todos os grãos viravam pipoca. Mas começamos a argumentar sobre o tamanho que seria o estouro – todos os milhos estourando juntos poderiam causar na verdade uma grande explosão – e ficamos um tempão discutindo se não seria possível patentear a invenção como bomba, em vez de pipoca.
Outra vez, bebíamos uma cerveja no bar Redondo e, olhando um bueiro, ele disse que queria apresentar a algum político o projeto de colocar caixas de som especiais em todos os bueiros. Às seis horas da tarde em ponto e às seis da manhã, sairia de todos os bueiros paulistanos uma bela música, a mesma em todos eles. Ópera. E gozava:
– O povo vai ficar muito feliz, ouvindo ópera ao acordar, todos os dias às seis horas. E quando sair do trabalho, também vai andar pelas ruas alegre, apreciando as músicas dos bueiros.
Fomos músicos de uma mesma banda.
Era perto do fim da ditadura. Os militares odiavam os comunistas. Alguns deles, quando iam falar de agitadores, os chamavam de marxistas, mas só que, em vez de usar a pronúncia “cs” para o x, falavam “marchistas”. Como a gente gozava em tudo, resolvemos fundar uma banda daquele estilo antigo, que tocava marchas e dobrados em coretos de cidades do interior, e demos a ela o nome “Banda Marchista Marxial”, pronunciando “marcsial”.
Um amigo que estudava Letras, o Chico, era um bom músico, havia participado de um conjunto famoso de Caconde, chamado Os Brasinhas, e foi ser nosso maestro, além de tocar na banda também. Nós o chamávamos de Chico Brasinha. O Osvaldinho já vinha tocando um bombardino razoavelmente, era bom de ouvido, e resolveu mudar de instrumento, passando a tocar clarineta, que era mais difícil, e me vendeu seu bombardino. O Chico Brasinha inventou uma pauta musical para ensinar os completamente leigos como eu. Deu um número para cada dedo e em vez das notas tradicionais, o que a pauta trazia eram números indicando as chaves a serem apertadas, ou melhor, os dedos que a gente devia usar. E junto com os números, alguns códigos simples indicando mais ou menos o tempo que deveríamos manter as chaves apertadas.

De ouvido, eu não tocava nada. Com as pautas musicais produzidas pelo Chico, enganava mais ou menos. Dava pra tocar. Um dos locais que gostávamos de nos “apresentar” era um bar de uma mulher crente perto da casa do Osvaldinho. Tocáva¬mos hinos de igreja, dizendo que éramos evangélicos, e bebíamos pra burro. Ela ficava indignada, falando que nunca viu irmão beber daquele jeito.
Tocávamos também marchas, boleros, tangos, fados e até jazz. Tudo usando as pautas do Chico Brasinha. E o Osvaldinho cantava algumas músicas, mas geralmente adaptando as letras para o nosso estilo. Um tango que ele cantava era composto por ele mesmo, Mi Gonorréia Volvió. Mas a música que virou um clássico da nossa banda é o fado Perseguição, que o Osvaldinho adaptou para encher o saco de um português apaixonado pela Amália Rodrigues. Todos ficavam impressionados ouvindo o Osvaldinho cantar imitando a cantora portuguesa, inicialmente com a letra original:

Se de mim nada consegues,
Não sei por que me persegues
Constantemente na rua.
Sabes bem que sou casada,
Que sempre fui dedicada
E que não posso ser tua.
Aí, em vez de continuar com a letra tradicional, o Osvaldinho mudava:
Mas se fores insistente
Pode ser que de repente
A minha idéia se mude…
Então vai ser pra valer,
Vou te dar até morrer…

                                                                         Ai Jesus que gostosura!!!



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