Bombas à solta

O governo Bush vem diminuindo “progressivamente” as distâncias entre guerras convencionais e não-convencionais. A nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos declara que “temos de estar preparados para imobilizar regimes malfeitores e seus...

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O governo Bush vem diminuindo “progressivamente” as distâncias entre guerras convencionais e não-convencionais. A nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos declara que “temos de estar preparados para imobilizar regimes malfeitores e seus clientes terroristas antes que eles possam disparar armas de destruição maciça”.

Por Newton Carlos

 

O governo Bush vem diminuindo “progressivamente” as distâncias entre guerras convencionais e não-convencionais. A nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos declara que “temos de estar preparados para imobilizar regimes malfeitores e seus clientes terroristas antes que eles possam disparar armas de destruição maciça”. Ataques a interesses norte-americanos, mesmo que limitados, não importa de onde partam, envolvendo qualquer forma de engenhos biológicos, químicos ou radiológicos, “poderá desencadear retaliação nuclear”.
Calcula-se que os Estados Unidos estejam gastando, em atividades com armas atômicas, 45% a mais do que na fase final da Guerra Fria. E isso é usado como argumento por países como Índia e Paquistão na recusa em voltar atrás com seus bem-sucedidos programas. Questão de isonomia, de direitos iguais, alegam, invocando o não-respeito geral a tratados de desar¬mamento negociados em nome da sobrevivência da espécie humana.
Índia e Paquistão detestam-se. O Irã insiste em enriquecer urânio. Relatório do Carnegie Endowment por International Peace, intitulado Deadly Arsenals, ou arsenais mortíferos, diz que “Israel tem capacidade nuclear avançada, com materiais e infra-estrutura suficientes para produzir de 98 a 172 bombas. Documento do Center of Strategic Studies, da Universidade de Tel Aviv, justifica o arsenal israelense como necessidade de contrabalançar o potencial militar, em armas químicas e biológicas, do Iraque, Síria e Irã. Cenário de doomsday, o dia do Juízo Final.
Um ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara, fala de um “Apocalipse agora” em artigo na influente Foreing Policy. O assunto é o contínuo incremento do arsenal nuclear norte-americano e seu uso como instrumento de política externa. O Los Angeles Times informou sobre diminutos engenhos atômicos que substituiriam armas convencionais em ataques, por exemplo, a bunkers subterrâneos. São “bombinhas” atômicas cujo uso é tido como “viável” pelos estrategistas do Pentágono.
O The Guardian, de Londres, comentou o assunto num editorial intitulado Madness in Making, mais ou menos algo como “Loucura em processamento”. É maior do que em qualquer tempo, escreveu o jornal inglês, “a possibilidade de os Estados Unidos recorrerem a armas atômicas”. O grande perigo não mais se vincula aos velhos medos provocados pelos engenhos estratégicos de longo alcance. O pesadelo do século XXI tem duas causas principais. Uma delas é o conti¬nuado desenvolvimento em laboratórios e campos de testes norte-americanos de novas gerações dessas armas e a disposição confessa do governo Bush de usá-las “preventivamente”.
A outra combina proliferação (Índia, Paquistão, Israel etc.) com riscos de acesso ilimitado e incontrolável a essas armas. A proliferação é impulsionada pelo fato de que as potências atômicas não cumprem obrigações, inscritas no Tratado de Não-Proliferação, de diminuir progressivamente seus arsenais de armas de destruição maciça. Além disso, os campos de testes, sobretudo nos Estados Unidos, se deslocam dos terrenos abertos para laboratórios, onde a surdina é mais eficiente. F

Cheiro de Franquismo

Há outra questão, além do separatismo do ETA, envolvendo a “unidade da Espanha”, bandeira com cheiro de franquismo. Um novo estatuto da Catalunha passou no Parlamento espanhol depois de aprovado, em 2005, por 90% dos deputados catalães. Como o País Basco e a Galícia, a Catalunha tem língua própria e uma cultura singular. Tornou-se autônoma em 1932, condição perdida na ditadura de Franco e recuperada em 1979, com a redemocratização. Na mesma época, foram criadas 17 “comunidades autônomas” na Espanha. A coligação de esquerda (socialistas e nacionalistas), pela primeira vez no governo catalão, prometeu adotar o novo estatuto.
Não se trata de “separação”, mas de recuperação de uma tradição “federalizante”. Reclama o caráter de “nação” para a Catalunha. A Igreja e a direita se mobilizaram em violenta campanha contrária que incluiu uma declaração golpista do ex-comandante do Exército espanhol. Em Sevilha, a 6 de janeiro de 2006, o general José Mena Aguado falou: “É nosso dever alertar para as graves conseqüências que a aprovação do estatuto da Catalunha, nos termos em que está redigido, poderá provocar no interior das Forças Armadas”. Acrescentou que o artigo 8 da Constituição confere a estas “a missão de se oporem ao desmembramento da Espanha”.
Na alça de mira também o País Basco. O general foi demitido, em uma manifestação de autoridade do poder civil. F



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