Chico Buarque em dois tempos

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Se eu tiver que falar de uma frustração como jornalista, acho que posso dizer que foi nunca ter entrevistado...

242 0

Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Se eu tiver que falar de uma frustração como jornalista, acho que posso dizer que foi nunca ter entrevistado o Chico Buarque. Nem de coletiva dele participei. Mas fez parte da vida de toda a minha geração. Era um amigo íntimo de todos nós de esquerda, mesmo que nunca o tenhamos visto de perto. Cada música que lançava era uma resposta “nossa” à ditadura. A gente vibrava como se fosse nossa. Era um tapa na cara dos ditadores. Na verdade, não éramos só nós de esquerda que o tínhamos como ídolo, mas todo mundo que era contra a ditadura, e também os apreciadores de uma boa música com letras sempre maravilhosas.
Foi um sujeito tão visado que, em certo momento, bastava seu nome aparecer como compositor de uma música que era censurada, proibida. Na época, existia isso: músicas, livros e peças de teatro tinham que passar pela censura. E muitas não passavam. Por ironia, Amália Lucy, filha do então general-presidente Ernesto Geisel, disse numa entrevista na TV que gostava das músicas do Chico. E pouco tempo depois apareceu uma música, um rock muito animado, de um certo Julinho de Adelaide, que na verdade era ele mesmo usando outro nome para não ser censurado, mas cantada pelo próprio Chico, começando assim: “Você não gosta de mim, mas sua filha gosta…”. Sucesso imediato! Embora o próprio Chico diga que a música não foi feita para o Geisel, esta é a história que ficou. Para contar um episódio que se segue, é preciso lembrar que os vestibulares para os cursos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP ainda eram específicos para cada curso, não havia isso de primeira opção, segunda opção e terceira opção. Fazia-se vestibular para um determinado curso, e ponto final. E os vestibulares eram nos próprios prédios onde os que passavam iriam estudar. No prédio de Geografia e História da USP, fazia-se vestibulares para Geografia e História. E os veteranos iam lá dar apoio aos vestibulandos e, ao mesmo tempo, observar quais já eram filiados a alguma organização de esquerda e quais eram potencialmente militantes para suas próprias organizações. No início de 1969 ou 1970, cheguei ao prédio de Geografia e História numa manhã de sábado, para participar desse apoio aos futuros colegas, e vi um amontoado de gente em frente à biblioteca de História. Eram todos vestibulandos. Muitos.
Perguntei o que eles estavam fazendo ali, e me mostraram dentro da biblioteca, separada do pátio apenas por um vidro, um monte de gente fazendo prova do vestibular. O detalhe era o professor que tomava conta daquele pessoal, Sérgio Buarque de Holanda, um grande intelectual, historiador famoso, autor de alguns clássicos dos livros de História do Brasil. Mas não estavam ali pra ver essa celebridade:
– É o pai do Chico – disse uma menina que olhava o homem com admiração estampada no rosto.
Saí rindo. Sérgio Buarque de Hollanda, um dos maiores pensadores brasileiros, havia virado “o pai do Chico”. Ser “pai do Chico”, claro, seria motivo de orgulho para qualquer um, mas Sérgio Buarque ser chamado assim me parecia gozado.
O tempo passou, a ditadura acabou e as coisas mudaram. Chico Buarque continuava (e continua) sendo uma referência… mas não para um certo tipo de repórter de TV, mal informado, ou que tem outras referências. Num Carnaval dos meados da década de 90, eu acompanhava pela televisão uns flashes da festa por todo o país. Quando entraram direto de Salvador, uma repórter entrou ao vivo, ao lado de Chico Buarque e parei pra ver e ouvir, mas ouvi só o início da fala dela:
– Estamos aqui com o sogro de Carlinhos Brown…



No artigo

x