Ciência pela ciência?

No meu tempo de faculdade, Aziz Ab’Saber já era um dos professores mais importantes da geo¬grafia, um dos maiores geógrafos de todo o mundo. E modesto, nas excursões com os alunos sempre duros, era...

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No meu tempo de faculdade, Aziz Ab’Saber já era um dos professores mais importantes da geo¬grafia, um dos maiores geógrafos de todo o mundo. E modesto, nas excursões com os alunos sempre duros, era o nosso cozinheiro.

Por Por Mouzar Benedito

 

No meu tempo de faculdade, Aziz Ab’Saber já era um dos professores mais importantes da geo¬grafia, um dos maiores geógrafos de todo o mundo. E modesto, nas excursões com os alunos sempre duros, era o nosso cozinheiro. Viajávamos num ônibus tipo jardineira e parávamos sempre em alguma beira de rio para fazer o almoço e o jantar. Ele fazia, com a ajuda de duas ou três pessoas (na maioria das vezes, meninas), enquanto a gente nadava ou brincava na água.
Mas nós o considerávamos, pretensiosamente, um professor politicamente ruim. “Ciência pela ciência”, rotulávamos os professores que julgávamos não ter compromissos políticos, os que faziam pesquisas sem querer saber que destino elas teriam. Realmente, Aziz Ab’Saber não era um militante. Havia professores alinhados com os alunos, pertencentes a organizações de esquerda, e o Aziz não era um deles.
Em 1970 entrou na faculdade, para fazer geografia, um capitão do exército ligado à repressão, para agir no meio dos alunos. Capitão Maurício. Ele fez vestibular normalmente, e entrou como um aluno qualquer, mas logo descobrimos que pertencia à Operação Bandeirante (Oban), uma organização composta por militares e civis de extrema direita, principalmente empresários, que prendia, torturava e matava gente da oposição, teoricamente de esquerda, mas nem sempre.
A Oban foi fundada pelo então governador Abreu Sodré. Muitos empresários entraram nela, dando dinheiro para comprar armas e aparelhos de tortura no exterior, chegaram a trazer professores para dar aula de tortura a policiais e civis ligados a eles, usando presos políticos como cobaias. Era assim mesmo, ao vivo. A Oban serviu de inspiração para a criação do DOI-Codi, uma organização federal que tinha os mais temidos centros de tortura do Brasil.
Para sair da Cidade Universitária, muitos de nós, homens e mulheres, pegávamos carona na avenida. Uma noite, uma colega nossa muito distraída, a Regina, ligada ao PCdoB, pegou carona num carro… do Capitão Maurício. Em vez de ir para sua casa, acabou nos porões da Oban. O Capitão Maurício não se contentou em prendê-la. Foi à casa dela, mostrou a carteirinha de estudante de geografia, dizendo-se amigo da Regina, disse à sua mãe que ela estava escondida num lugar, com medo de ser presa e queria vê-la. Levou a mãe e o pai da Regina para a Oban também. E todo mundo foi barbaramente torturado. A Regina conseguiu passar a informação (talvez por alguém que estava saindo da cadeia) sobre toda essa história para os colegas da geografia, para nos prevenir contra o Capitão Maurício.
Com a informação, o que fazer? Estávamos no auge da repressão, e qualquer bravata terminava em cadeia e tortura, às vezes morte. Todo mundo ficou sabendo da história da Regina (ainda presa), mas não havia jeito de fazer nada contra o capitão. O prédio da geografia e história vivia repleto de policiais disfarçados, e o Capitão Maurício ia para a faculdade com uma guarda pesada. Os professores de esquerda ficavam furiosos, mas não tinham coragem de encarar o aluno torturador.
Numa aula do professor Aziz, uns 60 alunos na classe, entrou o capitão e se sentou lá no fundo. O professor fez silêncio, olhando para ele. Todo mundo olhou para trás e viu a figura nefasta do torturador. Aziz falou sério para ele:
– Senhor Maurício, eu soube o que fez com uma colega sua. Isso não se faz. É uma coisa muito desumana. Torturar uma pessoa é uma coisa indigna, e torturar uma colega é pior ainda. E a mãe dela… como o senhor tem coragem de fazer uma coisa dessas?
Ia continuar, mas o capitão, pasmo, saiu rapidinho e não voltou mais.
Pois é, e o Aziz Ab’Saber era tido por nós como um grande professor e um grande cientista, mas só “ciência pela ciência”. Pois é… F



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1 comment

  1. SANTIAGO Responder

    Grande homem o prof. Aziz Ab’Saber,


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