Duas visões de democracia

Pesquisadora da USP realiza estudo com alunos de escolas públicas e particulares e constata que valores associados à vivência democrática são distintos de acordo com a classe socioeconômica Por Por Glauco Faria e Marília Melhado  ...

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Pesquisadora da USP realiza estudo com alunos de escolas públicas e particulares e constata que valores associados à vivência democrática são distintos de acordo com a classe socioeconômica

Por Por Glauco Faria e Marília Melhado

 

Segundo a pesquisadora Ana Klein, mestre pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), o teórico Puig explica que, em casa, não é possível se estabelecer uma relação de igualdade, porque pai e mãe mantém uma posição de autoridade sobre os filhos. Assim, o lugar para vivenciar a democracia seria a escola, junto ao colega que tem a mesma idade, mas crenças, hábitos, ou times de futebol diferentes. A diversidade está lá. Klein analisou como estudantes de escolas particulares e públicas entendem o conceito de democracia.
Nas escolas particulares, os alunos associam valores como igualdade e liberdade a um ambiente democrático. Enquanto isso, estudantes de escolas públicas afirmam que o importante na democracia é exercer seu direito de voto. A pesquisadora entende que, na verdade, as distintas concepções dos dois grupos são condizentes com a realidade de cada um.
Quando os entrevistados oriundos de escola particulares falam de valores como a igualdade, isso ocorre porque eles vivem em um ambiente de condições equivalentes. Já para as camadas populares, ocorre outro tipo de associação. “É pertinente ouvir dessas classes sociais que democracia representa o voto, já que isso pode garantir a eles direitos como moradia, saúde e educação”, esclarece.
Um dos pontos mais críticos da pesquisa foi a constatação de que a escola, não por muitas vezes, serve de cenário para inúmeras atitudes antidemocráticas. “Alguns meninos do último ano do ensino médio de uma escola pública se mobilizaram para fazer uma festa, mas o diretor negou o pedido dos alunos e reafirmou que a formatura ia ser só a entrega do diploma. Uma conduta autoritária dessas mostra que não adianta haver uma disciplina para ensinar democracia se o que esse diretor passou para eles é muito mais forte”, exemplifica. Klein ainda aponta que a escolha do uniforme ou a data das provas também podem ser interpretadas como atitudes autoritárias dentro da escola. “Os estudantes reclamam que todas as provas acontecem juntas e que não há tempo de estudar para todas. Alguém tem que ouvir o lado deles.”
Outro aspecto destacado pela pesquisadora foi o fato de os estudantes de classes mais altas não questionarem o acesso à escola como um fator relevante para a democracia. Os alunos mais abastados não reconheceram que uma instituição que cobra mais de R$ 1.000 por mês não pode ser democrática, mesmo que ouça o aluno e o deixe participar. “Ele não relaciona a escola com o resto da sociedade.”
O estudo mostrou ainda que, dentro da escola pública, os alunos citam inúmeras vezes a palavra “povo”, enquanto na particular os estudantes dizem frequentemente “indivíduo”. Segundo a pesquisadora, é importante atentar à linguagem. Na escola particular, o termo “indivíduo” serve como representação próxima a uma ideologia liberal; enquanto na pública, a palavra “povo” pode ser associada à própria evolução da democracia, remetendo à união das classes sociais mais baixas como única possibilidade de participação nas decisões políticas. F



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