E, aí PT?

Alvejado como nunca, o partido elege dois deputados a mais do que tinha e aumenta de três para quatro o número de governadores, mas vai ter de rediscutir o futuro e o que fazer...

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Alvejado como nunca, o partido elege dois deputados a mais do que tinha e aumenta de três para quatro o número de governadores, mas vai ter de rediscutir o futuro e o que fazer para além do mandato do presidente Lula

Por Frédi Vasconcellos

 

As raízes do Partido dos Trabalhadores foram primeiro fincadas em São Paulo, onde nasceu, a partir das greves do ABC paulista, e foi fundado, em 1980, num encontro no Colégio Sion. Foi também no estado de São Paulo que elegeu Gilson Menezes – hoje fora do partido – como seu primeiro prefeito, em 1982, na cidade de Diadema. Demorou vinte anos para ter sua história consagrada, em 2002, ao conquistar a Presidência da República com o ex-metalúrgico, líder das greves do ABC e fundador do partido Luiz Inácio da Silva, o Lula. A conquista do sonho foi também um pesadelo para o partido.
Mesmo Lula tendo mais votos no primeiro turno do que em 2002 e o PT mantendo sua força, as comemorações são tímidas. Há muito mais a refletir do que a festejar. Primeiro, porque se esperava que Lula fosse eleito no primeiro turno. E, se isso não ocorreu, em boa medida foi devido ao desgaste sofrido por atividades ilícitas praticadas por filiados ao PT com ou sem mandato público.

Balanço razoável 
Dadas as condições em que as eleições ocorreram, muitos petistas devem estar respirando aliviados. Em relação à Câmara dos Deputados, o PT perdeu oito cadeiras na comparação com os eleitos há quatro anos, mas ganhou duas em relação ao total que detinha no final dos mandatos. A explicação principal foi a saída de deputados do partido, principalmente os sete que foram para o PSoL. Comparados aos 81 atuais, o partido terá dois deputados a mais no ano que vem, 83. Se somados aos do PCdoB e do PSB, a base mais fiel de Lula cresceu.
No Senado, em relação a oito anos atrás, o número de eleitos pelo partido teve queda de quatro para dois. Eduardo Suplicy (SP) e Tião Vianna (AC) reelegeram-se. A vaga de Heloísa Helena (AL) ficou com Collor e a de Saturnino Braga (RJ) acabou nas mãos de Francisco Dornelles. A compensação foi a eleição de Inácio Arruda (PCdoB), no Ceará, no lugar de Luiz Ponte (PSDB) e de Renato Casagrande (PSB), no Espírito Santo, no lugar de João Batista Motta (PSDB). O jogo para Lula e o PT fica um pouco melhor com a vitória de João Durval (PDT), na Bahia, que derrotou o candidato do PFL de ACM.
Em relação aos governos estaduais, foram mantidos os do Acre e Piauí e conquistados o de Sergipe e o da Bahia, com o ex-ministro Jaques Wagner (veja matéria na pág. 10). Sem contar que no Ceará o vice de Cid Gomes (PSB) é do PT. E a vitória naquele estado põe fim a uma dinastia tucana liderada pelo presidente do PSDB, Tasso Jereissati. Que quando viu que o barco do seu candidato estava afundando fez de conta que não era com ele.
“Nosso desempenho eleitoral foi bom. No caso dos governadores, melhor do que se anunciava. No Senado, além dos eleitos, tivemos desempenhos importantes como os de Miguel Rossetto, no Rio Grande do Sul, muito melhor do que apontavam as pesquisas, de Gleisi, no Paraná, com mais de 45% dos votos, de José Eduardo Dutra, no Sergipe, com 47% dos votos. Na Câmara não houve desastre, foi mantida a musculatura, mas mesmo deputados que não estavam envolvidos em nenhuma denúncia perderam votos”, diz Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT.
Para Pomar, é extremamente importante a campanha de Lula pela reeleição, mas no médio prazo o PT que sai das urnas terá que enfrentar uma profunda crise. “A origem do PT é a de fazer transformações estruturais na sociedade brasileira. Com Lula reeleito, vamos nos perguntar ‘e aí?’ Precisamos ter um projeto maior, não ligado a indivíduos”, diz.
A avaliação do presidente do PT, Ricardo Berzoini, reeleito deputado federal, é parecida com relação ao desempenho. Mas ele entende que, com tudo o que o partido passou, sai fortalecido das urnas, principalmente pelo acirramento político que houve. “Fomos muito bem, além de tudo o que conquistamos, ainda estamos no segundo turno no Rio Grande do Sul e no Pará e temos políticas de alianças no Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Mas, sem ufanismos, também sofremos desgastes.”
Ele lembra que no segundo turno será outra eleição, até porque muitas pessoas não votaram em Lula porque queriam mais debate. “Agora é fundamental afirmar nosso projeto e esclarecer qual é o projeto deles de país”, completa. Questionado sobre o futuro do partido e de Lula, Berzoini diz que a figura do presidente transcende o partido, porque representa diversos outros setores, mas há uma interseção muito grande entre eles. Lembra também que foi evitado o desastre anunciado por meios de comunicação, que chegaram a falar em fim do PT.

Outro sotaque partidário 
Se no conjunto do país os resultados eleitorais se mantiveram ou até melhoraram para o partido, o PT sofre neste momento um deslocamento em sua geografia. Em São Paulo, perdeu três deputados federais e Lula perdeu no estado por quase 4 milhões de votos para Alckmin. A diferença foi compensada pelo bom desempenho principalmente no Nordeste. E o partido ganhou mais capilaridade, elegeu deputados em 24 estados e no Distrito Federal, deixando de ter representantes em apenas três deles – Alagoas, Roraima e Tocantins.
Para o prefeito de Recife, João Paulo, a performance de Lula nessas eleições foi muito boa. E, se repetir a mesma votação, vai assegurar a vitória no segundo turno. “De forma geral, prevaleceu a hegemonia do presidente Lula, que vai ser fortalecida no segundo turno. Considerando questões de caráter político e ideológico, acho que parcela significativa dos eleitores do campo da esquerda vai ter o bom senso de votar na melhor opção pelo Brasil. No Nordeste, a nossa estratégia é ampliar a diferença para compensar algumas áreas do Sul e Sudeste.”
Se a vitória na região foi importante, Minas Gerais também contribuiu para que a vantagem de Lula fosse mantida no Sudeste. Em Minas, Lula teve pouco mais de 1 milhão de votos de diferença sobre Alckmin. Para a deputada federal reeleita Maria do Carmo (PT), a diferença seria ainda maior não fossem as denúncias de compra de dossiê. Outro ponto negativo destacado por ela foi o não comparecimento de Lula ao debate. “A imprensa e a rede Globo deram muita importância a isso.”
No Rio Grande do Sul, Carlos Leite, jornalista e assessor parlamentar, também acredita que esses fatores ajudam a explicar por que a eleição não acabou no primeiro turno. No seu entendimento, “a classe média que iria votar no Lula decidiu não votar mais”. Os fatores nacionais ajudariam a entender também a subida de Yeda Crusius, que de terceiro lugar nas pesquisas chegou em primeiro. “O Rio Grande do Sul vive uma crise na agricultura, pelo baixo preço dos produtos e por causa da estiagem. E tudo é atribuído primeiro ao governo federal e depois ao estadual.”
Ele conta que a estratégia da candidata tucana foi atacar o baixo crescimento econômico do estado, na realidade negativo, para alvejar os dois governos, mas sem explicar que seu partido apoiava e participava do governo Rigotto até bem poucos meses antes da eleição. Sobre o que acontecerá nos próximos dias, Carlos Leite diz que há otimismo e atribui a possibilidade de bom resultado à velha militância petista. “Nos últimos dois dias antes da eleição, o Olívio aparecia em terceiro nas pesquisas. Isso fez com que a militância saísse da toca, o que foi decisivo para que ele superasse Rigotto. Essa é a receita para o segundo turno.”



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