E depois que Kauê for embora?

O governo federal pretende destinar ao social pelo menos 10% dos R$ 2,5 bilhões de investimento a serem aplicados nos jogos Pan-Americanos que acontecem no Rio, em 2007. Uma boa parte desse volume de...

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O governo federal pretende destinar ao social pelo menos 10% dos R$ 2,5 bilhões de investimento a serem aplicados nos jogos Pan-Americanos que acontecem no Rio, em 2007. Uma boa parte desse volume de recursos seria destinada à melhora das condições de vida nas favelas cariocas

Por Por Vitor Nuzzi

 

A contagem regressiva pode ser acompanhada pelo painel montado na praia de Copacabana. Daqui a pouco menos de um ano, de 13 a 27 de julho, o Rio de Janeiro vai receber 5 mil atletas de 42 países para a 15ª edição dos Jogos Pan-Americanos. Enquanto os organizadores correm para deixar tudo pronto a tempo, já se discute o que ficará para o Rio e para o país quando a festa acabar e todos forem embora, inclusive Kauê, a mascote-símbolo, que representa o sol.
A julgar pelo depoimento de um integrante da organização não-governamental Observatório de Favelas, a preocupação justifica-se. “Sempre que conversamos com os moradores, eles manifestam o receio de que possa vir a se repetir o que aconteceu durante a Eco 92: canhões apontando para a Rocinha e outras comunidades”, recorda.
A questão da segurança vem sendo tratada como o calcanhar-de-aquiles do Pan. Até o ano que vem, deverão ser investidos R$ 385 milhões apenas nessa área, incluindo infra-estrutura, inteligência e treinamento. Também foi criado um Centro de Inteligência dos Jogos (CIJ), coordenado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e que reúne 27 órgãos e entidades privados e públicos, dos governos federal, esta¬dual e municipal. Mas os organizadores garantem que a idéia não é isolar moradores de áreas carentes. Ao contrário, é fazer com que sintam que o Pan é bom para eles.
Nesse sentido, começou a ser feito um levantamento de 50 favelas, localizadas em áreas que estão no roteiro das competições. Uma delas é a Cidade de Deus, que se tornou internacionalmente conhecida por causa do filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Ela fica a poucos quilômetros da Vila Pan-Americana (que após os Jogos se transformará em conjunto residencial), na zona oeste do Rio. Um esforço conjunto de várias áreas do governo, com a ajuda de ONGs, vai detectar as principais necessidades dessa e de outras regiões.
As 50 favelas do programa não chegam a 10% do total, mas concentram aproximadamente 50% da população favelada do Rio, algo em torno de 600 mil pessoas. O objetivo, diz Adilson Pires, secretário-adjunto do governo federal para o Pan, é destinar ao social pelo menos 10% dos R$ 2,5 bilhões de investimentos a serem aplicados nos jogos, dos quais, segundo ele, apenas o governo federal investirá R$ 1,29 bilhão. “Com esses 10%, a gente faz uma transformação consistente”, assegura.
“A proposta é aproveitar toda a sinergia gerada por um evento como o Pan e propor um novo modelo de cidade e de desenvolvimento social a partir do diálogo com 50 comunidades populares, que invista nesses locais historicamente preteridos”, diz o coordenador do Projeto Legado Social do Pan, Edson Diniz, do Observatório. “Esses investimentos podem ser tanto materiais como imateriais, como a discussão sobre a imagem que se tem do morador das favelas, o reconhecimento da pluralidade de culturas na cidade, o fim da idéia da cidade partida”, acrescenta. Na pesquisa que já começou a ser feita, participa ainda outra ONG, o Centro de Promoção da Saúde (Cedaps).
Fernanda Venturini, ex-jogadora da seleção de vôlei, medalha de prata no Pan de 1989, em Cuba, e bronze nas Olimpíadas de 1996, nos Estados Unidos também acha que se deve aproveitar o evento para repensar a política de esportes no país. “Estímulo (para o esporte) já está trazendo. Mas não pode ser só em época de Pan e de Olimpíada que as coisas se mexem”, afirma. “As cubanas me diziam que lá você é obrigado a fazer algum esporte. Acho isso legal, tira a criança de muita coisa ruim”, diz Fernanda.

Segundo Tempo
Um programa que caminha nesse sentido e já está em andamento é o Segundo Tempo, uma parceria do Ministério do Esporte com a ONG Viva Rio que, em sua primeira fase, atendeu 50 mil crianças e jovens. Eles praticavam esportes e também tinham aulas de informática e teatro, entre outras atividades. “Existe um conjunto de políticas públicas eficazes, baratas e de fácil aplicação, com a ação integrada entre sociedade e Poder Público”, observa o coordenador-técnico do Segundo Tempo, José Ribamar Pereira Filho. Desses 50 mil participantes iniciais, 51% tinham de 11 a 15 anos, 63% eram do sexo masculino, 44% tinham renda familiar de até um salário mínimo e – um dado animador – 99,2% estavam na escola.
“Temos de levantar por que esses 0,8% não estão”, diz Ribamar. Mas o Pan também deve deixar um legado esportivo que pode ser utilizado pela população local. Adilson
Pires lembra que isso acontecerá “com a construção ou reforma de equipamentos, capazes de atender às normas internacionais”. Recordista brasileiro de medalhas em Pan-Americanos
– ganhou 19 –, o ex-nadador Gustavo Borges concorda. Segundo ele, a motivação extra e a melhor infra-estrutura proporcionada pelos Jogos podem fazer com que o incentivo
ao esporte seja mais constante. “Entressafra é natural, no esporte individual
talvez seja um pouco mais. Isso (o Pan) pode ajudar a reduzir essa distância”, acredita.Vale a pena refletir a respeito de uma entrevista concedida anos após os Jogos Olímpicos de 1992, pelo então responsável pelo planejamento
urbano de Barcelona, Francesc Santacana. “A nossa grande
preocupação era que a sociedade de Barcelona não caísse em depressão
no dia seguinte às Olimpíadas.” Ou seja, não se pensou em nenhum momento nos Jogos pelos Jogos. No Rio, que assim seja. F

Nosso outro Pan
São Paulo venceu a disputa com Winnipeg, no Canadá, e sediou a quarta edição do Pan, em 1963. Foi quando o Brasil teve a sua melhor colocação na competição: segundo lugar. O futebol, que no profissional já era bicampeão mundial, ganhou pela primeira vez a medalha de ouro – dois jogadores ficariam muito conhecidos anos depois: Carlos Alberto Torres e Jairzinho. Construída em tempo recorde, a Vila Pan-Americana hoje faz parte do complexo da Cidade Universitária, da USP. Já famosa com seu desempenho nas quadras de Wimbledon, na Inglaterra, a tenista Maria Esther Bueno ganhou a medalha de ouro em simples e a prata nas duplas, com Maureen Schwartz.



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