E se o Iraque produzisse aspargos ou batatas?

O inglês Robert Fisk, do diário The Independent, foi o único profissional ocidental a ter entrevistado Osama Bin Laden, líder da rede terrorista Al Qaeda. E o fez por três vezes. Reconhecido como repórter...

161 0

O inglês Robert Fisk, do diário The Independent, foi o único profissional ocidental a ter entrevistado Osama Bin Laden, líder da rede terrorista Al Qaeda. E o fez por três vezes. Reconhecido como repórter de guerra, se move pela denúncia da injustiça. Na edição de uma entrevista coletiva durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Fisk debate as guerras da região e a necessidade de justiça no mundo muçulmano, que não virá com a intervenção belicista do Ocidente

Por Renato Rovai

 

Quem faz as guerras
Nos últimos 100 anos nós tivemos duas guerras mundiais. Eram os europeus lutando uns contra os outros. Os americanos e os japoneses se matando. O povo muçulmano não teve um papel ativo nessas guerras. Foram 60 milhões de mortos na II Guerra Mundial e pelo menos 30 milhões na primeira. Um total de 90 milhões. E são os mulçumanos que se matam? Nós é que somos os peritos em guerra. Nós é que desde os tempos das cruzadas nos especializamos em guerra, não o povo muçulmano. Eu não me ligo muito em religião, mas não acredito no embate das civilizações. Em relação ao Oriente Médio, nós insistentemente tentamos conquistar seus territórios dizendo que estamos invadindo-os para salvar o seu povo. O papa chegou ao Egito no século XVIII dizendo que iria liberar o povo do tirano. Em 1917, o general Frederick Stanley Mauden, comandante britânico durante a I Guerra Mundial, ao ocupar a Mesopotâmia, pôs uma declaração nas paredes de Bagdá – por sinal, tenho uma cópia em casa: “Nossos exércitos não vêm a suas cidades e terras como conquistadores, mas para libertá-los”.

Por que fomos ao Iraque? Será que fomos porque eles têm armas de destruição em massa? Fomos para lhes oferecer democracia? Não, não fomos. Se o produto de exportação do Iraque fosse aspargos ou batatas, o Iraque teria sido invadido em 2003? Os árabes e muçulmanos gostariam de um pouco da nossa democracia e alguns “pacotes” de direitos humanos que oferecemos no Ocidente, mas eles também querem outro tipo de liberdade, eles querem estar livres de nós. E não há intenção de lhes dar essa liberdade. E é isso que causa os problemas. Temos que sair do Oriente Médio. Podemos ter uma relação séria, madura, política, social e educacional com o povo muçulmano, mas no momento temos 22 vezes mais tropas do Ocidente nas terras muçulmanas do que havia na época das cruzadas, no século XI. Enquanto isso permanecer, é impossível manter qualquer relação.

Justiça, não democracia
O que o Oriente Médio precisa não é de democracia, que de fato eles podem ter, mas sim de justiça. Reli meus documentos recentemente. Não uso internet nem e-mail, tenho tudo guardado em papel. Reli tudo que guardo à procura de quando foi a última vez que [o presidente dos Estados Unidos George W.] Bush ou [o ex-primeiro-ministro britânico] Tony Blair usaram a palavra “justiça”, em vez de liberdade, democracia, blá-blá-blá. Só achei uma única referência à palavra justiça. E essa única referência foi nos relatos de um bombardeio a uma cidade iraquiana. A operação tinha o nome de “Justiça infinita”. Acho que esse não é bem o tipo de justiça que o povo árabe procura. Mas se eles tivessem justiça no Oriente Médio e contribuíssem para ela, então a Al Qaeda não teria mais propósito algum. Com justiça, a Al Qaeda se desintegraria.

11 de setembro 

Na noite de 11 de setembro estava atravessando o Atlântico num avião, quando ocorreram os ataques. Foi um pânico. Num dado momento me vi procurando árabes no vôo. Contei 11. E só quando terminei é que me dei conta do que estava fazendo. Depois participei de programas de TV naquela noite, programas em que se perguntava “por quê?”. Tinha um professor de Harvard que insistia em falar de anti-semitismo, algo ridículo. Não se respondia discutindo a relação dos Estados Unidos com o Oriente Médio, com Israel. Aliás, esses são temas que não devem ser discutidos na América [sorriso irônico]. Pode-se discutir gays, lésbicas, negros, mas não isso. Falei, naquela ocasião, que se há um crime, a primeira coisa que a polícia faz é procurar um motivo. E no 11 de setembro ocorreu um crime contra a humanidade, foram mais de 3 mil mortos, mas não nos é permitido procurar a razão. Os 19 assassinos vieram do Oriente Médio, eram árabes. É claro que há algum problema lá. Eles não queriam e não querem discutir isso, querem que os ataques não tenham a ver com a ação que realizam no Oriente Médio. Mesmo havendo um vídeo onde um dos 19 declara que aquela ação era por causa do Iraque. Ou criamos consciência de que isso é parte de algo que estamos fazendo ou nunca vamos lidar com o problema real. E haverá mais ataques.

A imprensa estadunidense e a guerra O problema com a imprensa estadunidense é que os jornalistas de lá chegaram a um ponto que eu chamo de “relação osmótica e parasitária com o poder”. Eles gostam de estar próximos do governo, gostam de achar que têm acesso ao poder, mesmo que isso venha a paralisá-los. A maior parte deles se transformou em câmara de eco do governo. Basta assistir a uma coletiva de imprensa daquelas que o presidente Bush concede. Você os vê gritando: “mister president, mister president”. E o Bush responde sorrindo: “pois não, Michel, pois não John…”. Além disso, hoje nos Estados Unidos, até certo ponto, desafiar as autoridades, que é o trabalho que deveremos fazer como jornalistas, parece ser falta de patriotismo. Especialmente em momento de guerra. É encarado como algo potencialmente subversivo.
A imparcialidade jornalística
A idéia de que se deve ouvir os dois lados e dar a eles sempre o mesmo espaço é uma besteira. Ser objetivo e imparcial não é isso. Se você estivesse cobrindo a venda de escravos no século XVIII, não deveria dar tempo igual ao capitão da embarcação e ao escravo. Se estivesse cobrindo o extermínio de judeus nos campos de extermínio nazistas, não poderia ouvir o porta-voz da SS [a polícia nazista] e lhes dar o mesmo espaço que aos sobreviventes dos campos de concentração. Quando eu estava em Jerusalém, em agosto de 2001, um homem-bomba palestino explodiu uma pizzaria matando inúmeras crianças. Estava próximo e minha reportagem foi focada nas crianças israelenses mortas. Não dediquei o mesmo espaço ao porta-voz da Jihad Islâmica. Em 1992, 1.700 palestinos foram assassinados, mais da metade do número de mortes no WTC [World Trade Center, em 11 de setembro], e quando isso ocorreu conversei com os sobreviventes, e não dediquei o mesmo tempo e espaço para os israelenses que invadiram o acampamento e executaram os palestinos.
O Oriente Médio não é um jogo de futebol, ou uma pesquisa pública para uma nova lei, é uma tragédia humana. Os jornalistas devem enfatizar e mostrar o que sentem com relação a essas pessoas que são as vítimas, incluindo israelenses. Pessoas oprimidas, doentes, assassinadas. Deve-se falar e escrever sobre eles como seres humanos. Se você vê alguém apanhando na rua, ali do lado de fora deste hotel, fica furioso. E jornalistas ficam furiosos, também têm o direito de se sentirem assim, o que não significa não ouvir o outro lado da história. Não podemos nem ser “científicos” e nem cobrir um acontecimento com mentalidade de jogo de futebol. O foco da reportagem não é sobre quem venceu ou perdeu, é sobre o fracasso do “espírito humano”.
Quando leio jornais dos Estados Unidos, fico assustado. Nos jornais estadunidenses se escreve que não é um muro construído [na Palestina], mas uma “cerca”, como a de Berlim, lembram-se? Eles também não chamam de território ocupado, chamam de “território em disputa”. Não falam em “colônias”, mas de “bairros” ou “assentamentos”. E, sendo assim, passa-se a achar que as atitudes palestinas são extremamente violentas.

Afeganistão O Talibã está de volta, tem reagrupado poderosas forças no sudoeste do país. A área cristã é basicamente de insurgentes. As drogas estão de volta, mais fortes do que nunca. E uma das razões para isso é que não trouxemos de volta a democracia. Os estadunidenses compraram líderes de guerrilhas para lutarem na guerra por eles. E agora esses líderes estão produzindo as drogas. A situação atual é a seguinte: o exército britânico está tentando se livrar das drogas e as pessoas têm sido executadas pelo Talibã porque querem ganhar dinheiro com as drogas. Temos uma situação em que o exército britânico luta – como em 1842, 1880 e em 1920 – contra pequenas guerrilhas. Um oficial britânico me contou alguns meses atrás em meu escritório em Londres que ele estava com uma unidade de 12 homens em um vilarejo, e teve que solicitar um ataque aéreo em todos os prédios ao redor, por que estavam sendo atacados por centenas de Talibãs. E mesmo assim achamos que vamos “recuperar” o Afeganistão. Estamos perdendo a guerra no Afeganistão e isso não vai mudar. O embaixador britânico disse outro dia em Cabul que “talvez tenhamos de lutar aqui décadas e décadas para proteger os afegãos do Talibã”. Mas o Talibã também é de afegãos. Estamos tentando protegê-los uns dos outros, como fizemos antes na Irlanda do Norte, em 1969, como fizemos no Iêmen, como fizemos na Palestina etc. Não vai funcionar. Nunca vencemos uma guerra sequer naquela parte do mundo. O que estamos fazendo lá? Estamos defendendo nossas idéias, representando democracia e blá-blá-blá. E ocorre o mesmo no Iraque, onde defendemos um tal governo democrata, que na verdade só controla um pedaço pequeno de Bagdá.

Entrevista com o Bin Laden O Bin Laden vai me perseguir pelo resto da minha vida, infelizmente. Conheci-o no Sudão. Um amigo em comum entre nós, o Jamal, que lutou com ele contra a Rússia, esteve em uma manhã de domingo no norte do Sudão, onde o Bin Laden estava construindo uma estrada para ligar um vilarejo à rodovia principal. Para fazer uma piada comigo, esse amigo, me levou “para conhecer alguém interessante”. O Bin Laden já era considerado esse monstro terrorista, mas foi bem antes do 11 de setembro. E ele me levou para essa área no deserto para conhecê-lo. Quando cheguei, os povos dos vilarejos estavam lhe agradecendo por ter construído a nova estrada. Até então, ele nunca havia se encontrado com um jornalista ocidental. O Jamal achava que seria muito engraçado observar qual seria sua reação. Sempre estive muito interessado não somente em “terror, terror, terror”, mas também em saber por que o Bin Laden lutou pelo Ocidente contra os russos. E quando comecei a conversar com ele, iniciei perguntando: “me fale da guerra contra os russos, como é que você fez? Quantos homens você perdeu? Você se feriu? Como você se sentia lutando contra o exército russo?”. E ele queria falar a respeito. Não imaginava que eu fosse perguntar tudo isso, mas era no que eu estava interessado em entender e conhecer: como o cérebro do Bin Laden funcionava. Ele disse que ele teve algumas centenas de soldados mortos e que ele foi ferido cinco vezes. Também contou de uma vez que estava atacando uma base soviética distante, em uma província, e disse que quando de repente um morteiro caiu bem ao seu pé. E que ele esperou que explodisse. Infelizmente, os americanos diriam, infelizmente não explodiu. E ele disse que enquanto esperava pela explosão se sentiu completamente calmo, sereno, e esse foi um momento muito importante para ele. Acredito que tenha sido mesmo [risos]. Fiquei impressionado como a guerra contra os russos o afetou. Não foi a leitura do Alcorão nas cavernas, mas a guerra. E eu escrevi a história sobre a guerra de Bin Laden contra os russos. Quando ele deixou o Sudão, ou foi expulso do Sudão, foi para o Afeganistão. O primeiro jornalista com o qual pediu para falar foi comigo. Acho que é porque ele acredita que reportei suas palavras com precisão. E talvez porque eu simplesmente não foquei no “terror, terror, terror”. Eu perguntei sobre terrorismo, claro, mas estava primeiramente interessado em como sua mente funcionava. Dessa segunda vez, foi ele que pediu para me ver. Nunca pedi para falar com ele, nem tentei achá-lo, e cada vez que ele tentou, eu sempre posterguei. Dizia sempre ao seu mensageiro que estava muito ocupado, que tinha outras coisas para fazer. Não queria que o Bin Laden achasse que ao fazer isso [bate palmas como se estivesse chamando alguém] eu apareceria como um cachorrinho. E na terceira tentativa eu o deixei esperando cinco semanas.



No artigo

x