Educar para outro Mundo possível

FSM em processo Por Moacir Gadotti   Para outro mundo possível, outra educação é necessária. O processo de construção de outro mundo possível é um processo eminentemente...

504 0

FSM em processo

Por Moacir Gadotti

 

Para outro mundo possível, outra educação é necessária. O processo de construção de outro mundo possível é um processo eminentemente educativo. Não dá para entender a ação transformadora do Fórum Social Mundial sem compreendê-lo em sua dimensão pedagógica.
Comecei a escrever este texto a partir da leitura das obras de Teivo Teivanen, membro do Conselho Internacional do FSM. Ele tem insistido que não é possível compreender o processo do Fórum como um processo político sem levar em conta a sua dimensão pedagógica. Teivo inspira-se tanto no filósofo e ativista italiano Antonio Gramsci, como no educador Paulo Freire, para os quais as relações de poder são sempre relações pedagógicas. Toda relação de hegemonia é uma relação pedagógica, sustentava Gramsci. Toda relação pedagógica é necessariamente política, insistia Freire.
Entender o FSM como um processo político de mudança implica entendê-lo como um processo pedagógico de aprendizagem da mudança. A grande novidade do Fórum é que ele desbancou a descrença, o fatalismo neoliberal e o pensamento único. O pior não é o mundo que está aí. O pior é pensar que só esse mundo é possível. O pior é esse mundo transformado em fetiche. Como movimento pedagógico, o FSM opõe-se à crescente fetichização e à mercantilização da educação. A fetichização instaurou um mundo de insensibilidade e de naturalização de tudo. Só uma nova conscientização contra a fetichização poderá desbloquear esse travamento da humanidade.
O FSM, por isso, é também um movimento de reeducação planetária. Educar para outro mundo possível é educar para conscientizar, para desalienar, para desfetichizar. O fetichismo transforma as relações humanas em fenômenos estáticos, impossíveis de ser modificados. Fetichizados, somos incapazes de agir, porque o fetiche rompe com

a capacidade de fazer. Fetichizados apenas repetimos o já feito, o já dito, o que já existe.
Educar para outro mundo possível é visibilizar, tornar visível o que foi escondido para oprimir, é dar voz aos que não são escutados. A luta feminista, o movimento ecológico, o movimento zapatista, o movimento dos sem-terra e outros, tornaram visível o que estava invisibilizado por séculos de opressão. A mercantilização da educação é um dos desafios mais decisivos da história atual, porque ela sobrevaloriza o econômico em detrimento do humano. Só uma educação emancipadora poderá inverter essa lógica, pela da formação para a consciên¬cia crítica, para a desalienação, para a cidadania planetária.
A diversidade é a característica fundamental da humanidade. Por isso não pode haver um modo único de produzir e de reproduzir nossa existência no planeta. O que há de comum é a diversidade humana. Diante da diversidade humana abre-se a possibilidade da diversidade de mundos possíveis. A um pensamento único não podemos opor outro pensamento único.
Educar para outro mundo possível é educar para outros mundos possíveis. Não se pode mudar o mundo sem mudar as pessoas: mudar o mundo e mudar as pessoas são processos interligados. Mudar o mundo depende de todos nós: é preciso que cada um tome consciência e se organize. Educar para outro mundo possível é educar para superar a lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo e no lucro seus fundamentos, é educar para transformar radicalmente o modelo econômico e político atual. No próximo número trataremos do grande desafio que representa o FSM 2007 em Nairóbi.



No artigo

x