Entre Chávez e o Plano Colômbia

Disputa do segundo turno no Equador mostra uma sociedade polarizada entre esquerda e direita Por Alexandre Sammogini, de Quito   De um lado, a simpatia pelo bolivarianismo...

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Disputa do segundo turno no Equador mostra uma sociedade polarizada entre esquerda e direita

Por Alexandre Sammogini, de Quito

 

De um lado, a simpatia pelo bolivarianismo de Hugo Chávez. De outro, um estilo próximo ao Plano Colômbia, patrocinado pelo governo norte-americano. Em meio ao fogo cruzado, o primeiro turno da eleição presidencial no último dia 15 de outubro no Equador refletiu as atuais contradições e disputas do continente latino-americano. Em um processo eleitoral marcado por denúncias de fraudes e reviravoltas de todo tipo, os resultados do primeiro turno mostram que os equatorianos optaram pelos candidatos que mais representam as atuais tensões políticas de nossos vizinhos da região Amazônica.
Apoiado por Chávez, o candidato esquerdista da Alianza País, Rafael Correa, ganhou o direito de disputar o segundo turno ao alcançar 23% dos votos válidos. Na reta final, o megaempresário e crítico feroz dos atuais governos venezuelano e cubano, Álvaro Noboa (Prian), atropelou outros concorrentes e ganhou o primeiro turno com 26%. Nenhum dos dois era apontado como favorito quando a campanha se iniciou, em agosto. Correa partiu com cerca de 5% e chegou a vislumbrar a vitória no primeiro turno quando atingiu 37% do total das intenções de votos a um mês da votação.
Outra surpresa foi o terceiro lugar alcançado pelo populista Gilmar Gutiérrez (PSP), irmão do ex-presidente Lucio Gutiérrez, deposto pelo Congresso por corrupção no início do ano passado. Por outro lado, os candidatos mais bem cotados nas pesquisas, pertencentes aos partidos mais tradicionais, decepcionaram. Leon Roldós, da aliança socialdemocrata Red-Id, ficou em quarto lugar, seguido por Cíntia Viteri, do Partido Social Cristão. Para completar o quadro, em sexto ficou o candidato do movimento indígena, Luis Macas, que contou com o apoio de Evo Morales.
Segundo o analista político e professor da Universidade Estatal de Cuenca, Diego Delgado, a eleição no Equador tem importância estratégica para o equilíbrio de forças na região. Depois do avanço de governos não alinhados com os EUA na Venezuela e na Bolívia, as forças mais conservadoras se mobilizaram para evitar a vitória de candidatos com o perfil de Chávez e Evo Morales. Foi o que ocorreu no Peru, com a vitória de Alan Garcia contra o esquerdista Humala Ollanta, e no México, com a questionável vitória de Felipe Calderón contra o nacionalista Andrés Lopes Obrador.
Nesse contexto, o Equador tem importância crucial, apesar de ser um país com apenas 13 milhões de habitantes e uma das economias mais pobres da América Latina. “A disputa entre Venezuela e Colômbia pode reforçar um novo mapa político não apenas na América Latina, mas entre todos os países subdesenvolvidos”, opina Delgado. Para os interesses dos Estados Unidos é importante manter o bloco Peru-Equador-Colômbia nas mãos de governos neoliberais alinhados com o Plano Colômbia. Além disso, o Equador tem petróleo (produção de 523 mil barris diários), o que lhe confere maior importância, tendo em vista os conflitos dos EUA com Irã e Venezuela.
Com propostas similares às dos governos boliviano e venezuelano, Rafael Correa foi o candidato que conseguiu canalizar os sentimentos nacionalistas. “Em nossas propostas, defendemos posição contrária ao Tratado de Livre Comércio e a não-cooperação com o Plano Colômbia”, explica Fander Falconi, coordenador do programa de governo de Correa. Outros pontos importantes são a posição de não renovar acordo que garante a presença da base norte-americana em Manta, na região da costa equatoriana, e a proposta de nacionalização do petróleo.
O segundo turno promete forte polarização de propostas e os candidatos devem disputar voto a voto a base eleitoral dos candidatos derrotados. A tendência é que os eleitores de León Roldós migrem em sua maioria para Correa, enquanto os de Cíntia Viteri caminhem para Noboa. Já a posição do candidato populista Gilmar Gutiérrez e de seus eleitores é uma incógnita, pois não se sabe ao certo para qual lado devem pender. O maior problema é que o processo eleitoral estará mais do que nunca sob suspeita, depois da ocorrência de indícios de fraudes no primeiro turno.
Como existe o risco de vitória da esquerda, a tática adotada pelas forças conservadoras tem sido a manipulação e a fraude dos processos eleitorais, segundo o diretor da Escola de Sociologia da Universidade Central, Napoleón Saltos. “Acredito que há fortes indícios de que também ocorrerão fraudes no segundo turno”, prevê. A ascensão meteórica de Álvaro Noboa levantou uma série de suspeitas de que o processo eleitoral tenha sido fraudado para beneficiá-lo nas últimas semanas da campanha. “Perdemos votos de forma incrível. Nossas pesquisas de boca de urna apontaram diferenças de até 10% em alguns lugares”, afirmou Rafael Correa ao conhecer os primeiros resultados da apuração.
No dia anterior ao primeiro turno, a reunião dos observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) foi marcada pelas críticas à atuação de seu coordenador, Rafael Bielsa. A Alianza País pedia sua renúncia, por ter atuado de forma parcial ao expressar a seus assessores o incômodo com uma eventual vitória de Correa. O coordenador nega a existência de fraudes que possam influenciar o resultado final, mas admitiu irregularidades e falhas no processo eleitoral e na apuração dos votos.
Para complicar a situação, o consórcio brasileiro E-Vote, contratado pelo Tribunal Eleitoral do Equador para divulgar a contagem rápida dos votos, não conseguiu fechar os resultados no tempo previsto. O atraso abriu margem para o crescimento das suspeitas e denúncias de fraudes, porque os resultados parciais eram bastante diferentes do que mostravam as pesquisas de boca de urna. A Alianza País chegou a apresentar ao ministério público uma denúncia de fraude na contagem dos votos e uma ação para evitar que o responsável pelo E-Vote, Santiago Murray, saísse do país.

Crise do sistema político
A falta de transparência e as denúncias de fraudes agravam ainda mais a fragilidade do sistema político equatoriano. A população já está acostumada a eleger e depois sair às ruas para depor os presidentes eleitos pelo voto direto. Foram três os depostos na última década – Bucaram (em 1996), Mahuat (em 2000) e Gutiérrez (em 2005). O alto índice de votos nulos e brancos, que somados ultrapassam 15%, e as abstenções em torno de 30% do eleitorado equatoriano demonstram a descrença com o sistema político equatoriano. Dos 9,1 milhões de eleitores inscritos para a recente eleição, apenas pouco mais da metade votou em algum dos candidatos.
Outro indicador da crise é o fortalecimento da proposta de convocação de Assembléia Constituinte, com a finalidade principal de realizar uma ampla reforma política. Dos 13 candidatos à presidência, cinco deles defenderam a elaboração de uma nova constituição, entre eles o candidato Luis Macas, da organização política indígena Pachakutik. A proposta da constituinte é originária da década de 1990 e tem raízes nos movimentos indígenas. “Fomos os primeiros a defender a Constituinte e agora diversos candidatos a incluíram em seus programas”, explica Ricardo Ulcuango, deputado e coordenador da campanha de Macas em Quito.
As organizações indígenas lançaram pela primeira vez um candidato próprio à presidência, e terminaram com uma votação pequena, próxima aos 2%. Elas sentiram que houve divisão no movimento devido ao posicionamento contraditório que tiveram na eleição de 2002, quando apoiaram Lucio Gutiérrez. Como a candidatura de Macas não deslanchou, o representante dos movimentos acabou sendo Rafael Correa, que foi quem mais adotou o tom contundente contra a “partidocracia”. O ato mais simbólico foi a decisão de não lançar candidatos a deputados nacionais de sua frente eleitoral. “Acredito em Correa porque defende a Constituinte e foi coerente ao não lançar candidatos ao congresso”, diz Sebastián Crespo, partidário de Correa, que trabalhou na eleição como fiscal da Alianza País, em um colégio em Quito. F



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