Esgotamento imperial

Os impérios acabam. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, encomendou estudos para saber o porquê e com isso evitar que os norte-americanos reproduzam os erros, por exemplo, dos romanos. Por Por Newton...

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Os impérios acabam. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, encomendou estudos para saber o porquê e com isso evitar que os norte-americanos reproduzam os erros, por exemplo, dos romanos.

Por Por Newton Carlos

 

Os impérios acabam. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, encomendou estudos para saber o porquê e com isso evitar que os norte-americanos reproduzam os erros, por exemplo, dos romanos. Ou dos ingleses. Há uma pretensão de eternizar-se. O poder dos Estados Unidos é tanto, raciocina essa gente, que ninguém pode desafiá-los. Washington aprendeu com capitais imperiais, como Londres, que ações coloniais de ocupação são caras e sempre terminam mal. Tratou até agora de se valer de pressões.
As lições aprendidas foram colocadas de lado com a ocupação do Iraque e velhas histórias se repetem. Orçamentos estourados, violência, insurgência etc. Além disso, a condição de “policiais do universo” pode tornar-se um pesadelo, na medida em que a disseminação por distâncias cada vez mais vastas vai compondo o fantasma de uma saturação insustentável de compromissos imperiais. Desde o fim da Guerra Fria, anota o analista de questões de defesa Thomas Withington, do King´s College, da Inglaterra, se reduziram em 36% os efetivos das Forças Armadas dos Estados Unidos. A contrapartida é complicada, já que se torna cada vez mais ampla a geografia de missões. Há os legados e as novas tarefas, como a da ocupação do Iraque. Ainda hoje, 98 mil militares norte-americanos continuam na Europa, quase 13 mil só na Alemanha.
Tinham de conter tanques sovié­ticos que não existem mais. É o legado da Guerra Fria. Há pessoal dos Estados Unidos espalhado pela Bélgica, Grécia, Holanda, Noruega, Portugal, Espanha e Turquia. Com a guerra contra o Iraque, foram incorporadas Hungria e Bulgária. A presença naval no Atlântico é de 4 porta-aviões, 10 submarinos nucleares e 55 outros barcos de guerra. No Pacífico, além dos “policiais” no Japão, há o contingente de 29 mil norte americanos na Coréia do Sul e bases em Guam e Diego Garcia.
Sete mil “marines” servem na frota do Pacífico.
A geo¬grafia “policial” inclui pontos perdidos, como Islândia, Açores e Bermudas, para onde foram mandados 1.700. Na Guerra Fria, os Estados Unidos se comprometeram a garantir a segurança da Islândia e batem ponto ainda hoje, sem que a Islândia sofra qualquer tipo de ameaça. As novas tarefas se multiplicaram a partir da guerra de 1991 contra o Iraque, dos atentados terroristas de 11 de setembro, da guerra do Afeganistão e da ocupação do Iraque, onde 150 mil soldados não bastam e as mortes continuam.
A frota do Mediterrâneo foi deslocada para o Golfo Pérsico. Tropas instalaram-se em países árabes. No Afeganistão, permanecem 7.500 em “operações de limpeza”, e a linha de frente da guerra contra o terrorismo se estendeu às Filipinas, para onde começaram a ser deslocadas tropas. Militares norte-americanos e agentes da CIA estão operando na Ásia Central a partir das ex-repúblicas soviéticas, área historicamente de influência direta e inquestionável de Moscou.
Não se sabe por quanto tempo as tropas terão de permanecer no Iraque. Certamente meses, talvez anos. Há riscos de que o Afeganistão se “iraquinize”, com explosões inclusive de suicidas-bombas. Os talibãs, expulsos do poder pelos norte-americanos, se reorganizam. As operações militares intensificam-se, e mobilizam milhares de soldados nas montanhas onde estaria Bin Laden. Duas guerras ao mesmo tempo? O Império Romano, Gengis Khan e Napoleão naufragaram em situações semelhantes. F

As Muitas Gurras

Guerra contra o terrorismo, estado de alerta permanente, guerra às drogas, ataques preventivos etc. O analista de questões de defesa Thomas Withington, diz que os EUA correm o risco de um imperial overstretc. Ou seja, ampliar tanto sua presença militar no mundo que se tornaria insustentável, sobretudo do ponto de vista logístico, mas também por conta de cargas psicológicas negativas e dificuldades de convivência prolongada.
O caso do Japão é exemplar. A maior concentração de tropas norte-americanas (elas estão lá há mais de 50 anos) é na ilha de Okinawa, onde já se realizaram muitas manifestações de repúdio e são freqüentes os pedidos de retirada feitos inclusive por autoridades locais. Contribuíram para o clima de mal-estar agressões sexuais a moças nativas e até estupros, além das resistências do Pentágono em liberar os acusados para processos em tribunais japoneses.
É outro problema envolvendo os “policiais do universo”. A ONU criou o Tribunal Penal Internacional, cuja jurisdição pode alcançar os crimes de guerra. Os Estados Unidos ficaram de fora. Não aceitam entregar seus soldados ou seus cidadãos de modo geral a juízes estrangeiros, que podem ser algum árabe, africano ou mesmo um europeu. Foram julgados nos Estados Unidos os tripulantes de um caça que rompeu o cabo de um teleférico repleto de pessoas na Itália. Os italianos tentaram inutilmente colocá-los em seus bancos de réus. F



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