Executaram meu marido

Novas histórias emergem sobre o que ocorreu em São Paulo de 12 a 20 de maio, quando morreram 492 pessoas por armas de fogo. Kátia alega que seu esposo, morto pela polícia, nunca foi...

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Novas histórias emergem sobre o que ocorreu em São Paulo de 12 a 20 de maio, quando morreram 492 pessoas por armas de fogo. Kátia alega que seu esposo, morto pela polícia, nunca foi do PCC

Por Glauco Faria e Renato Rovai

Teriam sido recolhidos na ocorrência cinco celulares, uma carabina, um fuzil 55, duas granadas (uma com inscrição PCC), uma pistola, 58 pacotes de maconha, três pacotes de cocaína e inúmeros invólucros de crack. Segundo a versão dos policiais que estavam na operação e que resultou na morte de Rogério do Carmo Pereira, Jefferson do Carmo Pereira e Cristiano Augusto Rodrigues isso tudo teria sido apreendido no seguinte contexto: um policial estava na ronda e recebeu uma chamada dizendo que havia um “bando com arsenal enorme para atacar o 95º Distrito Policial” – que fica nas proximidades da Favela dos Pilões, entre Heliópolis e Ipiranga, região central de São Paulo. Um deles estava com um AR-15 e começou a atirar. Outro com dois revólveres, também atirou. E o terceiro também estava armado (não fica claro se atirou ou não). Por conta desse boletim de ocorrência e do poder de fogo do material apreendido, esse caso foi tratado po r alguns veículos de imprensa, naqueles dias da guerra de São Paulo, de 12 a 20 de maio, quando morreram 492 pessoas por ferimentos de arma de fogo, como um caso exemplar da ação policial para impedir que o PCC obtivesse sucesso na sua ação.

Mas com uma coragem incomum, a viúva de Rogério do Carmo Pereira, Kátia Paula dos Santos Pereira, 28 anos, balconista de uma padaria, apresenta sua versão, que contradiz e nega a história policial. E ao mesmo tempo apresenta duas testemunhas ouvidas pela reportagem da Fórum (ver box abaixo).

“Meu marido não foi lá para atacar ninguém, não estava armado, nunca o vi armado. Imagina, ele era preto e por isso a gente sempre acabava sofrendo batidas policiais. Várias vezes nos pararam e nunca encontraram arma nele. Nunca o vi com uma em casa, como agora ele aparece com tudo aquilo? Plantaram aquilo nele, claro.” A história de Kátia é de que ela teria ido naquela noite à Favela dos Pilões para pagar uma dívida de roupas que havia comprado com uma amiga que chama de índia. “Eu falei para o Rogério que sairia do trabalho e iria lá para pagar a índia. Pedi para ele que, se pudesse, fosse me apanhar lá umas 23h. Eu o estava esperando quando ouvi aqueles tiros. Fiquei com medo e rezei para que ele não tivesse vindo.” Kátia diz que após os tiros esperou um pouco e foi embora.

Como Rogério trabalhava durante a noite em um estacionamento, não se espantou ao não encontrá-lo quando chegou em casa. “Fui dormir, acordei umas 2h30 com um amigo dele que foi me chamar. Ele falou que haviam morrido umas pessoas na Favela dos Pilões e que um deles poderia ser o Rogério. Fui correndo para o Hospital do Heliópolis, onde ele me disse que estavam os corpos.” De fato, um dos corpos que teria dado entrada no hospital de Heliópolis, às 23h55, daquele dia 17, era o de Rogério.

O cunhado de Kátia, Jefferson, também estava morto. Ele foi casado com Diana Barbosa, com quem teve um filho. Diana diz que ele estava em liberdade provisória. “Assinou um 16 por porte de drogas”, revela. E que, mesmo separados, sempre enviava a pensão. “Dava uns 150 reais por mês.”

Segundo as esposas, os irmãos sempre trabalharam. “Eu tenho a carteira de trabalho do Rogério para mostrar, está tudo ali”, fala Kátia. “O Jefferson sempre trabalhou de bico, em funilaria e pintura”, diz Diana. Mas ambos tinham passagem pela polícia. Um por “ter assinado o 16” e o outro por “ter sido acusado injustamente de ter roubado dois maços de cigarro num posto de gasolina” sustenta Kátia.

É por ter certeza de que seu marido não era o bandido que os jornais anunciaram e que o boletim de ocorrência não condiz com a verdade que Kátia afirma que vai lutar para provar o contrário. “Você não imagina a humilhação que sofremos ao chegar ao distrito. Vem uma delegada e fala assim para a mãe do Rogério, ‘mãe, desde quando o seu filho está no crime?’ E a mãe do Rogério ficou assim, sem saber o que responder. Aí eu disse que se crime nesse país for ser pobre e trabalhar faz muito tempo que ele está no crime. Não é um absurdo ter de ouvir isso?”

Essa mesma história que está sendo publicada por Fórum até o fechamento desta edição já havia sido ouvida tanto por Lúcio França, da Comissão dos Direitos Humanos da OAB-SP, como por Pedro Gibert, da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Depoimentos de moradores sobre como a polícia age na Favela dos Pilões, também foi reportado pelo jornal Folha de S.Paulo, em matéria assinada pela jornalista Laura Capriglione e publicada no dia 21 de maio.

Novo desdobramento

Pedro Gibert, após ouvir o depoimento de Kátia, disse que “o caso vai ter desdobramento de outra forma”. Segundo ele, os exames residuográficos (que apontam se a pessoa utilizou arma de fogo) dos irmãos Rogério e Jefferson deram negativos. Já o de Cristiano deu positivo. “Ao mesmo tempo o dos três policiais também deu negativo e eles atiraram, esse exame é maroto”, explica. O que é confirmado pelo perito Ricardo Molina, professor da Unicamp. “De fato, quando o exame dá negativo isso quer dizer pouca coisa”, diz Molina (mais explicações na página 10)

O fato de os policiais usarem durex, segundo depoimento das testemunhas (ver box), pode, segundo Gibert significar muita coisa ou nada. “No campo da imaginação vale qualquer coisa, pode ser o velcro dos coletes sendo aberto e fechado ou de fato pode ser algo relacionado a uma montagem no exame residuográfico, mas isso é algo a não se especular”. O defensor afirma que vai encaminhar o caso para o Ministério Público Estadual. “Trata-se de um caso raro, onde há testemunhas dispostas a falar e se pode chegar a alguma conclusão”. Quanto ao material apreendido na operação, Gibert questiona: “De fato, para carregar tudo aquilo no meio da rua seria necessário no mínimo de uma mala bem grande”.

O advogado Lúcio França, que também é membro da representação do Grupo Tortura Nunca Mais acha que neste e em muitos outros casos o que parece estar em jogo é estado de direito. “Está se criando um clima no país de que não se deve investigar muito esse tipo de acontecimento. Na época da ditadura também era assim, em nome da segurança nacional nada era apurado.” Segundo ele, há um processo de criminalização da pobreza e das ONGs que lutam pelos direitos humanos. “Nós, dessas ONGs, viramos ‘amigos de bandidos’, que vivem em favelas e na periferia.” A grande diferença com a ditadura, na opinião de França, é que naquela época havia gente de classe média sendo preso, assassinado e torturado. “A notícia repercutia porque muitos dos que estavam na luta contra o arbítrio eram de famílias influentes.”

Continuando a falar dos métodos, lembra que antes o exército e a polícia iam às casas das pessoas sem mandado de busca e apreensão, sem identificação e às vezes encapuzados. “Hoje é igual. Fazem essas operações, levam pessoas e as famílias ficam como loucas à procura dos parentes. A diferença é que hoje esse tipo de operação só atinge aos mais pobres, àqueles que vivem nas periferias das cidades.”

Chacina e saturação

No Parque Bristol, periferia de São Paulo, Dona Helenita estava com o marido naquele domingo, 14 de maio, assistindo ao Fantástico. O programa exibia uma reportagem que falava a respeito das vítimas dos ataques do PCC. Ela vê a matéria, se emociona, chora e comenta com o esposo: “Nossa, como devem estar as mães desses policiais agora…”.

Logo após, ouvem-se tiros. Durante quatro minutos uma saraivada de estampidos atemoriza os moradores do local. Em meio a isso, seu marido sai na janela e vê cinco jovens, entre eles dois de seus quatro filhos, sendo alvejados por quatro homens encapuzados que saíam de um Vectra preto sem placa. Seo Israel se desespera e grita: “parem com isso! Eles são trabalhadores, não são bandidos”, gritou do andar de cima do seu sobrado. “Fica quieto e se você descer a gente mata você também”, respondeu um deles. “Então vão ter que me matar”, retrucou o homem que, quando chegou até o quintal, já não encontrou o carro com os assassinos. No chão, quatro pessoas ensangüentadas, com tiros em várias partes do corpo. Um havia conseguido escapar, mesmo atingido na perna, e se escondeu em uma das casas do local para não ser pego.

“Meu filho morreu, foi um pedaço de mim embora”, diz Dona Helenita. Edivaldo Soares de Andrade não resistiu aos ferimentos, enquanto o irmão, Eduardo Soares de Andrade, mesmo com perfurações nos pulmões e intestino, conseguiu resistir após ter se fingido de morto. Junto com eles, no mesmo local onde conversavam, morreram Fábio de Lima Andrade e Israel Alves da Silva.

“Ele tinha saído fazia cinco minutos da minha casa”, relembra Ana Carla Chavier Alves, namorada de Fábio, uma das vítimas da chacina que está sob investigação e pode integrar uma ação típica de esquadrão da morte, dentro da série de homicídios ocorridos no estado de São Paulo após os ataques atribuídos ao PCC.

Uma das pessoas que presenciou a cena, mas não quis se identificar, vaticinou. “Isso não foi ajuste contas de bandido. Já vi esse tipo de acerto e eles pedem pras pessoas entrarem em casa porque só querem um alvo, não atiram nos outros que não têm nada a ver”. E completa: “se fosse acerto, eles não iam atacar encapuzados”. O fato das vítimas não possuírem antecedentes criminais parece corroborar com a tese.

Silvana, irmã de outra vítima, Israel, conta que foi à Defensoria Pública relatar o que havia acontecido e recebeu como “recomendação” a seguinte pérola: “vocês não deviam sair na rua nesses dias, senão correm esse risco”, teria dito uma defensora. “Que proteção a gente tem? Só de Deus”, lamenta Dona Helenita, que reclama da omissão do Poder Público. Após o crime, segundo relatos das testemunhas, a polícia chegou e ainda discutiu com moradores que se indignaram por conta de um dos policiais presentes estar dando risada. Alguns dos meninos levaram chutes e empurrões. Dona Helenita não viu a cena em questão, mas emendou. “Não é só a polícia que discrimina a gente. É a sociedade inteira. Um monte de gente acha que na favela só tem ladrão.”

A discriminação citada por Dona Helenita é responsável pela maior parte dos abusos cometidos contra os moradores das periferias. É raro encontrar o testemunho de alguém que nunca tenha sido revistado ou até mesmo tido a casa invadida por policiais sem mandado. “Outro dia vi que estavam revistando um rapaz e depois furaram um pneu da moto dele”, relata um dos moradores da região.

Em Sapopemba, zona Leste da capital, a realidade não difere muito do Parque Bristol. Em agosto e setembro do ano passado, o governo promoveu a chamada “Operação Saturação” nas favelas do local, inclusive no Parque Santa Madalena, onde mora Conceição Cândida dos Santos, mineira de Fonte Nova e mãe de quatro filhos. A ação da polícia envolvia desde vistorias e revistas até interrogatório de pessoas com o objetivo, segundo a explicação oficial, de combater o tráfico de drogas e estreitar os laços entre policiais e moradores. Mas não foi exatamente isso o que aconteceu, pelo menos com Conceição.

Ela conta que sua casa foi invadida por policiais e que quebraram alguns dos seus móveis, incluindo a cama e o guarda roupa. “Quando chegaram, estava na porta ainda e um deles me cuspiu na cara e disse ‘sua macaca, sua nóia, eu te conheço’. Na hora continuei conversando, tentando convencê-los de que aqui a gente era ‘de bem’, mas, quando eles foram embora, essa cusparada não saía da minha cabeça”, relembra. “Depois, quando eu lembrava disso, me dava uma angústia, uma vontade de morrer”, emociona-se. Conceição acusa os policiais de terem levado R$ 5.900,00 que guardava em casa por conta da venda de uma casa em Guaianases por R$ 7.500,00. Seu filho mais novo foi preso na ocasião. “Ele não tinha nada, plantaram droga nele e levaram meu dinheiro.”

Próximo ao Parque Madalena, no Jardim Elba, a Operação Saturação também fez vítimas. Rosângela de Souza tem um filho de 16 anos que pediu para que a mãe fosse buscá-lo na escola, já que tinha medo das abordagens dos policiais. Na volta do colégio, cruzaram com um carro de polícia que vinha na direção contrária. “Eles desceram do carro com as armas na mão e gritando para a gente colocar a mão na cabeça e o rosto no muro”, relata Rosângela. “Eu ainda estava dando a benção para o meu filho, porque tinha acabado de encontrá-lo.”

Em meio à confusão, Graziela, sua filha caçula, que à época tinha cinco anos de idade, caiu no chão. “O policial veio em nossa direção e pisou com tudo no pé dela. A menina ficou lá gritando e o policial nem fez nada”, lembra. “Eles quebraram o pé da minha filha e nem prestaram socorro. Pedia pra eles deixarem eu ver o que estava acontecendo com ela, mas não deixavam.”

Após o incidente, Rosângela foi até a delegacia local reclamar da atitude dos policias, mas se surpreendeu. “Eles disseram que tudo isso tinha acontecido porque eu tinha agredido eles”, afirma. “Meu negócio é catar latinhas, ferro velho. Não tenho vergonha de dizer, vivo disso, mas só disso. Não roubo, não vendo drogas… Tanto que, quando eles quebraram o pé da minha filha, não pude ir trabalhar e se não fosse ter ganho uma cesta básica, teria passado fome com a minha filha”. Nessa época de baixas temperaturas, a menina Graziela ainda sente dores.

Segundo dados oficiais, na Operação Saturação realizada no Jardim Elba foram interrogadas 4.797 pessoas e vistoriados 474 automóveis, 401 motocicletas e 210 estabelecimentos comerciais. Um outro morador do local diz que muitas pessoas tiveram as casas invadidas, mas têm medo de conversar a respeito.

Esse medo ainda não atingiu a todos, felizmente, mas não sem motivos. Lúcio França diz que recebeu uma ameaça de morte direta. “A pessoa me abordou num shopping e disse que não iam fazer como fazem com outros, ‘vamos te amarrar no meio do mato e soltar uma cobra para te matar, para você morrer aos poucos”’.

O também advogado Ariel de Castro Alves recorda-se que, quando entidades tentavam apurar a famosa Operação Castelinho (ver pág. 12), “numa reunião no Sindicato dos Advogados havia um espião que não era de nenhum grupo e tivemos de expulsá-lo. Em algumas coletivas de imprensa aparece gente gravando que não é conhecido por nenhum jornalista presente”. Por esses e outros fatos, fica a reflexão: vale tudo em nome da Segurança? F

Outra história contada por duas novas testemunhas

No dia 28 de junho, uma quarta-feira, às 21h30, a reportagem de Fórum esteve na Favela dos Pilões. Estivemos no exato local onde foram atingidos e mortos Cristiano Augusto Rodrigues e os irmãos Jefferson e Rogério. Ali, foi contada essa versão por duas pessoas, que disseram o que segue e estavam dispostas a repetir a mesma história à Justiça.

Testemunha A –“Tínhamos acabado de sair de um “bar da tia” . O Rogério e o Jéferson estavam lá também. A gente conhecia os meninos e eles sempre foram muito bons, muito legais com a gente. Saímos do bar antes deles, eram 21h40 e fomos cada um foi para sua casa dormir. Eles ainda perguntaram se a gente queria que eles nos acompanhassem. Naqueles dias, estava um pouco perigoso, mas a gente disse que não precisava. Acordei com os tiros e fui para a janela, para ver o que estava acontecendo. Não abri, fiquei com ela fechada, mas ainda deu pra escutar um dos garotos, não sei nem se era um deles ou se era o terceiro, o Cristiano. Sei que esse implorou para não lhe matarem. A voz estava meio estranha, meio fraca. Ele falou alguma coisa como ‘me prende, mas não me mata, eu já tô morrendo’. E aí ouvi outro tiro. Foi nele, isso deu pra perceber, foi naquele que falava… Depois disso, pararam os tiros e fiquei ouvindo o que estava acontecendo. Era difícil ouvir direito e muito difícil enxergar alguma coisa, porque logo depois disso eles (os policiais) apagaram a luz de todas as casas. Só ficou acessa a luz de uma casa, aquela ali (aponta para uma lâmpada que fica em uma área interna de uma residência, um tipo de varanda. Para apagá-la seria necessário pular um portão de ferro de aproximadamente 1m60 de altura em cujo topo há lanças).

Testemunha B – Depois que eles apagaram as luzes e começaram a mexer nos corpos, tirando eles de lugar, dava para ver e ouvir que eles conversaram naqueles rádios, parece que falavam com uma viatura. Eles diziam para a viatura estacionar na Maciel (rua Maciel Parente). É que ali é a rua mais perto desta viela e facilita para tirar o corpo, porque eles não iam conseguir entrar com o carro aqui.

Testemunha A – Eles ficaram até umas 4h da manhã. E limparam tudo. No dia seguinte não tinha nem mancha de sangue direito. Acordei e a primeira coisa foi tentar ver o que tinha acontecido. Mesmo estando escuro dava pra ver que eles usaram água de esgoto pra lavar as coisas, até porque nesta viela não tem torneira, a única água que tem na rua é de esgoto.

Testemunha B – Dava para ver até um lavando o outro, depois que eles arrastaram os corpos. E eles também usaram a água de esgoto para se limpar. Ouvi um falar ‘nossa, que cheiro horrível!’. Um jogava um pouco daquela água no outro, assim com a mão (mostra uma mão jogando água em outra pessoa).

Testemunha A – A gente ouvia também muito barulho de durex na roupa…

Testemunha B – Eles pegavam alguma coisa assim parecida com durex e colocavam nas jaquetas e tiravam, colocavam e tiravam. Fazia aquele barulho de durex colando e descolando. Deu para ver um deles tirando a jaqueta e depois colocá-la só para fazer isso. Não consigo imaginar por que eles faziam isso…

Testemunha A – Se eles estavam armados quando a gente estava no bar? Os meninos? Não, eles não estavam não. Nunca vi os meninos armados. Eu não vi arma também com os corpos. Também só ouvi tiros de um lado… Estava muito escuro, dava pra ver pouca coisa, mas deu para ouvir…

Testemunha B – Os policiais chegavam e diziam um para o outro, salve, salve… Tem uma palavra que eles falavam pelo rádio que não consigo me lembrar o que era. Era uma palavra estranha, um nome estranho, que eles repetiam.

Testemunha A – Mas falavam tudo muito baixo, era difícil de ouvir, depois dos tiros eles fizeram tudo sem muito barulho. Fizeram tudo para esconder o que tinham feito, isso dava para perceber, limparam o lugar, limparam tudo. Será que se tivesse sido o que eles falaram teriam limpado tanto?

A análise dos laudos

O professor da Unicamp Ricardo Molina diz que os laudos do IML são mal feitos, principalmente quando as vítimas são pobres

O perito Ricardo Molina, da Universidade de Campinas (Unicamp), recebeu 126 laudos selecionados pela Comissão Independente que investiga o que ocorreu dos dias 12 a 20 de maio no estado de São Paulo. Ele afirma, sem titubear, que “os laudos são mal feitos, mas é sempre assim, eles não têm padrão nenhum. Não sei se é só incompetência ou tem mais que isso”.

Molina vai além, diz que isso também se deve ao fato de que o legista é um policial. “Ele trabalha pra Secretaria de Segurança Pública e quem está sendo contestado é alguém da Secretaria, caso ele faça um bom laudo, o prejudicado pode ser o chefe dele”.

Ele também dispara contra o que chama de corporativismo médico. “O Conselho Regional de Medicina não vai criticar os legistas, eles são muito corporativistas.”

Segundo o legista, a grande maioria dos laudos que analisou não aponta características de confronto. “A maior parte dos tiros se localiza na cabeça e na parte torácica.” Molina diz que a média de tiros que se espera é bem menor do que a que foi encontrada, aproximadamente de cinco por vítima. “Além disso, o número de tiros em regiões letais, somados à trajetória das balas, de cima para baixo, deixam muito claro o que houve.” E ao fim, crava: “laudo de pobre é assim mesmo, o cara vê e pensa que é mais um presunto que está passando no IML. Não vai perder muito tempo com isso”.

Por solicitação da Fórum, o perito fez uma análise rápida e sem possibilidades de apuração detalhada, já que não tinha o B.O. para confrontar, a respeito das mortes citadas nesta matéria.

Mortos no Parque Bristol

Fábio de Lima Andrade – tomou um tiro provavelmente deitado e dois no braço, o que pode caracterizar uma posição de defesa. Tomou também um tiro de escopeta na região torácica que deve ter sido feito a curta distância.

Israel Alves de Souza – pode de fato ter sido atingido em movimento. Foram quatro tiros por trás nas pernas e um pela frente. No peito, lesões sem interesse médico-legal, segundo o laudo. É estranho pelo fato de não ter sido atingido em alguma região letal. Uma possibilidade é ter morrido pelo fato de algum tiro na perna ter atingido uma grande artéria, mas pela descrição é impossível concluir isso com certeza.

Edivaldo Soares de Andrade – pelas posições de entrada e saída das balas, dois tiros pelas costas e um pela frente, é possível que ele tenha sido atingido no chão, posicionado de lado.

Mortos na Favela dos Pilões

Cristiano Augusto Rodrigues – recebeu quatro tiros, sendo duas duplas de tiros próximos. Dois de baixo para cima na região da cabeça e outros dois de cima para baixo no lado esquerdo do peito. Não se explica tiro de cima para baixo em confronto. Não dá para imaginar esses tiros sendo realizado a uma distância muito grande.

Jefferson do Carmo Pereira – recebeu dois tiros transfixantes, o tiro caracterizado com E1 no laudo, atinge o lado esquerdo do peito de cima para baixo e tem característica de tiro de misericórdia.

Rogério do Carmo Pereira – foram cinco tiros, todos de frente. Segundo o laudo, os disparos têm característica de terem sido produzidos à longa distância, mas, segundo Molina, as informações dos laudos são insuficientes para análise.

A denunciante é presa em flagrante

Quando reunia assinaturas para denunciar maus tratos na Cadeia de Jundiaí, a irmã de um preso é surpreendentemente presa com 150 gramas de maconha

Dircelene Batista de Lima é mineira e mora em Jundiaí, cidade que fica entre Campinas e São Paulo. Na sexta-feira, 23 de junho, pegou o trem acompanhada de Margarete Teresa Magrini da Cruz e foi até o metrô Sé, centro da capital, para conversar com o médico psiquiatra Paulo César Sampaio, coordenador da Associação dos Cristãos para a Abolição da Tortura (ACAT). Antes, por orientação da advogada da Associação já havia passado no Ministério Público Federal.

Num termo de declaração, registrado pelo secretário administrativo do órgão, Marcos Antonio Mancuso, registrou que desde o dia 20 de junho procurava seu irmão Luiz Gustavo Batista de Lima e o primo Júlio César Domiciano, que deveriam estar presos na cadeia pública de Jundiaí.

“Organizei uma manifestação de mulheres no dia 19 para protestar contra as represálias que os presos vêm sofrendo lá e o diretor da cadeia, o japonês (Fernando Yoshikazuia Yawanaga) disse que se a gente fizesse isso ia ser pior para os presos”, afirmava. No dia seguinte, quando foi à cadeia visitar os parentes, havia um aviso de que eles tinham sido transferidos.

No Ministério Público, ela solicitou que fosse feito exame de corpo de delito em Luiz e Júlio, que “estariam sendo submetidos a várias surras desferidas pelo servidor Furlan por ordem do diretor da cadeia”. O MP solicitou o exame ao diretor da cadeia e na sexta-feira (30/6) esperava o laudo. Nesta data, porém, Dircelene já estava presa em Itupeva.

Na quarta-feira, 28 de junho, quando foi à porta da cadeia de Jundiaí colher assinaturas para termos de representação relatando maus tratos aos presos foi detida em flagrante. “Ela estava com uma bolsa e tinha muitos papéis nela. Por isso a deixou no chão enquanto recolhia assinaturas”, conta Arlete da Silva Antônio, advogada da ACAT e que vai representar Dircelene. “Revistaram a bolsa dela e acharam 150 gramas de maconha”, diz a advogada. Dircelene nega que tenha ido à cadeia buscar assinaturas para uma ação portando 150 gramas de maconha na bolsa.

No fechamento desta edição, em 1º de julho, a advogada da ACAT pretendia entrar com pedido de habeas corpus, além de denunciar tortura psicológica e pedir investigação sobre possível abuso de autoridade e flagrante forjado. Até ser presa, Dircelene e a reportagem conversaram por seis vezes a respeito do “desaparecimento” de seu irmão e de seu primo. Em uma dessas chamadas, ela disse que “o japonês está me enviando recados, dizendo as coisas não vão ficar só nos meninos. Ele disse que também vai aprontar comigo. Mas eu não tenho medo não”. Dircelene também entregou à revista diversas cartas escritas por presos.

Três mortes e possível tortura

Boa parte da preocupação de Dircelene com seus parentes se devia às mortes de Ed Carlos Torres da Silva, Anderson Rodrigues dos Santos e Allan dos Santos, ocorrida no dia 12 de maio. Segundo ela, se “eu ficar quieta vai acontecer o mesmo com os meninos”.

As condições das mortes dos três devem ser investigadas pela Comissão Independente organizada pela sociedade civil e que está investigando as mortes violentas ocorridas em São Paulo dos dias 12 a 20 de maio. O defensor público Pedro Gibert já recebeu ao menos uma família de um dos mortos e tem fotos do corpo feitas no IML. O próprio defensor teria ficado impactado com as fotos.

Wanda Aparecida Fernandes da Silva, mãe de Ed Carlos, que estava preso por ter tentado realizar um assalto à mão armada num bingo diz que o corpo do filho “tinha corte na perna, no braço, na poupança, em tudo lugar. Perguntei por que aqueles cortes e o homem que estava no IML me disse que ele já tinha vindo assim da cadeia.” As marcas no corpo de Ed Carlos eram muitas, segundo a mãe.

Uma história nojenta

As denúncias de maus tratos a presos nas cadeias de São Paulo não são novas. Um relatório da ACAT sobre o Centro de Detenção Provisória Vila Independência, datado de 14 de maio de 2002, encaminhado à época ao então secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, continha depoimentos contundentes de presidiários identificados.

Dois presos relataram que “estavam sendo espancados diariamente” e mais à frente diziam que “quando chegaram ao presídio funcionários atiçaram dois cachorros em cima deles, mandaram eles ficarem de quatro e pegar lixo com a boca”. E mais: “os funcionários obrigam a fazer sexo oral um no outro e a introduzir o dedo no ânus do outro e depois chupar”.

A resposta da Secretaria foi taxativa: “nenhum detento é torturado na Unidade”. Além disso, o relatório descrevia um aparelho manual de choque entre os objetos encontrados na Detenção. “Nada foi dito a respeito do que eles faziam com esse objeto”, afirma Paulo César Sampaio.



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2 comments

  1. anna Responder

    Bem , como estamos observando , em nome do “ combate ao terror“, ou segurança para a “sociedade“ é que vemos implantados esse verdadeiro estado de terror contra a população, principalmente.com a população pobre., que já existe há ´seculos e agora chega também ás classes mais favorecidas. .. E o poder público em que o braço do crime i com seus tentáculos instalado em todos em todos os poderes . È o massacre de uma guerra fria ,que dura há anos e piora a cada dia mais, e chegamos a esse estado de coisas de desumanização do homem. e nessa queda de braço de direita, esquerda, centro lado… e ismos.. e achismos… o ser humano em qualquer lugar desse planeta está sendo destituido de seu direito mais sagrado, ou seja, a vida. . Realmente devo concordar que esse é o “ século do crime“ . A podridão que impera nessea meios e os efeitos dessa perversidade e banalização da vida, já se alastra como praga;, E a , classe média, que antes cismava que também era a “ elite“ e que “ essas coisas“ não lhes diziam respeito, hoje também se encontra encurralada por esse f que ronda cada esquina de nossas cidades. Bem, pra encurtar, quem quer ser o próximo da fila ar denunciar e punir esses abusos? o legista? o perito? o advogado? o promotor? o juiz? Nesse caos instalado , quem se candidataria a organizar o inferno ? E pra não negar a esperança de dias melhores, só mesmo quem ainda tem fé no coração.. Anna anna


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