Fidel e o futuro da Revolução Cubana

Análise de conjuntura por Altamiro Borges Por Altamiro Borges   A decisão de Fidel Castro de deixar a presidência de Cuba virou o principal assunto do noticiá­rio...

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Análise de conjuntura por Altamiro Borges

Por Altamiro Borges

 

A decisão de Fidel Castro de deixar a presidência de Cuba virou o principal assunto do noticiá­rio internacional. No geral, a mídia hegemônica realiza o “obituário precoce” do líder revolucionário – num ritual macabro em que reza por sua morte – e especula sobre a regressão capitalista na ilha rebelde. Essa ladainha ideologizada, em que a informação imparcial pouco vale, é antiga. Satélite dos EUA, a mídia mundial sempre apostou no fracasso da Revolução Cubana. Após a debacle do bloco soviético, alguns “colunistas” chegaram a contabilizar os dias para queda de Fidel Castro. Com a sua enfermidade, no início de 2006, os agourentos ficaram excitados. Agora, diante da decisão do “comandante”, eles não têm mais dúvida. O socialismo cubano morreu! Será?
Nas poucas visitas que fiz à ilha, sempre me impressionou a capacidade de resistência do heróico povo cubano, que enfrenta as enormes adversidades decorrentes do brutal cerco dos EUA, do fim do bloco soviético e também dos próprios erros cometidos. Na primeira delas, no final de 1992, pude constatar os efeitos destrutivos do rompimento unilateral das relações comerciais com a ex-URSS – apagões diários de energia, racionamento de comida, ônibus lotados e degradados, ruas desertas devido à falta de combustível. Apesar destas dificuldades, os cubanos se mantinham de cabeça erguida, altaneiros, com uma dignidade incrível. Até os mais críticos, sobretudo jovens, faziam questão de exibir o orgulho cubano e de falar das suas conquistas na saúde, educação etc. De lá para cá, a situação melhorou. O desumano bloqueio dos EUA começou a ser rompido, com a inestimável ajuda venezuelana e a nova realidade política na América Latina. A economia tem batido recordes de crescimento. Mesmo assim, as dificuldades ainda são enormes. Como disse o teólogo Frei Betto em certa ocasião, quem deseja visitar Cuba precisa de alguns cuidados. Se for operário ou camponês, ele ficará encantado com as conquistas da revolução e a igualdade social; se for das camadas médias, sentirá falta do shopping center e do consumo desenfreado; e se for um burguês rico e fascista, ele apoiará de imediato os gusanos (vermes) contra-revolucionários.Qual a explicação para a admirável capacidade de resistência dos cubanos diante das intempéries e do cruel cerco imperialista? Arrisco-me a citar apenas quatro:

1. As conquistas da revolução nestes quase 50 anos. O cubano se orgulha de ver o seu filho nas melhores escolas e universidades, de ter acesso a hospitais de excelente qualidade e de ostentar índices sociais dos mais avançados do mundo, segundo a própria ONU. Ele sabe, por exemplo, que a restauração capitalista no Leste Europeu só trouxe miséria e desalento; tem consciência da sofrida realidade dos latino-americanos. Ele não deseja esta regressão e defende suas conquistas.

2. O sentimento patriótico de um povo que sofre diariamente as agressões terroristas e o cerco econômico dos EUA. A defesa da soberania e o antiimperialismo são arraigados na ilha rebelde. Ao lado do escritório de representação dos EUA em Havana, um outdoor reflete este sentimento: “Señores imperialistas. No les tenemos absolutamente ningun miedo!”. O povo está bem armado e preparado para qualquer agressão; mensalmente, os cubanos realizam exercícios militares.

3. A força das organizações populares. A Revolução Cubana procurou evitar os erros de outras experiências socialistas, que castraram a autonomia das entidades. Em todo quarteirão existe um Comitê de Defesa da Revolução (CDR); o sindicalismo defende as conquistas da revolução, mas faz o contraponto ao Estado; a juventude possui organismos atuantes e criativos; nos locais de trabalho ocorrem reuniões periódicas. É um povo rebelde, que debate a política diariamente.

4. O carisma de Fidel Castro. Como disse o presidente Lula, o líder cubano é um mito. Apesar de não haver retratos oficiais, quase toda casa tem a sua fotografia. Mesmo nas críticas aos erros do governo, ele é inocentado. “O comandante não sabe disto”, repetem. Como todo ser humano, a única certeza é a morte. Isto explica a excitação dos gusanos com a sua saúde e sua decisão de deixar funções de comando no país. Apenas a história dirá se os outros fatores superam o mito. F



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