Fórum da diversidade

Fórum Mundial de Educação no Alto Tietê (SP) reafirma o deslocamento da realização dos Fóruns dos centros dos estados e o desafio da retomada, pela sociedade civil organizada, da educação Por Brunna Rosa  ...

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Fórum Mundial de Educação no Alto Tietê (SP) reafirma o deslocamento da realização dos Fóruns dos centros dos estados e o desafio da retomada, pela sociedade civil organizada, da educação

Por Brunna Rosa

 

Seguindo a tendência de deslocamento dos eventos relacionados ao Fórum Social Mundial (FSM) para fora das capitais, educadores, estudantes, entidades sindicais, movimentos sociais, governos, organizações não-governamentais e universidades participaram do Fórum Mundial de Educação (FME) em Mogi das Cruzes (SP). Em um movimento pró-educação pública, tratando-a como direito social, propuseram e justificaram ao Conselho Internacional (CI) do FME a importância de sua realização na região do Alto Tietê, constituída por 11 municípios (Arujá, Biritiba Mirim, Ferraz de Vasconcelos, Guararema, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá, Salesópolis, Santa Isabel e Suzano).
O tema do FME, que aconteceu entre os dias 13 e 16 de setembro, foi “Educação: Protagonismo na Diversidade”, dividido em quatro eixos: “Educar para a sustentabilidade do planeta”, “Protagonismo: responsabilidade social na educação contemporânea”, “Prática em educação: os cenários da diversidade” e “Políticas públicas em educação: efetivando e concretizando direitos”. Para Moacir Gadotti, do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial (FSM) e diretor do Instituto Paulo Freire, um dos organizadores do FME, a escolha do local foi um acerto. “A educação destes municípios já é de alto nível e o Fórum contribuirá para a sua continuidade e melhora. A maior prova disso é que no primeiro dia estamos com 20 mil participantes”, comemorava.
Outro ponto destacado por Gadotti foi a maior participação dos movimentos sociais no processo do FSM. “O Fórum está seguindo sua vocação de não virar refém de seus intelectuais”, assegura. “E os movimentos sociais não querem ser apenas platéia. Querem subir no palco e falar sobre suas experiências.”
A opinião é compartilhada por Camila Croso, coordenadora executiva da Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação. Para ela, a realização do FME em Mogi das Cruzes faz parte do princípio da eqüidade, de movimentar os eixos de discussão. “Com esse deslocamento, o Fórum pode semear a ação coletiva, permitindo que o movimento possa envolver outras pessoas. E essa prática evita a reprodução da relação centro–periferia que a gente tanto critica.”

Um ponto que foi praticamente consenso durante as discussões do FME foi a necessidade de a sociedade civil se movimentar para recuperar seu protagonismo na área educacional. “A educação que forma pessoas para se transformarem e transformarem o mundo está escapando de nós”, a opinião é do professor da Universidade de Campinas (Unicamp) Carlos Rodrigues Brandão. Para ele, a educação para a sustentabilidade do planeta está “ficando nas mãos das fundações” e a sociedade civil precisa retomar a situação para poder transformar essa realidade. Helena Singer, também professora da Unicamp, faz coro. “Não acredito muito em tudo que venha de cima. Caso os indivíduos não compartilhem daquele momento e não estejam dispostos a enfrentar, no coletivo, todas as divergências e problemas que surgiram a partir da adoção da democracia na escola, não funcionará”, acredita.

Paulo Freire
O legado do educador Paulo Freire foi um dos principais destaques no Fórum do Alto Tietê. Em memória aos dez anos de sua morte, aconteceram exposições, debates, práticas reflexivas, atividades autogestionadas e filmes sobre sua obra e história. Para Gadotti, o processo de construção do FSM e do FME tem uma grande influência do mestre. “Estamos reinventando Paulo Freire, o conhecimento produzido por ele é fundamental para analisarmos nossa realidade, mas jamais repeti-lo.”
Anita Freire, educadora, ex-mulher de Paulo Freire e autora do livro Paulo Freire: Uma história de vida, também estava presente no FME. Em sua palestra durante a mesa “Paulo Freire Vive! Hoje, dez anos depois…”, Anita constatou o aumento pela procura da obra do educador. “Paulo é lido em todo o mundo. A cada dia a procura por sua obra aumenta e isso é reflexo da malvadeza do neoliberalismo. Há dez anos me dedico a divulgá-la. Infelizmente ele não chegou a ver sua obra traduzida para o chinês e o coreano”, lamentou Anita.

Investimentos em educação
A professora Lisete Arelaro, livre-docente da USP, em sua palestra afirmou que os professores precisam se reorganizar e não esperar por mais bônus governamental. “Nós, professores, somos cotidianamente convidados a nos afastar dos sindicatos. São bônus e mais bônus que surgem para quem não falta, para quem não chega atrasada, quem não questiona e quem faz com que os alunos decorem os livros didáticos”, critica. “Precisamos nos reorganizar e parar de aceitar a tripla jornada de trabalho”, convoca.
O deputado federal Ivan Valente (PSoL-SP), membro da comissão de educação da Câmara dos Deputados, falou sobre a necessidade de colocarmos em prática o Plano Nacional de Educação (PNE). “O PNE está aprovado desde 2001, mas o governo Fernando Henrique Cardoso conseguiu vetar. Necessitamos que 10% de nosso PIB [Produto Interno Bruto] seja destinado à educação. Precisamos pressionar o governo Lula a derrubar os vetos que estão barrando um investimento em massa neste setor.”



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