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Descentralização aproxima Fórum dos movimentos sociais e provoca novas reflexões sobre o seu futuro Por Glauco Faria   No centro de eventos do Colégio São Luiz, em...

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Descentralização aproxima Fórum dos movimentos sociais e provoca novas reflexões sobre o seu futuro

Por Glauco Faria

 

No centro de eventos do Colégio São Luiz, em São Paulo, um jornalista testava o video streaming para fazer as videoconferências que eram parte das atividades do Dia de Mobilização e Ação Global do Fórum Social Mundial na capital bandeirante. Para testar, ia fazendo algumas “entrevistas” com as pessoas próximas. Eram dez horas da manhã, no dia que os organizadores chamaram de “Sábado-Feira”.
Perto dele estava Chico Whitaker, um dos idealizadores do FSM. Questionado pelo jornalista a quantas andavam os eventos em São Paulo, o representante da Comissão Brasileira Justiça e Paz no Comitê Internacional respondeu: “Está ótimo. No momento, algumas coisas ainda estão desarrumadas, mas já estamos trabalhando nisso. Lá pelas 14h, vai estar quase arrumado e, quando for 17h, quase no fim das atividades, tudo estará perfeitamente organizado”.
A explicação bem-humorada de Whitaker reflete um pouco a dinâmica de todas as edições do FSM, e este não fugiu à regra. O bom humor e a força de vontade acabam superando os problemas logísticos e a limitação de recursos. Ainda mais nesta edição do Fórum, totalmente descentralizada, com eventos em diversas partes do planeta. Ainda não havia dados completos do Dia de Mobilização e Ação Global até o fechamento desta Fórum, mas se estimava em mais de 700 atividades em 80 países realizadas.
No Brasil, Rio de Janeiro e Belém se destacaram. Cândido Grzybowski, membro do Conselho Internacional do FSM, considerou os resultados das atividades cariocas, concentradas no Aterro do Flamengo, bastante positivos. “No Rio de Janeiro, o Fórum me surpreendeu, mais ainda por se tratar de um dia nublado, com a concorrência dos blocos carnavalescos. Acredito que mais de dois terços das dez mil pessoas que circularam nas atividades até tinham ouvido falar do Fórum, mas nunca tinham tido a possibilidade de participar efetivamente”, analisa.
Outra vantagem apontada pelo diretor geral do Ibase foi uma mudança no perfil dos participantes. “Houve mais participação popular no evento”, sustenta. “A sensação era de que poderia predominar a dispersão, mas no Rio de Janeiro conseguimos nos conectar com várias partes do mundo. Os movimentos locais puderam perceber a sua relação com os outros, suas similitudes e diferenças. Foram mais de 40 conexões.”
Em outras edições do FSM, embora algumas tenham tido um grande público, nem sempre as camadas mais populares puderam estar representadas, até porque isso envolve uma série de custos, como transporte, estadia etc. Com a descentralização, esses problemas foram minimizados, mas, de acordo com Grzybowski, uma questão que ainda não foi solucionada para ampliar ainda mais o alcance do Fórum é a comunicação. “Precisamos aprimorar nossas conexões. Temos mídia em torno de nós, mas ainda não conseguimos articular uma rede. Como não conseguiremos levar todos ao FSM, essas conexões são fundamentais para que o processo tenha escala verdadeiramente mundial”, assegura.
Outra cidade que contou com uma importante participação popular foi Belém onde será realizada a próxima edição do Fórum Social Mundial em 2009. As atividades na capital do Pará duraram uma semana, e foram elaborados seminários temáticos entre 23 e 25 de janeiro, culminando com o cortejo político-cultural no dia 26, que teve a participação de cerca de 6 mil pessoas. Para Salete Valesan, do Instituto Paulo Freire, participou da organização das atividades de Belém. Para ela, já é possível perceber uma intensa articulação dos movimentos sociais locais que farão parte do FSM 2009. “Acho que pudemos ver o que teremos no ano que vem, um evento com muita diversidade de te mas, de gênero, de etnias, de lutas e bandeiras. Tivemos uma importante mobilização dos movimentos, que conseguiram bastante divulgação”, conta.
Sobre a nova metodologia adotada, de descentralização das atividades, Salete faz uma avaliação positiva. “Em termos de visibilidade de concentração e divulgação foi um processo mais difícil, mas ao mesmo tempo permitiu que muitos dos que nunca haviam participado antes do FSM tivessem a possibilidade de participar. Outro avanço que a nova metodologia propiciou foi que houvesse um maior destaque para as atividades de cada cidade nas mídias locais e regionais, o que não acontecia antes”, pondera. “A reflexão que vou levar à próxima reunião do Conselho Internacional é que devemos manter a jornada de mobilização como um dia que permaneça como parte do FSM, mas que haja uma ação concentrada em janeiro, que seja ou uma reunião do Conselho Internacional ou um evento como o que vai ocorrer em Belém no ano que vem.”

Os rumos do FSM Debate constante entre organizadores e participantes do FSM, o futuro do Fórum estará novamente em discussão na próxima reunião do Conselho Internacional, que acontecerá no fim de março. Além da discussão que avaliará os resultados do Fórum descentralizado, o debate sobre a metodologia de espaço aberto, que para alguns inibe ações mais substantivas, também estará na pauta.
Walden Bello, diretor executivo do Focus on the Global South, acredita que o FSM está em uma encruzilhada. Para ele, embora o Fórum tenha representado um avanço na articulação de forças progressistas, a metodologia de espaço aberto deveria ser questionada. Para ele, há sentido em uma freqüente acusação feita ao FSM, de que estaria se tornando “uma instituição descolada das lutas políticas globais atuais, e virando um festival anual com impacto social limitado”. Bello acredita que novos modelos de organização global de resistência e transformação precisariam ser pensados, em substituição ao modelo atual do FSM.
Em artigo, Chico Whitaker respondeu argumentando que encruzilhadas não têm necessariamente que fechar caminhos e que a metodologia de espaços abertos possibilita que os movimentos construam coalizões globais e manifestos comuns, contanto que não falem em nome do FSM. Ou seja, ele defende que essa não é uma encruzilhada real, já que os dois caminhos podem coexistir.
O fato é que a discussão vai continuar. E, mesmo que seja cedo para avaliar os efeitos práticos da mudança metodológica de 2008, algumas mudanças já se fazem sentir. “Uma novidade deste ano é que, dentro das atividades que ocorreram no mundo, poucas foram na linha do protesto puro e simples. Ocorreu em Davos, é fato, mas esse é tradicional e acontece há anos. E também conseguimos dar destaque às agendas locais, que se inserem dentro de um contexto global”, reflete Candido Grzybowski. “A novidade às vezes leva tempo para ser digerida”, conclui. F

Dia de Mobilização amplia alcance do FSM, sustenta Whitaker
Um dos idealizadores do Fórum Social Mundial, Chico Whitaker, membro do Conselho Internacional do FSM representando a Comissão Brasileira Justiça e Paz, acredita que o Dia de Mobilização e Ação Global deve se repetir nos próximos anos. De acordo com sua avaliação, feita no início do evento em São Paulo, a mobilização simultânea em diversas partes do mundo irá coexistir comos fóruns centralizados, para ampliar o alcance da luta por outro mundo possível.
Fórum – Como o senhor enxerga a realização do Dia de Mobilização e Ação Global?
Chico Whitaker –
Entre as pessoas que têm feito avaliações, creio que na próxima reunião do Conselho Internacional, no fim de março, na Nigéria, é possível que haja proposta para que esse dia aconteça todos os anos. Os encontros mundiais podem acontecer todo ano ou a cada dois anos, como for o caso, depende de gente que queira organizar. Em 2009, já temos Belém, em 2010 ou 2011 pode ser novamente na África, pensa-se em ir à Coréia. Vai haver Fóruns mundiais, mas o que está se constatando é que essa forma de descentralizar as atividades tem um efeito positivo enorme. Ao acompanhar algumas dessas preparações, fica claro que se pode ultrapassar barreiras, preconceitos e encontrar convergências. Isso pode acontecer no âmbito local, com participantes de muitas organizações, e não apenas com dirigentes de organizações no âmbito mundial. É algo muito mais rico.

Fórum – Ao permitir esses elos locais, não se perde a promoção de redes internacionais?
Whitaker –
Do ponto de visto da articulação, esse Dia de Mobilização e Ação vem permitindo uma estruturação cada vez mais densa da sociedade civil, mesmo do ponto de vista planetário, não só local. Estou com uma lista de conexões com pessoas de outras partes do mundo durante o dia, tem ativistas do Quênia esperando para conversar via videoconferência com o pessoal de lá. Outro do Mali, outro da Alemanha enviando fotos para Stuttgart, onde há uma feira como esta que acontece em São Paulo. Eles receberam dois brasileiros e nós os recebemos aqui. Isso tem um outro efeito, sobre a mídia inclusive. A gente fica na linha de que o Fórum a mídia não cobre, ou distorce. Na prática, mesmo se você fizer um Fórum em Porto Alegre com 150 mil pessoas, o resto do mundo não fica sabendo, porque a gente não tem tanto espaço. Com esse sistema, se está possibilitando descentralizar a divulgação, não só com os veículos alternativos, mas com os grandes. É o que acontece em São Paulo, e também no Rio e em Belém, dois grandes eventos, bem maiores do que o paulistano, e em outros lugares onde há menos esperança. No Iraque, em meio a bombas, estão dizendo: “Outro mundo é possível, a paz é necessária”. É uma mensagem de possibilidade de mudar o mundo que se espalha muito mais. É uma idéia conjunta, uma inteligência coletiva trabalhada entre 150 entidades do Conselho Internacional que chegaram a esta fórmula e permitiram dar um salto qualitativo e multiplicador. A fórmula, de minha parte, me deixa muito satisfeito.

Fórum – As duas metodologias, a descentralizada e a com um evento maior, vão coexistir?
Whitaker –
Sem dúvida. Os eventos centralizados têm outra dinâmica, mas quem é que pode ir? O deslocamento é caro. Se havia 150 mil participantes [em Porto Alegre, em 2005], 120 mil eram do Brasil. Quem eram os outros 30 mil de fora? Pagar uma passagem da Índia para cá envolve custos muito altos. Os Fóruns centrais acontecem mais com dirigentes, intelectuais. Mandar o “povão”, se consegue só em alguns lugares. Na Índia, pôde-se levar os intocáveis, havia 20 mil deles em Mumbai. A mesma análise foi feita no Fórum Social Norte-Americano, que conseguiu reunir as organizações de base, o pessoal mais pobre, o pessoal de Nova Orleans, os imigrantes, todos comprometidos na luta contra a pobreza. Por mais popular que se consiga fazer um evento como o Fórum, isso é limitado. E fica nessa dependência total da grande mídia que vai contar as coisas como não devem ser contadas, como na história dos cegos que encontram o elefante e descrevem a unha ou o rabo como sendo o elefante todo, não entendem. Tivemos problemas com a mídia, porque eles não chegam a entender, fica muito fora dos esquemas mentais. Aliás, muitas reações internas do Fórum padecem do mesmo problema. É um animal estranho em uma tradição de luta política que não tem nada a ver com isso, que é feita em volta do programa político, da palavra de ordem, do grupo organizado. Isto é sociedade civil, não é partido, mas alimenta o conjunto.



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