Inveja dos lusitanos

Crônica de Mouzar Benedito Por Mouzar Benedito   Sou um apreciador de cachaça boa, já fui até jurado do festival da cachaça de Sabará, mas raramente tomo...

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Crônica de Mouzar Benedito

Por Mouzar Benedito

 

Sou um apreciador de cachaça boa, já fui até jurado do festival da cachaça de Sabará, mas raramente tomo uma delas nos bares de São Paulo. Não que não sejam boas, mas pelo lucro exagerado que os comerciantes têm em cima delas. Acho um absurdo. Não que destilados estrangeiros sejam melhores que nossa “marvada”, mas ela é produzida aqui, não tem taxa de importação, é uma sacanagem venderem pinga que custa menos de dez reais a garrafa por seis, sete e até dez reais a dose.
E pior: uma dose de pinga, em bares de luxo paulistanos, vem naqueles copinhos pequenos, mesmo que queiram caprichar na dose, dar um “choro”, não tem jeito. E as bebidas estrangeiras, como o uísque, vêm em copos grandes, com gelo, e geralmente com muito “choro”. Então, o preço da cachaça e do uísque (que, insisto, não é melhor, mas custa mais caro porque é importado) acaba custando praticamente o mesmo, levando em conta o tamanho da dose e o custo do gelo. Sem contar que um copinho usado pra pinga é comum, custa uns cinqüenta centavos. Se um bebedor quebrar, praticamente não há prejuízo. Mas os copos de uísque são caros, se um quebrar é prejuízo mesmo!
Lembro-me, com inveja, do tratamento que Portugal dá às suas bebidas, como o Brasil deveria dar à cachaça. Isso foi antes de Portugal entrar na Comunidade Européia, mas imagino que deve continuar mais ou menos assim. Estava na cidade do Porto e fiquei sabendo que em Portugal existia uma lei muito boa, que obrigava tudo quanto é bar e restaurante a ter um vinho da casa a preço bem popular. Na época era no máximo o equivalente a um dólar a garrafa. Imaginei uma lei semelhante no Brasil, obrigando todos os bares e restaurantes a terem uma cachaça a preço bem popular, coisa de vinte centavos a dose. Venderiam um purgante. Mas em Portugal, a coisa era diferente. Os donos de restaurantes tinham orgulho de seu vinho da casa. Tinham vinhos excelentes por preços baixíssimos.
Num restaurante do centro do Porto, abri o cardápio, vi que o vinho da casa custava 110 escudos, um pouco menos de um dólar. Dei uma geral nos vinhos existentes, e falei excitado:
– Célia! Aqui tem vinho Periquita! – falei com minha namorada, que tinha lido um romance de Rubem Fonseca em que o personagem tomava o dito cujo.
Tinha mesmo, e uma garrafa custava 440 escudos. Pedimos uma. O garçom saiu e dali a pouco veio o dono do restaurante, com uma cara indignada:
– Meu sinhôiri… Por que não querem o vinho da casa?
Falei que queira experimentar o Periquita, ele argumentou que não tinha lógica: o vinho da casa era melhor do que o Periquita (“um vinho para exportação que os portugueses mesmo não gostam”), e custava um quarto do seu preço:
– Pelo preço de um Periquita o sinhôiri pode tomar quatro garrafas de vinho da casa, que é muito melhor…
Expliquei que éramos brasileiros, tínhamos lido romances citando o Periquita e queríamos experimentá-lo. Ele continuou contra-argumentando que seu vinho era muito melhor, eu podia confiar nele, e muito mais barato. Desconfiei que ele não tinha o vinho Periquita e por isso queria nos empurrar o da casa. Bati o pé:
– Quero Periquita!!!
Ele saiu injuriado, chacoalhando a cabeça e eu ainda comentei com a Célia que se a garrafa viesse aberta eu não aceitaria, pois seria algum vinho falsificado. Fiquei olhando. Ele pegou uma garrafa na prateleira, com raiva, trouxe e abriu com ar de desprezo na nossa frente. Era Periquita mesmo. Bebemos e gostamos.
Mas no dia seguinte voltamos lá e pedimos o vinho da casa. Realmente, muito melhor. Com a venda de um Periquita, lucrava muito mais do que com seus vinhos da casa, mas gostava de ver os clientes satisfeitos tomando o seu vinho da casa, baratinho e saboroso. Coisa de portugueses. Alguém imagina uma cena assim em São Paulo?



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