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O campo progressista avalia que a derrota do carlismo nestas eleições pode vir a ser o começo de um novo tempo no estado Por Glauco Faria  ...

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O campo progressista avalia que a derrota do carlismo nestas eleições pode vir a ser o começo de um novo tempo no estado

Por Glauco Faria

 

“Estamos vivendo o outono do patriarca”. A frase foi dita pelo deputado estadual petista Emiliano José, da Bahia, citando o romance do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez que narra o ocaso de um ditador latino-americano. No contexto, faz referência ao momento vivido por Antonio Carlos Magalhães. Aos 77 anos, ele conheceu nessas eleições uma fragorosa derrota já no primeiro turno da disputa pelo governo do estado. O ex-ministro do Trabalho e de Relações Institucionais do governo Lula, Jaques Wagner, venceu as eleições no primeiro turno, com 52,8% dos votos válidos. Além disso, o grupo carlista perdeu a vaga de senador para João Durval (PDT). Sem contar que em 2004 já havia sido derrotado na disputa pela prefeitura de Salvador, exatamente para o filho de João Durval, o atual prefeito João Henrique. Sem o governo do estado e se Geraldo Alckmin também vier a perder, o carlismo viverá seu pior momento desde a década de 50.

Um pouco da história
Eleito deputado estadual pela UDN (União Democrática Nacional), em 1954, quatro anos depois ACM tornou-se deputado federal, conseguindo mais dois mandatos em 1962 e 1966. Já na Arena, sua trajetória o alçou à condição de prefeito de Salvador nomeado pelo então governador Luís Viana Filho. “À época, ele realizou um mandato inovador, usando como arma poderosa a comunicação”, explica Ubiratan Felix Pereira dos Santos, presidente do sindicato dos engenheiros da Bahia e professor do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet).
Em 1971, ACM daria seu grande salto com a indicação para o governo da Bahia, feita pelo presidente Emílio Garrastazu Médici. “Como era o estilo da ditadura militar, ele governou junto com tecnocratas”, conta Santos. O aspecto modernizador do seu mandato garantiu popularidade junto aos baianos e prestígio em meio aos militares. Assim, conseguiu a presidência da Eletrobrás, em 1975, e voltou ao governo do estado, em 1979.
Com um timing político invejável, ACM foi um dos dissidentes que fundou o PFL e apoiou as Diretas-Já em 1984. Com a morte de Tancredo Neves e a posse de José Sarney na presidência da República, em 1985, assume o Ministério das Comunicações e permanece no cargo até o fim do mandato, em 1990. Ali, em meio a uma gestão marcada por inúmeras denúncias de distribuição de concessões de rádio e TV em troca de apoio político, começou a se projetar nacionalmente.
“A longevidade de ACM no poder está relacionada principalmente a suas posições em âmbito nacional”, aponta Paulo Fábio Dantas Neto, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (Ufba). De fato, desde Sarney até FHC, o senador baiano esteve sempre presente na administração pública federal, de forma direta ou indireta. Foi eminência parda durante o curto governo Collor e avalista da aliança entre PFL e PSDB nas eleições presidenciais de 1994. Todo-poderoso nos primeiros anos da era FHC, foi gradativamente perdendo espaço até sua saída da presidência do Senado e a posterior renúncia do cargo por conta do caso da violação do painel eletrônico no mesmo ano. Após uma série de acusações contra o governo, dois ministros indicados por ele, Rodolpho Tourinho (Minas e Energia) e Waldeck Ornélas (Previdência), foram demitidos.
A relação com o governo FHC foi turbulenta. Pelo menos cinco grandes escândalos do reinado tucano foram “assoprados” por ACM a jornalistas de diversos veículos. Uma série de dossiês era produzida constantemente, e um sinal de como poderiam ser feitos foram os 232 grampos telefônicos ilegais realizados pela polícia baiana em 2002. O temor de ser grampeado permanece como ameaça constante para todos os adversários do carlismo na Bahia, que não tratam de articulações políticas por telefone.
Adriana Barreto, filha do desembargador Amadiz Barreto, do Tribunal de Justiça, ex-amante de ACM, foi um dos alvos da escuta ilegal, junto com o namorado, Plácido Faria. Além de aparelhar o estado para assuntos particulares, ACM foi capaz de conter a apuração do caso com alguma tranqüilidade, já que mantinha o controle do Ministério Público e das polícias estaduais.
Mas o grande golpe para o senador baiano no cenário nacional vem com a eleição de Lula, quando vê seu espaço reduzido a zero na estrutura do poder federal. A ampliação dos programas sociais como o Bolsa Família também atinge em cheio a estrutura política do pefelista. “Isso rompe com o clientelismo. Antes, para o cidadão ter acesso a determinados benefícios tinha que passar por um intermediário, que era o político local. Agora, o cidadão passa a ter um cartão que elimina isso”, sustenta Ubiratan dos Santos.
Dantas Neto ressalta outro aspecto que se modificou com a chegada de Lula ao governo. “Acabou o movimento de as lideranças municipais só terem acesso federal por meio do carlismo”, argumenta.
O presidente da República teria dado ainda outro tipo de auxílio ao governador eleito. “Lula teve fundamental importância na vitória de Jaques Wagner. Quando disse em um comício aqui que o ACM não era um ‘leão do norte’, e sim um hamster, aquilo calou fundo no coração do povo baiano”, relembra a deputada federal Alice Portugal (PCdoB). O próprio Wagner reconheceu que a reação destemperada de Magalhães, que chamou Lula de “ladrão”, pode tê-lo ajudado a ganhar votos. A atitude agressiva de ACM em relação a um presidente popular entre os baianos não foi das mais inteligentes.

Uma nova face conservadora
A vitória de Wagner não decorre apenas do enfraquecimento do poderio de ACM, mas surge também como resultado de um crescimento da esquerda – em especial o PT – como principal força contra o carlismo na Bahia. Nessas eleições, a costura política entre nove partidos permitiu a Jaques Wagner, pela primeira vez, ser um candidato de oposição com mais tempo na propaganda eleitoral gratuita do que o candidato do PFL.
“Foi evidente a decadência do carlismo enquanto modelo de chicote em uma mão e dinheiro na outra”, garante o deputado estadual Emiliano José (PT). “O povo da Bahia fez uma revolução silenciosa. Não adiantaram as fraudes dos institutos de pesquisa”. Ele alude às sondagens que apontavam a vitória de Souto no primeiro turno até a véspera da eleição. Pesquisas internas do PT mostraram durante as duas últimas semanas uma diferença entre Souto e Wagner bem menor do que se divulgava. “Mas não fizemos alarde disso”, conta.
A “mistificação” a que se refere Emiliano José decorre do grande império de comunicação controlado por ACM e também das nada transparentes relações entre o governo baiano e a mídia carlista. A edição 366 de CartaCapital anunciou a descoberta de um esquema de 101 milhões de reais de verbas de publicidade do governo da Bahia não declarados na contabilidade da administração e repassados por meio de uma conta bancária não cadastrada como governamental. O conselheiro do Tribunal de Contas Estadual, Filemon Matos, em um parecer em junho de 2005, já questionava o fato das verbas de publicidade previstas pelo governo estadual terem extrapolado os valores previstos no orçamento em 123,9% no ano de 2004, representando uma diferença de R$ 38,9 milhões.
A distribuição dos recursos publicitários era bem direcionada. O destino dos anúncios era, em 77% dos casos, o jornal Correio da Bahia, da família Magalhães, o segundo em tiragem. Por conta disso, o jornal A Tarde, o mais vendido na Bahia, conseguiu, em 15 de dezembro de 2003, sentença judicial que garantia indenização de R$ 10,8 milhões como ressarcimento por prejuízos decorrentes da ausência de publicidade oficial no jornal.
Para se manter no poder, os carlistas desde o início dos anos 1990 vinham reciclando seu discurso e algumas práticas, tentando deixar menos evidente seu ranço autoritário. Luiz Eduardo Magalhães era um dos artífices dessa mudança e seria o sucessor natural do pai, representando uma transição suave para assegurar a continuidade. Mas sua morte, em 1998, colocou fim a essa operação.
Mesmo assim, outras figuras como o próprio governador Paulo Souto deram seqüência à mudança de figurino. Antes das eleições, ele até chegou a conversar com o PMDB, cogitando oferecer a vaga de senador na chapa ao partido e reservando a de vice-governador ao PSDB. Mas ACM vetou as negociações e preferiu impor sua vontade. “Souto, sozinho, talvez até ganhasse a eleição” arrisca Lídice da Matta, deputada federal pelo PSB. “Mas ele não teve ousadia para se afastar de ACM, que impôs ainda Rodolpho Tourinho [na vaga de candidato a senador].”
“No final da disputa, Souto mudou o tom. No início fez uma campanha sem ataques fortes, insinuando até uma dobradinha com Lula”, conta Rubens Toledo Júnior, professor de Geografia Política e Eleitoral da Ufba. “Contudo, no final, ACM passou a atacar fortemente o presidente e Souto, que se apresentava como um carlista diferente, mais independente, teve que seguir a mesma linha”.
Seria esse o fim definitivo do carlismo? É prematuro dizer, mas a única certeza é que, após essa derrota, as forças conservadoras da Bahia terão que promover um novo arranjo. “Vai continuar existindo um setor político conservador, mas sem um dono que determine seus rumos. ACM, com 77 anos, não tem mais hegemonia e não será mais o único referencial”, crê Ubiratan dos Santos.
“Não é o fim, mas o início do fim. E um início com tapete verme lho”, garante Alice Portugal, que comemora a queda do “painho”. “Sou inimiga política dele desde os tempos do movimento estudantil”, conta, lembrando um dos diversos episódios de truculência promovidos pelo grupo. “Na Assembléia Legislativa, em 2001, a Polícia Militar invadiu o plenário quando tentaram compor a mesa do parlamento em desobediência à proporcionalidade das bancadas”, lembra. “Os orixás traíram ACM”, ironiza.
“É o resultado da saturação de um modelo. Essa sinalização já havia sido dada com a expressiva votação de João Henrique para prefeito”, assegura Lídice da Matta. Aliás, a ex-prefeita de Salvador foi vítima de incontáveis interferências judiciais e contingenciamentos por parte do governo estadual, à época nas mãos do próprio ACM, que na prática a impediam de governar. Além disso, enfrentou um boato de que estaria grávida de um pai desconhecido. Não havia gravidez, mas o Correio da Bahia não hesitou em repercutir as notícias por muitos dias. Lídice ainda foi processada por ACM por calúnia e difamação, por tê-lo acusado de haver criado rumor.
Dantas Neto alerta que, como ressaltou o governador eleito, o processo eleitoral ainda não terminou. “Na verdade, a eleição não acabou. O segundo turno das eleições presidenciais é fundamental, principalmente para o grupo carlista, que pode não perder inteiramente seu poder em caso de vitória de Alckmin”, adverte. “O carlismo vê a vitória do PSDB como uma tábua de salvação para tentar manter alguma coesão, impedindo que deputados migrem tanto para a base de um eventual governo Lula, quanto para o governo de Wagner”, explica Rubens Toledo. “Os carlistas esperam que Alckmin atrapalhe Wagner e João Henrique”, completa. Ainda há jogo.



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