Mentiras do Império

Para resgatar o ideal perdido de soberania popular, historiador desmonta os mitos de heroísmo individual que forjaram a identidade dos Estados Unidos Por Marco Frenette...

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Para resgatar o ideal perdido de soberania popular, historiador desmonta os mitos de heroísmo individual que forjaram a identidade dos Estados Unidos

Por Marco Frenette

A história é conhecida. No século XV, Colombo chega ao continente e o território que viria a ser os Estados Unidos é explorado pelo Velho Mundo. Depois, é dividido em 13 colônias britânicas. Entre massacres de índios e a escravidão negra, chega-se ao momento capital da saga norte-americana: a Guerra da Independência. Iniciada em 1775 com as revoltas dos colonos contra a política financeira do Reino Unido, desemboca na Declaração da Independência, em 4 de julho de 1776, consolidada com a derrota dos ingleses em 1781.

Em meio a esses fatos, várias lendas forjaram a identidade do país. Para combatê-las, o historiador Ray Raphael escreveu Mitos sobre a Fundação dos Estados Unidos – A Verdadeira História da Independência Norte-Americana (Editora Civilização Brasileira). “Fontes escritas seletivas, tradições orais e visuais ricas, mas muito livres, e a invasão da política e da ideologia – tudo isso constituiu um convite declarado à imaginação histórica. Com criatividade, mas sem muita exatidão, inventamos um passado que gostaríamos de ter tido”, resume o autor.

 

A heróica cavalgada de Paul Revere, para avisar as tropas norte-americanas da chegada dos ingleses, foi inventada em 1861
A heróica cavalgada de Paul Revere, para avisar as tropas norte-americanas da chegada dos ingleses, foi inventada em 1861

Seu alvo são as principais fábulas norte-americanas. Ele esclarece, entre tantas outras coisas, que a heróica cavalgada de Paul Revere, para avisar as tropas norte-americanas da chegada dos ingleses, foi inventada em 1861 pelo poeta Henry Wadsworth Longfellow, 86 anos depois do fato; que Molly Pitcher, a heroína revolucionária que se vestiu de homem e foi à guerra, presente em inúmeros quadros e livros didáticos, simplesmente nunca existiu; que o famoso discurso de “Liberdade ou Morte” de Patrick Henry só foi publicado em 1817, 42 anos depois de supostamente pronunciado; e que Thomas Jefferson não foi o único e brilhante autor da Declaração da Independência.

Um país de conto de fadas

Já no começo, a história deu lugar ao romance. Uma das fontes de Raphael são as declarações de Charles Thomson, secretário do Congresso Continental, que, logo após a Guerra Revolucionária, deu suas razões para não escrever uma história do conflito. “Não devo desiludir as gerações futuras. Não poderia escrever a verdade sem ofender muito. Que o mundo admire os nossos patriotas e heróis.” Thomson incentivava historiadores, a exemplo de David Ransay, a omitir episódios “demasiados vis e vulgares para combinar com a dignidade da história”.

Naturalmente, “vileza” e “vulgaridade” eram eufemismos para saques, estupros, deserções, massacres e mercenarismos; o cotidiano, enfim, de todas as guerras. Em vez dessa realidade, optou-se pela construção dos mitos. “Todas as crianças da América, assim que abrissem os lábios, (…) deveriam ensaiar a história de seu país; deveriam balbuciar o elogio da liberdade e daqueles heróis e estadistas ilustres que elaboraram uma revolução a seu favor”, declarou, em 1790, Noah Webster, o famoso dicionarista. E assim foi feito. “Durante mais de um século e meio, os colonos desenvolveram suas histórias e lendas locais, as quais se mantiveram separadas. Mas a Guerra Revolucionária forneceu aos norte-americanos a possibilidade de um passado comum. Desde então, a tão repetida história de como os Estados Unidos obtiveram sua independência uniu os norte-americanos. Foi um conto de fadas que serviu aos interesses de formação da nação”, explica Raphael.

Uma revolução popular

Para destacar os verdadeiros protagonistas da Revolução Norte-Americana, Raphael precisou destruir a credibilidade dos heróis solitários. “Em vez de mostrarem o esforço coletivo de centenas de milhares de norte-americanos, essas fábulas criaram um panteão minúsculo de heróis míticos. O nosso país deve sua existência às atividades políticas de grupos de patriotas que agiram em conjunto. Em todas as colônias rebeldes, os cidadãos organizaram-se em uma série de comissões locais, congressos e unidades de milícia, que desalojaram a autoridade britânica e lhe tomaram as rédeas do governo”, afirma. Para o autor, essas histórias reais de heroísmo conjunto contemplam melhor o espírito da independência. “Esse esforço revolucionário poderia servir de modelo para a participação política coletiva de cidadãos comuns, e confirmaria o significado original do patriotismo norte-americano: o governo deve basear-se na vontade do povo.”

Um dos capítulos do livro, O Homem que Fez uma Revolução: Sam Adams, mostra qual é o truque para a supressão da participação popular. Adams é descrito pela história oficial como “o grande patriota e revolucionário solitário de Boston”; e como todos os outros patriotas não poderiam simplesmente desaparecer do contexto, eles são reduzidos a “recrutas”, “legiões” e “rol” a serviço do heroísmo e capacidade de organização sobre-humanas de Adams. Com a redução drástica da importância de todos que o cercam, destaca-se a figura do herói escolhido.

Glorificação da guerra

Raphael diz que a crença em salvadores da pátria é um dos combustíveis da guerra. “Histórias de pessoas especiais forjando sozinhas a liberdade coletiva nos encorajam a seguir líderes que, supostamente, sabem mais do que nós. Desencoraja o cidadão comum a agir em seu próprio nome. Promove uma nostalgia passiva por um passado irrecuperável, e, no fim das contas, estimula o militarismo e glorifica a guerra.” Uma glorificação que começa nos bancos escolares norte-americanos, uma vez que são comuns livros infantis e didáticos com essa visão de mundo. The American Revolution, por exemplo, lançado em 2002, numa parceria da Editora DK com o Instituto Smithsonian, traz a seguinte chamada de capa: “Descubra como alguns bravos patriotas combateram um grande império”.

É contra essa versão estilo Davi e Golias que Raphael se insurge. Ele diz que essas mistificações permitiram que a noção de soberania popular – verdadeiro espírito da revolução – desaparecesse para dar lugar ao enaltecimento da supremacia norte-americana. “A lição que ficou é que uma nação é melhor que as outras, e não que todos os povos têm o direito de governar a si mesmos”, finaliza o autor norte-americano. Eis sua contribuição – no âmbito da história e da formação das mentalidades – para a compreensão da atual política imperialista dos EUA.

No mundo todo, a vitória do mito

Porém, em defesa dos norte-americanos, diga-se que a prevalência do mito sobre a realidade é tendência universal. O historiador Patrick J. Geary escreveu O Mito das Nações – A Invenção do Nacionalismo (Editora Conrad), no qual mostra que, no lugar de sólidas raízes e heróis isolados, há apenas invenções que permitem a distinção entre os povos. “Estados-nações de base étnica dos dias de hoje foram descritos como ‘comunidades imaginadas’, geradas pelos esforços criativos dos intelectuais e políticos do século XIX, que transformaram antigas tradições românticas e nacionalistas em programas políticos”, afirma o autor, que, a exemplo de Raphael, vê a escola como a principal geradora de mitos: “Instituições educacionais se tornaram o locus (local) da criação do Estado-nação, tanto com a imposição da ideologia nacionalista como, de forma mais sutil, com a disseminação da língua nacional, na qual estava implícita essa ideologia”.

No Brasil, também há inúmeros estudos nesse sentido, a exemplo de Um Mitógrafo no Império: A Construção dos Mitos da História Nacionalista do Século XIX, da historiadora Maria Helena P. T. Machado. A autora discorre sobre esse período fértil em discussões sobre nação e nacionalidade. “Minha terra tem palmeiras, tem sabiás, tem Ceci e Peri, Princesa Isabel com sua pena de ouro, tem o índio bom – tupi – e índio ruim – tapuia –, tem aquele negro bondoso, o Pai João, tem suas nhanhás e seus senhores patriarcais, tem paisagens de colocar qualquer naturalista estrangeiro boquiaberto. Um pouco mais tarde apareceram também Tiradentes, Pedro II – bonachão e de barba branca – Jeca Tatu, redimido, lógico, pelo Biotônico Fontoura, e – como esquecer? – Macunaíma. Repassando pela memória algumas dessas imagens, ainda tão presentes no imaginário popular a respeito do caráter brasileiro, poder-se-ia reconstituir todo um aspecto do processo de formação nacional.” Nos Estados Unidos do Brasil, um processo de formação tão falso quanto o dos Estados Unidos da América. F



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1 comment

  1. Yanelito Responder

    concordo com todos os artigos, em relação ás criações de heróis, seres humanos , que asumem uma postura glacial, distante dos humanos comuns, tais como o grande gen. George washintow, foram aumentada suas virtudes, por escritores etc… paul revere é outra figura exageradamente, vangloriada suas façanhas, Mas não esqueçamos os “heróis atuais, tais como o grande opressor de Cuba, pois ditadura aqui foi ruím, e é ruim em qualquer parte do mundo, os cubanos detestam Fidel. O regime é bom para ele , sua família e amigos, o povo sofre nas suas mãos!!! sejamos conscientes, Fidel não foi e nem é tudo isso que se fala, alías falar dos feitos dum Maluco opressor!!!!


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