Não é nova direita, é arcaica mesmo

Travestido de bom moço e vendendo a imagem de “gerente”, o tucano Geraldo Alckmin reúne em torno de si o que há de mais atrasado na política brasileira Por Renato Rovai  ...

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Travestido de bom moço e vendendo a imagem de “gerente”, o tucano Geraldo Alckmin reúne em torno de si o que há de mais atrasado na política brasileira

Por Renato Rovai

 

Geraldo Alckmin tem jeito e cara de picolé de chuchu, expressão bem-humorada criada pelo jornalista José Simão, da Folha de S.Paulo, para seu estilo insosso. Mas não é um candidato com gosto de nada, como pode até ser interessante para ele se apresentar. Como um político que só se preocupa em “administrar bem” e “cuidar das pessoas”, que não tem viés ideológico. Ao contrário, o candidato a presidente pelo PSDB é um representante da direita mais arcaica do ponto de vista moral, mais neoliberal no viés econômico e mais truculenta na ação política.
A história política do candidato que governa como Alckmin e disputa eleições como Geraldo é a prova cabal do seu direitismo clássico. Alckmin não pode ser entendido como fenômeno de uma nova direita, que mantém sua opção econômica liberal, mas com valores mais progressistas em relação a questões morais, por exemplo. Entre outras coisas, sua já conhecida relação com o Opus Dei (do latim “Obra de Deus”) destrói tal possibilidade. Nesse campo, um governo Alckmin seria muito mais à direita, por exemplo, do que o realizado pelo seu antecessor tucano, Fernando Henrique Cardoso.
Quando Alckmin disputava com José Serra a indicação à candidatura a presidente pelo PSDB, a revista Época, das organizações Globo, revelou em reportagem que ele mantinha encontros semanais com o articulista de O Estado de S.Paulo, Carlos Alberto Di Franco, ocasiões em que recebia orientações espirituais. Di Franco é um dos numerários mais influentes da Obra. Desses encontros, realizados quinzenalmente no Palácio dos Bandeirantes e confirmados pelo próprio Di Franco a Época, participavam aproximadamente 30 pessoas. Um pequeno trecho da entrevista do articulista de O Estado à revista da Globo dá sinais de que lições eram transmitidas nas palestras.

Época – O senhor não acha que a proibição de ir ao cinema, teatro ou estádio de futebol conflita com seu trabalho de jornalista?
Di Franco –
 Para mim nunca foi problema. Não é que não pode, a expressão está mal colocada. Não vai ao cinema porque não quer ir ao cinema. Os numerários vivem, voluntariamente, uma série de abstenções em função de sua entrega como numerários.
Época – Como o senhor faz com o cilício (cinto usado para autoflagelação)?
Di Franco –
 O cilício é uma mortificação corporal ultratradicio¬nal na Igreja. Se você falar com qualquer pessoa que viva o cristianismo é a coisa mais corriqueira e comum.
Época – O senhor usa, duas horas por dia?
Di Franco –
 Sim, como qualquer numerário.
Época – Quando o senhor está com o cilício se concentra no sofrimento de Cristo?
Di Franco –
 Essa pequena mortificação você oferece por várias intenções. A partir de hoje vou oferecer para você.
(…)
Época – É muito difícil o celibato?
Di Franco –
 Qualquer pessoa tem desejo, é normal. Eu sinto atração pelas mulheres, claro que sinto, sobretudo pelas bonitas.
Época – O senhor é virgem?
Di Franco –
 Você está entrando em território perigoso. Mas sou, se quer saber, sou.”
A relação do candidato tucano com o Opus Dei não é algo superficial ou novo, como tentam sugerir agora seus aliados. O tio de Alckmin, José Geraldo Rodrigues de Alckmin, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), indicado pelo ex-presidente Emílio Garrastazu Médici, também foi o primeiro supernumerário do Brasil. Seu pai, Geraldo José, pertencia à Obra. E quando era prefeito de Pindamonhangaba, em 1978, data do cinqüentenário do Opus Dei, Alckmin homenageou o fundador da organização, o espanhol Josemaría Escrivá de Balaguer (1902-1975), batizando uma rua com seu nome. A Obra ainda foi importante para o atual candidato a presidente em outra ocasião, quando conseguiu a anulação do primeiro casamento de dona Lu Alckmin. Antes de conhecer Alckmin, ela se casou e foi morar em Londres com aquele que seria seu primeiro marido. Ficou um tempo por lá, mas depois voltou alegando que teria descoberto que ele vivia numa comunidade hippie e que ela não teria se acostumado à situação. Após conhecer Alckmin, para que pudesse ter um casamento religioso, a Opus Dei foi fundamental. Por conta das relações que tinha com esse setor da Igreja Católica, a família do atual candidato conseguiu anular o primeiro casamento da ex-primeira dama do estado de São Paulo. Alckmin, evidente, nega que haja relação entre a anulação do primeiro casamento da esposa e seu relacionamento com a Opus Dei.

O tal choque de gestão
Mas se as questões morais têm lá sua importância no que diz respeito principalmente a grupos discriminados, deve-se levar a sério o discurso de Geraldo Alckmin relativo ao choque de gestão. Eleito, fará tudo para implementar sua visão de Estado, absolutamente neoliberal. Ainda no governo Mário Covas, então como vice-governador, presidiu a comissão estadual de privatizações, que tirou do controle do estado as Centrais Elétricas de São Paulo (Cesp), Eletropaulo, Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e Comgás, além de negociar concessões das principais rodovias estaduais e privatizar o Banespa. Não à toa, Alckmin é o candidato dos sonhos do empresariado paulista.
Recentemente encaminhou a proposta de venda da Nossa Caixa e da Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP), de novas linhas do metrô que estão em construção, do porto de São Sebastião e de rodovias da região de Campinas. Mesmo com tantas privatizações, hoje a dívida do estado chega a R$ 123 bilhões. E o sucessor de Alckmin, o atual governador Cláudio Lembo, recentemene revelou que a gestão “eficiente” do antecessor lhe reservou um rombo surpresa de R$ 1,2 bilhão para este ano.
A falta de investimentos públicos afeta principalmente a população de baixa renda. Política social para Alckmin é aumentar o efetivo policial e amontoar jovens em cadeias e unidades da Febem, o que provocou a maior crise de segurança pública da história do Brasil. Além de ter gerado o PCC, que não existia antes da eleição do PSDB para o governo do estado, o governo Alckmin é o recordista em massacres. Como já publicado por Fórum, de 12 a 20 do mês de março morreram por arma de fogo 492 pessoas em São Paulo. Uma tragédia sem precedentes.
Na atual campanha, para mostrar sensibilidade social apresenta como contraponto ao programa Bolsa Família do governo Lula, o famoso Bom Prato, que vende refeições a um real. O sítio do governo do estado consultado no dia 2 de outubro explica o programa: “um projeto de inclusão social desenvolvido pela Secretaria da Agricultura e Abastecimento em parceria com entidades do 3º setor. Tem um cardápio elaborado e monitorado por nutricionistas, com refeições compostas de arroz, feijão, carne, farinha de mandioca, salada, legumes, suco, frutas e pão ao preço de R$ 1,00”. Mas tem mais: “Hoje já são 26 unidades que servem mais de 36.700 refeições por dia, uma média de 1.200 por unidade”. Depois de 12 anos de governo, ou seja, 144 meses, o programa social modelo é a construção de 26 restaurantes populares.

Atenção aos movimentos sociais 
O ex-presidente da CUT, João Felício, em entrevista na edição 36 de Fórum, fez uma afirmação contundente a respeito da postu
ra do candidato tucano enquanto governador. “O Geraldo Alckmin é anti-sindical. Não conseguimos audiência com o governador, nem a CUT estadual nem a nacional.” O então presidente da CUT estadual, Edílson de Paula, confirma e dá um exemplo. Diz que quando conseguiu agendar um encontro, ficou oito horas trancado em uma sala no Palácio dos Bandeirantes e acabou não sendo recebido pelo governador para uma negociação. Edílson tentava evitar a demissão de 1.700 funcionários da Febem. “A gente sabia que ele estava na sala em frente, mas ficamos o tempo todo esperando.”
Em relação à Febem, o desempenho do ex-governador paulista confirma sua ortodoxia ultraconservadora e até certo ponto de aspecto fascista. As histórias contadas pela presidente da Associação de Mães e Amigos de Crianças e Adolescentes em Risco (Amar), Conceição Paganale, são de arrepiar. Na Febem de São Paulo, a juventude é espancada, torturada e muitas vezes estimulada a organizar rebeliões para justificar a agressão, costuma dizer Paganele. Hoje ela enfrenta um processo por dano, incitação ao crime, formação de quadrilha e facilitação de fuga por conta de sua luta em defesa dos jovens. Quem a processa é o governo de Geraldo Alckmin, por meio da Corregedoria da Fundação. Durante a gestão Alckmin, a Febem acumulou 170 rebeliões, mais de 3,5 mil fugas e assistiu à morte de 26 jovens e cinco funcionários.

Todas as CPIs engavetadas
Se a mídia paulista, tão rígida moralmente em relação ao governo Lula, fosse coerente exigiria fiscalização e CPIs, por exemplo, para os gastos com o Trecho Oeste do Rodoanel. O governo poderia fazer aditamentos ao contrato em até 25% do valor original, mas o custo da obra saiu 75% a mais. Isso é apenas um caso. Nos 12 anos de governo tucano-pefelista em São Paulo, tudo que deveria ser investigado ficou sob o tapete, exatamente ao contrário do que Alckmin exige em relação aos casos envolvendo o governo federal. Nenhuma CPI para 800 processos no Tribunal de Contas do Estado só na gestão Alckmin.
Para conseguir barrar a investigação das denúncias, o então governador contou com maioria na Assembléia Legislativa. Uma das pistas de como essa base teria sido construída apareceu numa reportagem realizada à época da disputa entre e Serra e Alckmin – foi só naquele momento que a mídia comercial paulista expôs um pouco as mazelas do atual candidato a presidente. Na ocasião, a Folha de S.Paulo, cuja direção preferia Serra, trouxe reportagem mostrando que as estatais Nossa Caixa e Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) foram usadas para favorecer jornais, revistas e programas de rádio e televisão mantidos ou indicados por deputados da base aliada na Assembléia Legislativa. Um deles, Afanásio Jazadji (PFL), que não se reelegeu, assumiu que foi beneficiado em negociação comandada pelo próprio Alckmin para evitar a vitória de Rodrigo Garcia (PFL) na disputa da presidência da Mesa. O escândalo ficou conhecido por “mensalinho”, mas teve curta repercussão e não foi investigado.

E os amigos?
Num encontro festivo de uma estatal paulista, um deputado estadual do PSDB em conversa privada com este jornalista disse o que boa parte do tucanato paulista, principalmente ligado a José Serra, acha, fala, mas não permite que se publique. Segundo ele, Alckmin posa de santo, mas é a encarnação do demônio. Não atua de forma partidária, mas apenas com o seu grupo íntimo. Além de ter a péssima mania de não cumprir acordos (cuidado, Aécio Neves!), persegue de maneira cruel aqueles que não se submetem à sua tutela.
No exercício do cargo, Alckmin trouxe consigo sua ação ultraconservadora e também os “seus garotos”, como definiu o ex-presidente FHC quando ele tentou fazer de Saulo de Castro Abreu o candidato a prefeito do PSDB para enfrentar Marta Suplicy. Além de Saulo, o outro manda-chuva na sua gestão era Gabriel Chalita, católico conservador como Alckmin, cotado para ser ministro da Educação em um hipotético governo do tucano.
Chalita tem um currículo “invejável”. Com apenas 37 anos, já escreveu 39 livros. Destaque para o best-seller Seis lições de solidariedade com Dona Lu, obra baseada nos diários da primeira-dama paulista. “Conto que ela chorou praticamente um ano inteiro a morte da mãe”, revelou o secretário da Educação em uma entrevista à Veja São Paulo.
Chalita é ligado à rede católica conservadora Canção Nova. No governo do estado, ele teria operado junto a Alckmin a cessão de uma fazenda de 87 hectares – cerca de 54 vezes o parque Ibirapuera, um dos maiores parques de São Paulo –, em Lorena (a 188 km da capital paulista), à Canção Nova. A fazenda fora solicitada por pelo menos dois órgãos do próprio governo. O Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), que pretendia utilizar o local para reforma agrária, e a Faculdade de Engenharia Química de Lorena (Faenquil), vizinha à área, que pretendia ampliar seu campus. Mas o secretário de Educação tinha destino mais interessante para o latifúndio. Hoje, Chalita tem um programa de duas horas todas as quartas na emissora de TV da rede Canção Nova e um programa diário na rede de rádio. E Alckmin, como ele gosta de perguntar, será que não sabia de nada?



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