Não houve derrotados no campo progressista

Desempenho nas urnas trouxe avanços para os partidos de esquerda no país, apesar do bombardeio da mídia e da ameaça de avanço do projeto neoliberal Por Anselmo Massad  ...

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Desempenho nas urnas trouxe avanços para os partidos de esquerda no país, apesar do bombardeio da mídia e da ameaça de avanço do projeto neoliberal

Por Anselmo Massad

 

Os partidos identificados com o campo progressista,PT, PSB, PCdoB e PSoL, obtiveramcon¬quis¬tas importantes nas eleições de 1° de outubro. A manutenção da bancada e a vitória em alguns estados já constituem um passo importante, ainda mais tendo em vista o bombardeio da mídia ao governo Lula e ao PT e a projeção do discurso conservador – algo pouco usual desde a redemocratização. Com tudo isso, os partidos esquerdistas da base do governo Lula – PT, PSB e PCdoB – elegeram juntos 123 deputados, cinco governadores e cinco senadores. A coligação PSDB-PFL fez 130 deputados, mas o PFL foi o que mais perdeu deputados em relação à última eleição.
Como nos períodos anteriores, quem vencer no segundo turno presidencial dependerá do PMDB e de partidos menores, como PP, PTB, PL, PV e PPS, para garantir a dita governabilidade. Além dos partidos progressistas da base do governo, também disputaram com candidaturas nesse campo o Partido Democrático Trabalhista (PDT), com o senador Cristovam Buarque, e o Partido Socialismo e Liberdade (PSoL), com a senadora Heloísa Helena.
Criado por dissidentes do PT em 2005, o PSoL teve um desempenho aquém das expectativas, não conseguindo ultrapassar a cláusula de barreira e elegendo apenas três deputados: Chico Alencar, do Rio de Janeiro, Ivan Valente, em São Paulo, e Luciana Genro, no Rio Grande do Sul.
Durante a campanha, a candidata do PSoL à presidência defendeu a tese de que PT e PSDB eram iguais; no segundo turno, decidiu pela liberação de seus eleitores. “Eles são inteligentes o suficiente para tomar uma decisão”, afirmou. Plínio de Arruda Sampaio e Ivan Valente já emitem outros sinais. Ambos declararam ter claro que há muito mais proximidade com o projeto petista e que poderiam apoiar a candidatura de Lula a partir de uma plataforma programática mínima. Isso poderia colocar a senadora numa situação delicada dentro do partido, por conta da radicalização de sua postura. Cinco dias antes da votação, Chico Alencar chegou a defender que Heloísa Helena apontasse as “penas tucanas” nos escândalos de corrupção, já que ela só atacava os petistas nesse terreno.
Após a apuração, o deputado carioca garante que os 6,85% dos votos conquistados pela senadora mostram que ela é uma figura de projeção nacional fundamental para o partido, “apesar de sua atuação política passar a ficar mais restrita a partir de 2007, quando termina seu mandato no Senado e cessam os repasses do fundo partidário”. Mesmo com as dificuldades para o partido, ele descarta qualquer hipótese de abandonar o barco. “Em um primeiro momento, tudo fica como está, porque há necessidade de um partido como o nosso no país”, sustenta.

PSB ganha musculatura
No PSB, as 27 cadeiras conquistadas no Congresso, a vitória de Cid Gomes no Ceará e a ida de Eduardo Campos para o segundo turno, em Pernambuco, além da superação da cláusula de barreira, são motivos de sobra para comemoração. Mas, além disso, o crescimento do PSB se deu em relação à eleição passada sem que tivesse candidato próprio à presidência da República. Em 2002, o partido foi à disputa com Anthony Garotinho, que ajudou a alavancar os números eleitorais, mas lhe tirou parte da consistência programática.
Apesar da força nordestina, dois ex-prefeitos obtiveram expressivas votações para o Congresso em São Paulo: Márcio França, de São Vicente, com 215 mil votos e Luiza Erundina, de São Paulo, que bate em 195 mil votos. Outro nome que desponta como liderança regional do PSB é Renato Casagrande, deputado federal no Espírito Santo, que se elegeu senador com uma votação consagradora contra o ex-governador do estado Max Mauro. Casagrande teve o dobro dos votos do concorrente e já é apontado como nome forte para a sucessão no governo do estado em 2010, quando o atual governador Paulo Hartung não poderá concorrer.
Luiza Erundina considera que a posição adquirida pelo partido é importante, porque o coloca em condições de influir na política nacional de uma forma mais decisiva. Ela defende mais autonomia, especialmente em relação ao PT, com projeto de poder próprio para ser capaz de crescer, inclusive numa eventual fusão com o PCdoB, que não ultrapassou a cláusula de barreira. “Temos uma proximidade ideológica e acredito que podemos construir uma legenda com identidade e projeto político de consenso”, sustenta.

Comunistas vão à luta
No PCdoB, não há entusiasmo quando o assunto é uma confederação de partidos. A prioridade é se organizar para enfrentar e tentar reverter as limitações da cláusula de barreira em 2007, quando se dará o debate sobre uma reforma política. Segundo Altamiro Borges, membro do Comitê Central do Partido, a direção não trabalhava com a hipótese de preencher 5% dos votos totais do país, além de 2% em um terço dos estados. Ele acha que o ideal seria que uma ou outra exigência fosse cumprida para o reconhecimento legal. O PCdoB, que já havia conseguido 2% dos votos em nove estados para o Congresso em 2002, também superou esse item nesta eleição.
As principais derrotas do partido, porém, ocorreram em São Paulo, onde só elegeu um deputado federal e ficou sem estadual; e no Rio de Janeiro, onde Jandira Feghalli, favorita ao Senado, foi derrotada nos últimos dias por conta de ataques sofridos por setores da Igreja Católica. Há denúncias de que no sábado, antes das eleições, milhares de mensagens com o seguinte conteúdo “igrejas e ONGs pedem que eleitores não votem em Jandira Feghali por o candidata pregar o (sic) não existência de Deus e defender o aborto” foram enviadas para celulares das empresas Tim e Oi.
Por outro lado, os comunistas obtiveram duas importantes conquistas, uma no Nordeste e outra no Sul. Depois de 61 anos sem eleger um senador, desde a eleição de Luís Carlos Prestes, em 1945, Inácio Arruda venceu a disputa no Ceará. Outro avanço foi a chegada ao cenário nacional de Manuela D’Ávila que, aos 25 anos, obteve a maior votação do Rio Grande do Sul para a Câmara Federal, 271 mil votos.
Manuela foi eleita vereadora de Porto Alegre em 2004 e conseguiu mobilizar militantes jovens e de movimentos estudantis. Ela admite que sua campanha trabalhava com a perspectiva de 100 mil votos e que se surpreendeu com o resultado. “Desde a eleição para vereadora, sentia que havia espaço para renovação no nosso campo político, com propostas mais amplas e envolvendo outros setores”, avalia.
Para ela, a vitória consagra a visão de que a política pode ser feita de um modo novo, alegre, e traduzida para a juventude. Além do voto jovem, avalia-se que ela foi capaz de catalisar parte significativa do eleitorado de classe média que não abriu mão de votar em candidatos no espectro das esquerdas, mas que não quis votar no PT. Aliás, sem os votos de Manu, a bancada petista teria se restringido a cinco deputados, três a menos do que os oito eleitos.



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