O arco-íris ganha a cidade

Os participantes da Parada Gay em São Paulo mostraram que o respeito às diferenças ganha força na sociedade, mas ainda é preciso muito para acabar com o preconceito Por Marco Frenette  ...

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Os participantes da Parada Gay em São Paulo mostraram que o respeito às diferenças ganha força na sociedade, mas ainda é preciso muito para acabar com o preconceito

Por Marco Frenette

 

Em boa parte do mundo, a força e amplitude dos movimentos homossexuais afligem, cada vez mais e salutarmente, os setores conservadores da sociedade. No Brasil, a mais recente e forte demonstração aconteceu no dia 17 de junho, na avenida Paulista, em São Paulo, com a 10.ª Parada do Orgulho Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros (GLBT), cujo tema foi “Homofobia É Crime. Direitos Sexuais São Direitos Humanos”. Um mar de gente dançando e se divertindo pacificamente ao som de música eletrônica, enquanto casais homossexuais de mãos dadas trocavam beijos e carícias mais ou menos voluptuosos.
A parada iconoclasta teve público recorde de 2,2 milhões de pessoas, superando o 1,8 milhão de 2005; e o 1,5 milhão de 2004. “É a terceira vez que venho. É um carnaval pacífico, divertido, onde podemos nos expressar livremente e mostrar a força do movimento gay”, afirmou Susana Peixoto, uma garota de 18 anos da zona norte de São Paulo, que, entre uma declaração e outra, beijava sua namorada, Carla Pienova, de 20 anos. “O ideal é que, no futuro, essa liberação se estenda por toda a sociedade, e seja algo possível de ser feito todos os dias, sem repressão ou escândalo”, completou Pienova.
Ninguém sabe se esse futuro chegará, mas os avanços são evidentes. A primeira parada gay de São Paulo foi em 1997, com o tema “Somos Muitos, Estamos em todas as Profissões”, e reuniu apenas 2 mil pessoas, que se divertiram ao som de uma caixa instalada precariamente sobre uma perua. A de 2000, com o tema “Celebrando o Orgulho de Viver a Diversidade”, já reunia 120 mil pessoas. A de 2002, com o mote “Educando para a Diversidade”, juntou 500 mil. Em 2003, com o tema “Construindo Políticas Homossexuais”, finalmente atingiu a marca de 1 milhão de participantes.
Atualmente, acontecem paradas gays nos quatro cantos do país. A de Juiz de Fora, em Minas Gerais, reúne 50 mil pessoas, enquanto em Salvador são 300 mil. A carioca, em Copacabana, aglutina 1 milhão de gays e simpatizantes; em Cabo Frio, são 8 mil; em Niterói, na Orla de Icaraí, 30 mil. Goiânia tem 20 mil; Belém, 60 mil. Brasília, em frente à Esplanada dos Ministérios, 20 mil pessoas. Essas manifestações não se restringiram às cidades maiores. A pequena Saubara, no Recôncavo Baiano, teve no ano passado sua primeira Parada, com apoio do prefeito Antonio Araújo (PTB), que fez questão de sair às ruas junto com a manifestação. Dos 10 mil habitantes, 1.500 foram dançar e apoiar a causa homossexual em praça pública.
Paralelamente a essa exposição festiva e massiva do orgulho gay, correm os esforços políticos. Uma dessas ações é a aprovação do projeto de lei 5003, de 2001, da deputada federal Iara Bernardi (PT/SP), que criminaliza a homofobia em todo o país. Recentemente, até o PSDB abriu espaço e lançou o núcleo Diversidade Tucana. Agora, são cinco partidos políticos no Brasil com núcleos específicos para defender os direitos dos homossexuais: PT, PSDB, PSOL, PPS e PSTU.
Na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, tramita um projeto de lei para a criação da primeira delegacia especializada no atendimento a homossexuais. A proposta recebeu parecer favorável nas comissões de segurança e orçamento, mas, sinal da reação, ganhou uma emenda para troca de nome para “Delegacia de Atendimento a Minorias”. O projeto é da deputada federal Alice Tamborindeguy (PSDB-RJ), da Frente Parlamentar pela Livre Expressão Sexual. Com isso, se espera diminuir a violência contra homossexuais. É uma proposta que ainda precisa passar pela Câmara e ser sancionada pela governadora Rosinha, que não dificilmente apoiaria a proposta.
Se no Legislativo as coisas emperram, em instâncias inferiores há mais agilidade. “De 2001 para cá, aumentou significativamente o número de concessão de direitos a casais homossexuais, tais como patrimoniais e de pensão”, garante Anna Paula Uziel, professora de psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisadora do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam). “E também há um número maior de juízes concedendo a adoção, mesmo sabendo tratar-se de um casal homossexual.”
Uziel explica um dos motivos pelos quais os legisladores mal se mexem quando se trata de interesses gays. “A bancada evangélica é muito forte, e o maior medo deles e dos setores mais conservadores da sociedade é a constituição de família por parte dos homossexuais. Afinal, a família tradicional é o grande bastião dos conservadores – e, uma vez que o casal gay adquire plenos direitos em sua união, o próximo passo pode ser a adoção de uma criança.” O casamento de pessoas do mesmo sexo, com pleno reconhecimento de seus direitos e sem nenhuma diferença perante os outros cidadãos, já existe em quatro países: Canadá, Holanda, Bélgica e Espanha.

Referências
Um grande aliado da liberação gay é a internet. Não se trata das páginas voltadas para o sexo – que não constituem novidade –, mas de uma infinidade de sites dedicados à militância, discussões e cultura GLBT. “São os sites que me ajudaram, e ainda me ajudam, a ter orgulho do que eu sou”, diz Felipe Arruda, um jovem estudante de 17 anos, que veio com os amigos de Ribeirão Preto/SP especialmente para a Parada do Orgulho GLBT em São Paulo. Ele cita sites como o Vivendo a Diversidade (www.tadashihp.net), com temas como o ativismo gay e políticas públicas, e o Estou Feliz Assim (www.estoufelizassim.hpg.ig.com.br), especializado em troca de informações e experiências. “Muito mais do que em livros ou conversas com psicólogos, são nesses lugares virtuais que eu encontro as coisas que preciso saber”, diz Arruda.
Mas para quem gosta de ler, o mercado editorial nacional já oferece centenas de títulos afins. Paula Rodrigues, de 40 anos, que curtia a Parada ao lado de sua namorada, Silvia, de 23 anos, levava em sua bolsa o livro Baladas para Meninas Perdidas, um título do selo Edições GLS, da Editora Summus. A autora, Vange Leonel, retrata a cena clubber de jovens lésbicas. Já Silvia disse que tinha acabado de ler Longa Carta para Mila, do mesmo selo, onde Andréa Ormond escreve:
Agora olhava fixamente para a boca de Paula, uma boca carnuda e feminina como a minha, que se aproximava cada vez mais e mais… Pôs a mão delicadamente na minha nuca, com os dedos entre os meus cabelos, e me puxou. Nossas línguas se encontraram e se procuraram de novo. Era o melhor gosto que eu já sentira na vida.

Paciência para mudar
A psicóloga Iris Simone Franco, diretora da Unidade de Atendimento ao Bebê (Infans), que atende famílias de diversas classes sociais em São Paulo, afirma que a sociedade brasileira vive um período de transição. “Exteriormente, a sociedade demonstra avanços, como as Paradas gays e as casas noturnas liberais. Mas dentro da família ainda existe uma moral antiga muito preservada. Os pais têm uma visão idealizada daquilo que é bom para os filhos, e se chocam quando a realidade não corresponde à essa visão de mundo. Os pais precisam de um alto grau de flexibilidade psíquica para aceitarem essas mudanças, pois vieram de um mundo sem respeito à diversidade. É preciso paciência, respeito e insistência com as gerações mais antigas, para mostrar que a vida é movimento, e não estagnação”, diz Simone.
Um exemplo desse trabalho conscientizador é o da professora e escritora Edith Modesto. Ela fundou, em 1997, o primeiro Grupo de Pais de Homossexuais do Brasil, um fórum de discussão na internet: “Quando soube que meu filho era homossexual, eu própria precisei lidar com essa realidade nova para mim, e o grupo de discussão veio ao encontro dessa minha necessidade”. Até então, ela acreditava que o acúmulo de conhecimento estava diretamente ligado à diminuição dos preconceitos: “Com esse grupo, vi que estava enganada. Temos mães cultas e poliglotas que se revelam extremamente preconceituosas, e têm um longo caminho a percorrer até a aceitação da diversidade. Curiosamente, algumas mães de origem social mais simples, e de menos formação, são mais liberais. Nessa questão, é impossível trabalhar com generalizações”.
Mais uma vez, a Parada gay se mostra um espelho dessa diversidade. Na avenida Paulista, chamava a atenção as misturas de classes sociais. Os namorados Saulo e Ricardo, dois jovens negros, vieram da periferia da zona sul para a festa e se divertiam ao lado de Carlos Vieira e Celso, dois sarados garotões dos Jardins. “Claro que onde eu moro, no Capão Redondo, a gente não tem essa liberdade. Para me divertir em paz, preciso vir para a região central e freqüentar a vida noturna daqui”, diz Ricardo, de mãos dadas com Saulo.
Edith Modesto, que também é autora do livro Vidas em Arco-Íris – Depoimentos sobre a Homossexualidade, da Editora Record, onde reuniu depoimentos de gays de ambos os sexos para reformular o conceito de homossexualidade, constata que há uma maior aceitação da diversidade em todos os níveis da sociedade. Mas ela não crê que algum dia o preconceito desapareça: “A homossexualidade é um mistério, e tudo o que é desconhecido assusta as pessoas. Isso faz parte do ser humano”.
Se não a extinção, pelo menos a minimização do preconceito deverá passar pela educação formal. Recentemente, o professor e vereador paulista Carlos Giannazi (PSOL), em entrevista ao site gay Mix Brasil (http://mixbrasil.uol.com.br), fez um balanço da situação nas escolas brasileiras no tocante à discussão da homossexualidade: “É uma questão oculta, não trabalhada. O professor não tem formação sobre isso e vem com seus preconceitos, especialmente os religiosos. As universidades, as secretarias de educação e o MEC deveriam dar mais valor à diversidade sexual e levar o tema para ser discutido com os professores”.
A necessidade de um maior ativismo gay voltado para a educação é corroborada por uma pesquisa do Clam e do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec/Universidade Cândido Mendes), aplicada durante a Parada Gay de São Paulo do ano passado. Ela revelou um percentual altíssimo (72,1%) de pessoas que afirmaram ter sido discriminadas pela sua opção sexual. Um terço afirmou que as situações de marginalização ou exclusão ocorreram na escola ou na faculdade (32,6%). A mesma pesquisa aplicada em outras Paradas gays, como a do Rio de Janeiro e a de Porto Alegre/RS, revelou percentuais semelhantes.
Do mesmo modo que as Paradas gays brasileiras inspiraram-se na de São Francisco, virão dos Estados Unidos exemplos maiores de respeito à diversidade – o mesmo país, contraditoriamente, que tem um presidente como Bush, que propôs uma emenda constitucional que define o casamento como uma instituição exclusivamente heterossexual. Por lá, a temática pró-homossexual já está presente até na literatura infantil; e isso desde a década de 1990, quando surgiram livros como Daddy’s Roommate (O Companheiro de Papai), de Michael Willhoite, que conta a história de um menino que conhece o namorado de seu pai, e vê os dois dormindo na mesma cama.
Mas há títulos mais recentes e saborosos, como And Tango Makes Three (Com Tango, Somos Três), escrito pelo psiquiatra Justin Richardson e por seu parceiro, o dramaturgo Peter Parnell. Dedicado a crianças de 4 a 8 anos, o livro é baseado numa história real ocorrida no zoológico do Central Park, onde dois pingüins machos dispensaram suas fêmeas e chocaram um ovo abandonado, formando com a filhote uma família não-convencional. Duramente criticado pelos conservadores, Richardson argumenta que o livro ajuda a criança a aceitar a diversidade. “Atualmente, há mais de 3 milhões de casais gays com filhos adotivos nos EUA. Essas crianças precisam se orgulhar de suas famílias”. A literatura gay infantil já está presente em países como Suécia, Alemanha, Dinamarca, Holanda, Espanha e Bélgica.

Dificuldades de ser homossexual
Segundo a Internacional Lesbian and Gay Association (ILGA), em cerca de 80 países o homossexualismo ainda é crime. Em lugares como o Afeganistão, o Irã e o Paquistão, a prática homossexual é passível de prisão e pena de morte. Em Gâmbia, Etiópia e Tanzânia, a lei prevê penas de dez anos para as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Em Cuba e Egito, embora não haja legislação específica, o homossexualismo é fortemente reprimido.
Se há lugares difíceis para um homossexual viver, nenhum é absolutamente fácil. Ao final da Parada Gay em São Paulo, centenas de jovens e adultos foram se dispersando pelas artérias da região central. Bastava olhar para os rostos dos casais para notar que, quanto mais se distanciavam do local da manifestação, mais seus rostos se contraíam. Temerosos de continuar de mãos dadas, trocavam a alegria pela tensão. Era a volta ao clima de normalidade da cidade. Uma normalidade que ainda está longe de ser a deles. F



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1 comment

  1. Luisa Responder

    Vim ler essa matéria só agora, bem mais tarde, uma vez que vi que os EUA não foram incluídos na lista de países que legalizaram o casamento gay, Achei fantástica a matéria, tendo só uma resalva. Bem no final, em ‘dificuldades de ser homossexual‘, é citada a palavra ‘homossexualismo‘. Deviam ter se atentado para isso, uma vez que palavra com terminação em ‘ismo‘ indica doença. O certo seria homossexualidade ou homoafetividade. Fica a dica para correção.


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