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Religiosidade, marketing, internet. Como funciona e o que vale de fato para se chegar ao cargo de presidente da maior potência do planeta Por Anselmo Massad  ...

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Religiosidade, marketing, internet. Como funciona e o que vale de fato para se chegar ao cargo de presidente da maior potência do planeta

Por Anselmo Massad

 

Muito antes de se concluírem as disputas internas dos dois partidos majoritários do país para definir os candidatos à sucessão do republicano George W. Bush, desde 2001 no cargo, a campanha presidencial nos EUA corre a todo vapor. Devido à antecipação do calendário de prévias e primárias de alguns dos 51 estados – e da falta de assunto para encher páginas e grades de telejornal nos primeiros dias do ano – o noticiário sobre o embate ganhou mais atenção do que em anos anteriores.
O modelo do processo eleitoral norte-americano é muito diferente do brasileiro. Referência em voto distrital e em bipartidarismo, o voto nos Estados Unidos mantém as principais características desde a constituição de 1776. Quem elege o presidente são os 536 delegados do colégio eleitoral, eleitos pela população. A origem desse modelo, segundo a versão mais comumente aceita por historiadores, é de que os constitucionalistas temiam o risco de manipulação do povo por um tirano. A solução encontrada foi a da escolha mediada por delegados eleitos em cada estado.
Ainda que o número de delegados seja proporcional à população, esse voto indireto para presidência permite que o candidato que teve mais votos não seja o eleito. Foi o que aconteceu em 2000, quando o democrata Al Gore, então vice de Bill Clinton, teve 544 mil votos a mais do que Bush, que foi conduzido à Casa Branca com cinco dos 537 colégios eleitorais a mais do que o concorrente. Outras disputas apertadas em termos de número de votos total, como a vitória de John F. Kennedy sobre Richard Nixon, em 1960, por 120 mil votos, representou 84 delegados a mais.

Laico, porém carola

 Em 1976, o pastor W. A. Criswell aparecia em uma assembléia de sua igreja, quando relatava ter ido à Casa Branca em uma reunião de “homens de boa-fé”. Lá, perguntou ao presidente, então candidato, o que ele faria se a revista Playboy lhe pedisse uma entrevista. “O presidente respondeu: ‘A Playboy me pediu uma entrevista, e eu neguei com um enfático não’. E eu gostei disso!”. O candidato era o republicano Gerald Ford, em 1976 e a cena descrita era uma propaganda de televisão. Ford seria derrotado pelo democrata Jimmy Carter, mas a peça mostra que a religiosidade é um forte elemento nas disputas eleitorais norte-americanas há algum tempo.
Para Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a importância da religião vem crescendo, ainda que o eleitorado cristão sempre tenha sido procurado com base no apoio de personalidades. Para ela, foi a partir da eleição de 1980 que o tema passou a ser prioritário. Tanto o derrotado Jimmy Carter quanto o republicano Ronald Reagan, então ex-ator e ex-governador da Califórnia, digladiaram-se sobre o discurso de recuperação dos valores da “verdadeira América”, um revival depois de uma década que acumulou a derrocada da Guerra do Vietnã e o Watergate. [Hiperlink: O caso que levaria a um processo de impeachment de Richard Nixon e a sua renúncia do cargo, em 1974, começou com uma descoberta, a partir de uma denúncia anônima, de invasão e roubo de uma das sedes dos democratas no Complexo Watergate, na capital do país. A partir da investigação de dois jornalistas do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein. O episódio teve ainda a participação do “Garganta Profunda”, a fonte ligada aos republicanos que assegurava que o presidente Nixon sabia do esquema de escutas telefônicas e espionagem de documentos dos democratas.]
A segunda escalada da religião ao discurso eleitoral foi visto na campanha de George W. Bush, depois de uma trégua nas duas vitórias de Bill Clinton. “Os neoconservadores vão para eleição de Bush filho tomar a frente dos debates”, conta a professora Pecequilo. “Se externamente a linha é a do endurecimento da política internacional, internamente é ‘conservadorismo com compaixão’, diante dos escândalos de Clinton, para conquistar os eleitores de centro-direita e a direita conservadora cristã”, sustenta.
O fato de Bush se apresentar em 2004 como homem de fé transfere o centro do debate para questões como o aborto, direitos civis e até o ensino religioso nas escolas. O republicano Mike Huckabee, por exemplo, defende este ano que se ensine a criação do mundo conforme a Bíblia, em detrimento da teoria de Evolução de Charles Darwin. Do democrata Mubarack Obama ao republicano John MacCain, a atuação em igrejas batistas ou protestantes é colocada logo no início de suas biografias oficiais. Quando não são pastores nem ativos em comunidades religiosas, a saída é mostrar apoios entre reverendos e lideranças com ascendência no segmento.

Novos rumos no marquetês
Nem só de religião vivem as eleições americanas. Questões como economia, sistema público de saúde e política externa têm maior ou menor importância conforme o cenário. A divisão clássica – e até simplista – coloca os republicanos como conservadores, defensores de cortes de impostos e firmeza nas relações internacionais, enquanto os democratas priorizam a seguridade social e se identificam com minorias. Mas os dois principais partidos abrigam um espectro diverso de ideologias. Por exemplo, o termo “liberal”, associado aos democratas, pode significar intervenção mínima do Estado na economia e também posições sociais progressistas.
A transformação de um candidato em produto a ser “vendido” sofreu diversas mudanças no decorrer da história. Seja em panfletos, na televisão ou na internet, a discussão passa pelo financiamento de campanha (ver box). Sem horário eleitoral gratuito como ocorre no Brasil, os candidatos precisam, além dos recursos para produzir o material de propaganda, comprar seus espaços nas redes de TV, nos jornais etc.
A mudança mais recente é a internet. Segundo Marcelo Coutinho Lima, pesquisador do Centro de Altos Estudos de Propaganda e Marketing da ESPM e diretor do Ibope Inteligência, em 1996, 4% dos eleitores usaram a rede mundial de computadores para se informar sobre os candidatos. Em 2004, foram 29%. “Pesquisas recentes apontaram que 40% dos eleitores das primárias acessaram a homepage de um dos candidatos, e ainda há muita água para rolar sob a ponte durante a eleição”, avisa.
Para ele, blogues, podcasts e redes de relacionamento [hiperlink: Enquanto no Brasil a principal rede de relações é o Orkut, nos Estados Unidos o MySpace.com é o mais usado. Os blogues e programas de rádio na internet são bastante populares, a ponto de os candidatos oferecerem selos para que os blogueiros manifestem seu apoio.] são o começo de mudanças mais profundas no cenário eleitoral. “O discurso político sempre foi monopólio dos políticos e dos jornalistas. Com a internet, isso se altera, os eleitores podem reinterpretar e reelaborar as informações com suas próprias versões.” Ele ressalta que é muito cedo para apontar a direção para onde vão essas mudanças, mas elas são mais claras para o eleitorado de até 30 anos. “Não adianta fazer santinho eleitoral, mas oferecer instrumentos de divulgação e convencimento para os eleitores fazerem campanha”, explica.
O aumento das fontes de informação também explica o surgimento de uma onda de páginas ligadas a jornais que se propõem a verificar a veracidade das afirmações de candidatos, propagandas, notícias e até de correntes de e-mail. Bill Adair, editor do Politifact.com lembra que a proposta do trabalho é ajudar o eleitor a saber se o que os candidatos falam é verdade ou não. Ligado ao St. Pitersburg Times, a página criou o “Truth-o-meter”, um medidor do grau de veracidade de uma afirmação, dividido em quatro níveis: verdade, majoritariamente verdade, meia-verdade, quase verdade, falso e “pants on fire”, algo como “calças em chamas”, expressão usada nos Estados Unidos para se referir aos grandes mentirosos.
Por mais que o nível da campanha possa descer bastante, as apelações não seriam exatamente uma novidade. Coutinho Lima lembra do caso Michael Dukakis, democrata, ex-governador de Massachussetts. O filho de imigrantes gregos, adversário de George Bush pai em 1988, tinha como um dos pontos fracos um episódio envolvendo Willie Horton, um negro que cumpria pena de prisão perpétua por homicídio. Solto em um final de semana dentro de um programa de liberdade assistida, cometeu um assalto a mão armada e um estupro. Bastou para o Comitê de Ação Política de Segurança produzisse e veiculasse um comercial narrando o caso. Bush, que havia citado o caso diversas vezes, até em debates, negou ter relação com a peça, mas tampouco quis rechaçar a iniciativa.
Em meio à disputa dura, em que se gasta até três vezes mais nas primárias em relação às eleições propriamente ditas [hiperlink: Em 2004, o presidente Bush captou US$ 270 milhões para as primárias e recebeu US$ 75 milhões de recursos públicos para a eleição geral. O senador John Kerry, seu adversário final, ficou logo atrás, arrecadando US$ 235 milhões para as primárias e recebendo os mesmos US$ 75 milhões para a eleição geral.], o resto do mundo assiste a definição do dono da caneta mais pesada disponível para um chefe-de-Estado. F

Nada simples As eleições norte-americanas começam por uma extensa programação de prévias ou primárias, a depender do estado, e termina em uma votação de delegados eleitos para definir o presidente pelos quatro anos seguintes. As regras do jogo variam a cada estado, independentemente do que quiser o partido.

Prévias e primárias
Democratas e republicanos trabalham atualmente com o mesmo tipo de processo para a indicação. As convenções nacionais ocorrem desde 1832, mas as primárias e prévias (ou caucus) foram criadas apenas no século XX. Inicialmente criadas como mecanismo de solução de disputas políticas, esse processo se converteu em trampolim para se divulgar nacionalmente os nomes dos candidatos.
Nas prévias, são definidos locais onde os membros dos partidos se reúnem para eleger delegados que escolhem os candidatos. Neste ano, em Las Vegas, por exemplo, em vez de escolas e igrejas, a sede das reuniões foram cassinos. Nas primárias, os participantes apontam o nome do candidato preferido diretamente. Em alguns estados, votam apenas os registrados no partido. Em outros, qualquer eleitor pode participar, mas apenas da convenção de um dos partidos. Há um terceiro tipo de primária, em que se pode influir na definição dos candidatos de ambos os partidos.
Desde 1968, nove estados do sul passaram a realizar suas etapas de escolha dos candidatos no mesmo dia, a Super-Terça-Feira. O intuito era o de fortalecer os interesses da região, mas o caráter sulista se diluiu com o passar do tempo. Neste ano, no dia 5 de fevereiro, foram 22 prévias e primárias para os democratas e 19 para os republicanos, da Califórnia a Nova York, passando pelo Alasca.
Cada uma dessas etapas estabelece milhares de delegados democratas e republicanos, distribuídos de acordo com o tamanho da população. No caso dos democratas, há ainda os superdelegados ou “não-indicados”, quer dizer, lideranças do partido que têm direito à voto na convenção nacional pelo cargo que ocupam ou ocuparam.
Ao vencedor da convenção nacional cabe o direito de indicar seu vice. É comum a escolha de um concorrente na corrida presidencial, como fez John Kerry em 2004 ao escolher John Edwards.

Financiamento Tanto na disputa interna dos partidos quanto na nacional é preciso levantar recursos. O financiamento público está em crise no país, já que, apesar de oferecido aos candidatos, vem sendo recusado pelos principais candidatos desde 2000. George W. Bush foi o primeiro a dispensar o apoio oficial desde 1976, quando foi criado. Isso porque, ao aceitá-lo, o candidato se compromete a não ultrapassar um limite definido pela autoridade eleitoral. Quem pode obter mais doações do que esse teto não tem motivos para aceitar.
A arrecadação privada também tem suas normas. Cada contribuinte individualmente pode doar US$ 2.300 a cada eleição. Pessoas e empresas podem, no entanto, formar comitês registrados com capacidade de doar US$ 5.000. As primárias são contabilizadas separadamente da disputa nacional, quer dizer, é possível doar esses valores duas vezes ao mesmo candidato em etapas diferentes da corrida.

Internet
Desde 2004, o uso da internet vem ganhando proporções maiores. Naquele ano, o democrata Howard Dean teve seus primeiros passos como indicado em trocas de e-mail. Todos os pré-candidatos de ambos partidos mantém páginas na internet, blogues, vídeos disponíveis em páginas como o YouTube!, e até redes de relacionamento próprias. A diferença para outros países: 71% dos americanos adultos têm acesso à internet, sendo que a maior parte deles o faz com banda larga (50%), segundo dados da Pew Internet and American Life Project. O detalhe é que, como o voto é facultativo, há mais internautas do que eleitores de fato – 180 milhões contra 110 milhões, conforme a expectativa de comparecimento às urnas este ano. F

Leia mais http://livingroomcandidate.movingimage.us – Página em inglês mantida pelo Museu da Imagem de Nova York conta com propagandas de TV das campanhas presidenciais americanas desde 1952 até 2004. Todos têm transcrição. As peças podem ser vistas por ano, tipo e tema.
www.youtube.com/youchoose – Canal da página de vídeos na internet YouTube! com para os candidatos. Além de propagandas de apresentação de cada um, há vídeos sobre temas chave da corrida.
www.politifact.com/truth-o-meter e www.factcheck.org – Páginas que checam fatos e declarações de candidatos e de mensagens na internet.

Enquanto isso, em 2228
Em disputa, a presidência dos Estados Unidos. Os candidatos: uma mulher e um negro. Nada de Hillary Clinton nem de Barack Obama, mas do cenário criado pelo escritor Monteiro Lobato em 1926, em um romance publicado originalmente como folhetim em 20 capítulos no jornal carioca A Manhã. A trama de O Choque das Raças ou O Presidente Negro narrava eventos de 2228, acessados por um “porviroscópio”, instrumento criado por um cientista brasileiro para enxergar o futuro.
O panorama do criador do Sítio do Pica-pau Amarelo incluía a transmissão de notícias dispostas “em caracteres luminosos num quadro mural existente em todas as casas”, quase a internet.
Os partidos são o Masculino, que concorre com um branco; o Feminino, com uma bela candidata também de pele alva; e o negro, que vence. No final, para conter a derrota, os brancos estabeleceriam um processo de eugenia de esterilização dos negros, disfarçado de alisamento de cabelo. Para alguns comentaristas, nada de tom irônico, mas pinceladas de idéias racistas e até nazistas



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