O galego pacificador

Se Jaques derrotou o carlismo, não foi só porque estavam dadas todas as condições para que isso acontecesse Por Renato Rovai   Se Jaques derrotou o carlismo,...

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Se Jaques derrotou o carlismo, não foi só porque estavam dadas todas as condições para que isso acontecesse

Por Renato Rovai

 

Se Jaques derrotou o carlismo, não foi só porque estavam dadas todas as condições para que isso acontecesse. É tão equivocado dizer isso, que num desses rega-bofes dos endinheirados, na ilha de Comandatuba, ainda nas preliminares da eleição, o dono do Ibope Carlos Montenegro afirmou para os convivas que três reeleições eram favas contadas: a de Paulo Hartung, no Espírito Santo, a de Aécio Neves, em Minas, e a de Paulo Souto, na Bahia.
Mas antes de falar de Wagner, vamos deixá-lo falar do Ibope: “Eu creio que os resultados foram apresentados de uma forma venal e não por um equívoco de metodologia. Isso é um crime do ponto de vista republicano. A reincidência é indicativa de penalidade. Em 2002 me atribuíram 18% na disputa e, abertas as urnas, obtive 38,5%. Agora em 2006, me deram 34% e eu tive 52,8%. A diferença é que dessa vez consegui ganhar a eleição. O Ibope errou pela segunda vez em quase 20 pontos percentuais e deve uma explicação à população. Há sinais de fraude eleitoral e o TSE tem que investigar”.
Até pela indignação comedida, comparada à estupenda armação patrocinada pelo Instituto de Montenegro, dá para perceber um pouco do jeitão Jaques Wagner. O presidente Lula o trata por “galego”, sempre acompanhado do adjetivo pacificador. E foi esse o estilo que lhe fez subir na cotação do presidente.
Quando Lula o convidou para ser ministro do Trabalho, ao assumir o governo, houve quem considerasse o gesto como só de gratidão. Afinal, desde que se conheceram, Wagner ainda líder sindical petroleiro, em Camaçari, no início dos anos 1980, ele e Lula compartilham uma relação afável, não apenas no campo político. E, como candidato a governador na Bahia, Wagner garantiu a Lula um palanque importante para que vencesse em 2002.
Mas, a gestão do baiano (por adoção, pois é carioca de nascimento) foi questionada por diferentes setores do movimento sindical e na primeira reforma ministerial Lula o chamou ao seu gabinete e pediu-lhe o cargo, oferecendo-lhe a coordenação do Conselho Econômico e Social. Parecia prêmio de consolação. E talvez fosse.
Mesmo contrariado, o carioca-baiano disse que aceitaria, mas só se pudesse participar do núcleo central do governo, à época formado por Luiz Gushiken, José Dirceu, Luiz Dulci e Aldo Rebelo. Lula fechou.
Quando a crise do mensalão estourou, Wagner estava ali. E assumiu toda a coordenação política do governo com a saída de Dirceu e a eleição de Aldo para a presidência da Câmara. O baiano mostrou naquele período por que Lula o considerava bom de política. Seu desempenho foi excepcional. E quando já nadava de braçadas na função, decidiu que era hora de sair.
Comunicou o fato a Lula, alegando que aos 55 anos considerava que era hora de tentar de novo o governo do seu estado, mesmo tendo de enfrentar um adversário forte. Em pouco tempo, articulou uma aliança que parecia impossível para disputar uma eleição que parecia perdida. Nove partidos o apoiaram: PT, PCdoB, PMDB, PTB, PSB, PMN, PPS, PV e PRB. E ainda teve a força de parcela significativa do PDT, incluindo o prefeito de Salvador, João Henrique. “Isso garantiu uma vitória muito importante porque a Bahia era um dos estados mais conservadores da política nacional”, sustenta.
Wagner, que já exerceu três mandatos como deputado federal, conhece bem o jogo político. Sabe, por exemplo, que mesmo tendo perdido o governo, o carlismo ainda controla os meios de comunicação regionais e mantém boa relação com certos grupos nacionais que levam a “erros”, como os cometidos pelo Ibope.
Para ter uma idéia da influência do PFL do acarajé fora dos limites da Bahia, busque na revista Veja denúncias contra ACM e seu grupo e tente se lembrar de quantas matérias assistiu na TV Globo tratando a turma de forma negativa.
Não será apenas na Assembléia Legislativa que o galego terá de enfrentar oposição. A experiência de gente que já viveu isso, como Waldir Pires, Lídice da Matta e mesmo o prefeito João Henrique, serão importantes, mas pelo currículo que tem, o pacificador parece que vai saber lidar com o esquema carlista. Veja só o que ele disse após a vitória: “Eu creio que ela se deve menos a um julgamento do atual governador Paulo Souto e mais a um julgamento desse sistema político do qual ele faz parte, que foi criado pelo senador Antônio Carlos Magalhães”. Parece já estar trabalhando para rachar a turma.



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