O golpe furado

Pesquisa acadêmica revela como a revista Veja – principal semanário de informação do Brasil – orquestrou uma campanha frustrada para derrubar Lula da presidência da República Por Fábio Jammal Makhoul...

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Pesquisa acadêmica revela como a revista Veja – principal semanário de informação do Brasil – orquestrou uma campanha frustrada para derrubar Lula da presidência da República

Por Fábio Jammal Makhoul

 

Veja não esteve sozinha no front de batalha da chamada grande imprensa contra o governo Lula em seu primeiro mandato. Mas o voluntarismo e engajamento da publicação da editora Abril, sobretudo em 2005 e 2006, a transformaram em protagonista desta jornada e motivaram um sem-número de pesquisas entre os estudiosos da mídia. Entre elas, esta que originalmente foi produzida como minha dissertação de Mestrado em Ciências Sociais, em fase de conclusão, na PUC-SP, sob orientação da professora Vera Chaia.

A pesquisa abrange todas as 204 edições da revista veiculadas entre janeiro de 2003 e dezembro de 2006, período que corresponde ao primeiro mandato do presidente Lula.

Nestes quatro anos, o semanário produziu 622 reportagens sobre o governo. Só os escândalos do primeiro mandato ocuparam 40,5% do noticiá­rio dedicado ao Planalto, com 252 matérias. Em 2005, o ano em que o governo mais esteve exposto, o número de reportagens dedicadas aos escândalos atingiu 61,6% do noticiário (122 das 198 reportagens). A gestão de Lula esteve na capa de Veja por 54 vezes entre 2003 e 2006, o que significa mais de um quarto das edições do período. Delas, 32 tratavam dos escândalos, ou 59,3% do total.

Outras 18 não abordavam os escândalos, mas mostravam o governo de forma francamente negativa. Apenas quatro eram neutras, nenhuma positiva. Em 2005, o semanário chegou a publicar 18 capas consecutivas contrárias ao governo, entre as edições de 25 de maio e 21 de setembro, o que representa quatro meses de puro bombardeio. Em 2006, ano da reeleição, a revista publicou sete capas negativas para o PT entre março e junho. E, em pleno período eleitoral, veiculou mais cinco capas péssimas para o governo, entre 23 de agosto e 25 de outubro. Isto quer dizer que as capas de metade das edições de Veja que circularam enquanto as eleições se definiam eram ruins para Lula. Geraldo Alckmin (PSDB), seu principal adversário, não apareceu negativamente em nenhuma capa da publicação neste período. Além de constatar que o governo Lula foi destacado de forma negativa em praticamente todas as reportagens dedicadas ao Planalto, esta pesquisa procurou identificar que imagem a revista passou de Lula e do PT durante o primeiro mandato presidencial. Por meio da Análise de Discurso, uma área de estudo muito utilizada nas Ciências Sociais, é possível perceber que o enunciador de Veja (aquele que escreve) procura se caracterizar como um ser engajado, com uma suposta sabedoria dos meandros do poder. Fiscalizador, ele é capaz de dizer ao leitor com todas as letras que Lula e o PT são péssimos para o país e que precisam ser trocados imediatamente. Para dizer isso, Veja abriu mão de provas e dispensou o contraditório.

Em meio a um festival de insultos e “furos” mal apurados, a revista pediu o impeachment de Lula e defendeu abertamente o fim do PT. A seguir, alguns pontos da cobertura de Veja nos primeiros quatro anos do governo Lula. Uma verdadeira novela, que até por isso será apresentada em capítulos.

Capítulo 1 – O caso Waldomiro Diniz

13 meses após a posse, em fevereiro de 2004, o governo Lula enfrenta sua primeira grande crise, com o caso Waldomiro Diniz. O então subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil é flagrado cobrando propina do agenciador de casas de jogo Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira. O episódio acontecera antes do governo Lula, em 2002, quando Waldomiro presidia a empresa de loterias estaduais do Rio de Janeiro, a Loterj. Mas isso não era destacado.

Logo na primeira matéria sobre o caso, na edição de 18 de fevereiro de 2004, a revista preferiu culpar o PT e questionar a “imagem de ser um partido acima do bem e do mal”. Outra estratégia para afetar a imagem de Lula também é iniciada no caso Waldomiro Diniz: a de comparar o presidente petista com o deposto Fernando Collor de Mello.

Desde o início do escândalo, a publicação defendeu a instalação de uma CPI para apurar o caso, como requeria a oposição, mas se posicionava contrariamente à proposta do PT de que a CPI fosse ampla e investigasse também o governo anterior do PSDB. Aliás, em se tratando de governo, Veja já anunciava o fim daquela gestão logo no seu início:

“Passaram-se apenas 15 meses da apoteótica posse do primeiro presidente de origem popular no Brasil. Faltam outros 33 meses, pelo menos, para Lula descer a rampa ou conquistar um segundo mandato nas urnas. Mas os ares em torno do Palácio do Planalto tinham na semana passada algo de fim de governo” (24/03/2004).

Capítulo 2 – Meirelles, vampiros e as Farc

No mesmo ano de 2004, Veja explorou outros três escândalos envolvendo integrantes do governo. O primeiro foi com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e seu suposto problema com o fisco. O caso rendeu capa, mesmo a revista admitindo que a matéria não mostrava “nenhum ilícito fiscal”. A capa de 11 de agosto de 2004 é praticamente uma charge do presidente do Banco Central afundando, com água até o pescoço. Em letras garrafais, o enunciador pergunta: “Tem salvação?”. Questão que, unida à imagem, leva o leitor a responder que não, embora até hoje, três anos e meio depois, Meirelles ainda esteja no cargo.

Ainda em 2004, houve o caso da “máfia dos vampiros”. A Polícia Federal descobriu uma gangue que agia havia 14 anos no setor de compras e sugou R$ 2 bilhões do Ministério da Saúde. Sobreviveu a 12 ministros e foi desmantelada na ação batizada de Operação Vampiro, da PF, que prendeu 14 pessoas entre empresários, lobistas e funcionários do ministério. Embora o caso tenha passado por diversos governos, o foco das críticas da revista foi o PT, apesar da quadrilha ter sido desmantelada pela Polícia Federal comandada por Lula.

Logo no início de 2005, a publicação literalmente “inventou” um furo. O “escândalo” foi noticiado pela primeira vez na capa da edição de 16 de março de 2005. Com a chamada “Tentáculos das Farc no Brasil”, a revista diz em letras menores que “espiões da Abin gravaram representantes da narcoguerrilha colombiana anunciando doação de 5 milhões de dólares para candidatos petistas na campanha de 2002”.

Embora Veja tenha considerado a reportagem forte o suficiente para ser a capa da edição, no corpo da matéria o enunciador por três vezes ressalva que as acusações não comprovavam nada. “A revista não encontrou elementos consistentes para que se faça uma afirmação sobre esse aspecto [que o PT tenha recebido o dinheiro das Farc]”.

Capítulo 3 – O início do “mensalão”

Uma matéria veiculada pela publicação da Abril na edição do dia 18 de maio de 2005 seria o estopim da pior crise política enfrentada por Lula em seu primeiro mandato. Ali, trechos de uma gravação mostram o servidor Maurício Marinho, ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios, recebendo propina de R$ 3 mil. Marinho diz também que o padrinho político do suposto esquema de corrupção é o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ).

Como reação, Jefferson dá uma “bombástica” entrevista para a Folha de S.Paulo. Na edição de 15 de junho de 2005, a revista aposta que o caminho para tirar Lula do Planalto é provar que ele tinha conhecimento de todo o esquema denunciado pelo parlamentar, que envolvia o tesoureiro do seu partido, Delúbio Soares.

“A pergunta inevitável é se Lula sabia das traficâncias do tesoureiro do PT. Antes mesmo que se tenha uma resposta sem rodeios a essa pergunta, o simples fato de a dúvida existir já atinge o presidente. Lula começou seu governo sendo comparado ao americano Franklin Roosevelt, presidente que venceu a II Guerra Mundial e tirou seu país da depressão econômica. Terá sorte se sair dele com a avaliação de que, pelo menos, foi diferente de Fernando Collor” (15/06/2005).

Para provar sua tese, Veja não ouve fontes, e, quando o faz, resume as declarações em poucas frases, encaixadas no enquadre pré-construído da revista. Assim como no caso Waldomiro Diniz, defende a abertura de uma CPI de imediato: “Felizmente, ao contrário do que muita gente quer fazer crer, as investigações feitas por CPIs produzem bons resultados práticos. Uma delas, fortemente calcada em reportagens de Veja, resultou até mesmo na destituição de um governo corrupto, comandado pelo então presidente Fernando Collor. Veja se une à sociedade brasileira na esperança de que a CPI dos Correios também seja lembrada como uma bem-sucedida faxina ética” (15/06/2005).

Capítulo 4 – O novo Fernando Collor

As comparações entre Lula e Collor estão em praticamente todas as edições da publicação naquele período. A revista chega a dizer que Lula é pior que Collor e faz sua mais incisiva comparação entre os dois com a capa de 10 de agosto.

Veja ainda tentou, antes do pedido de impeachment, a possibilidade de se “articular uma saída honrosa para (o petista) desistir da reeleição. O caminho seria aprovar com o apoio dos tucanos uma emenda constitucional eliminando essa alternativa” (13/07/2005). Mas como essa possibilidade precisava da anuência de Lula, que não parecia inclinado a aceitá-la, a revista destaca o impeachment na edição de 17 de agosto:

Quem passasse aquela semana por uma banca de revista, de longe, só avistava essa palavra em letras garrafais e destacadas em amarelo sobre a imagem de um presidente desanimado. Além da capa, a temida palavra é usada no editorial e em várias matérias, sempre com destaque.

Capítulo 5 – O dinheiro de Cuba

Apesar da campanha, a crise se dissipa e o momento para pedir a abertura do impeachment fica para trás. Veja, entretanto, não desiste do seu objetivo e, quando o caso parecia caminhar para o fim, a revista trata de esquentar o escândalo com mais uma “denúncia”. Na edição de 2 de novembro, o semanário “revela outra fonte externa de dinheiro da campanha do PT em 2002. A origem dos recursos agora é Cuba, e as evidências são ainda mais convincentes do que as documentadas pela Abin no caso das Farc”.

A matéria, baseava-se exclusivamente em duas entrevistas: com Rogério Buratti e Vladimir Poleto, homens ligados ao ministro da Fazenda, Antônio Palocci, quando ele ainda era prefeito de Ribeirão Preto (SP). Entre as muitas falhas de apuração, nem mesmo a quantia doada por Cuba ao PT a revista sabia precisar. Mas o enunciador destaca nos títulos, olhos e legendas o maior valor “apurado”.

E por que Veja noticia uma denúncia grave como aquela sem comprovação, baseada unicamente em suspeitas? O enunciador explica: “caso as investigações oficiais confirmem que o PT recebeu dinheiro de Cuba, e o partido venha a ter o registro cancelado, o cenário político brasileiro será varrido por um Katrina: isso porque os petistas, sem partido, não poderiam se candidatar na eleição de 2006. Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva” (02/11/2005).

Capítulo 6 – O fim do PT

O semanário já havia, antes dessa matéria, anunciado com todas as letras o fim do partido. “É possível que a passagem do PT pelo cenário político brasileiro, portanto, nem sequer deixe um legado digno de respeito. Pelo contrário: é mais provável que os livros de história se dediquem a contar às futuras gerações o efeito deletério da oposição petista na última década, quando o partido tentou barrar propostas fundamentais para a modernização do Estado brasileiro – como a quebra do monopólio das telecomunicações e a reforma da Previdência –, apenas para retomá-las a partir do primeiro minuto do governo Lula (…). Felizmente, esse petismo de resultados tem encontro marcado na lata de lixo da história com outras experiências reais do ideário marxista” (17/08/2005).

Veja também já havia apostado que o partido não duraria mais cinco anos, “se é que o PT durará tanto”. E afirma que àquela altura, “as perspectivas para as eleições de 2006 são, na mais otimista das hipóteses, dramáticas”. Convicto de sua análise, o enunciador conclui que para a direção do partido “restará pouco mais do que a melancólica missão de administrar uma massa falida”. Para a publicação, se o Partido dos Trabalhadores não acabar, no “cenário menos desastroso – estima-se que a legenda encolherá de maneira substancial, passando a contar com cerca de 10% a 15% do eleitorado. Não é muito – é uma taxa que quase coincide com a prevalência de outro mal endêmico do Brasil, o analfabetismo (10%)” (21/09/2005).

A associação do petismo com o baixo nível educacional, tanto de dirigentes como de seus eleitores, não era propriamente novidade. “O PT deixou o Brasil mais burro?”, estampava a capa de 26 de janeiro de 2005.

Capítulo 7 – A capa da idade errada

Na edição de 16 de agosto de 2006, Veja decide levar à capa uma explicação para a reeleição de Lula, que contrariaria suas análises anteriores. Gilmara Cerqueira foi a “modelo” da edição. A manchete: “Ela pode decidir a eleição”. Na chamada de capa o texto era: “Nordestina, 27 anos, educação média, 45 reais por mês, Gilmara Cerqueira retrata o eleitor que será o fiel da balança em outubro”.

Na capa, Gilmara segura o título de eleitor. Sua idade era revelada pela data de nascimento possível de ser verificada pela foto: 01/12/1975. Ou seja, na época ela tinha 30 anos. E o “erro” era reiterado no interior da revista: “uma baiana de 27 anos, separada e mãe de três crianças. Ela vive em Irará, cidade a 145 km de Salvador, numa casa de taipa, com chão de terra batida e paredes encardidas. Divide o teto com seus filhos, sua mãe, um irmão e uma cunhada”. Talvez esse “erro” possa sintetizar o nível do jornalismo feito por Veja durante o primeiro mandato de Lula. F



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