O lado gerente de Guevara

Tirso Saenz, que foi vice-ministro de Che em Cuba, mostra uma faceta pouco conhecida do personagem que ficou marcado pela imagem de guerrilheiro idealista: sua capacidade de planejar a construção de um país Por Leonardo...

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Tirso Saenz, que foi vice-ministro de Che em Cuba, mostra uma faceta pouco conhecida do personagem que ficou marcado pela imagem de guerrilheiro idealista: sua capacidade de planejar a construção de um país

Por Leonardo Fuhrmann

 

Ao falar de Che Guevara, o engenheiro cubano Tirso Saenz não costuma destacar o jovem que viajou de moto pela América do Sul ou que se juntou aos revolucionários cubanos no México para batalhar em Sierra Maestra e derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista. Tampouco conta histórias da guerrilha no Congo e na Bolívia. Saenz lembra os tempos em que Guevara era ministro do governo cubano e mostra como o pensamento do guerrilheiro argentino se transformava em prática de gestão pública.
Mas o próprio Che dizia que não queria morrer como um burocrata e saiu de Cuba para internacionalizar a revolução. Em seu livro O ministro Che Guevara – testemunho de um colaborador (Editora Garamond), Saenz apresenta um homem que mostrava como deveria ser a revolução a partir de seu exemplo, com grandes doses de trabalho voluntário. Apresenta ainda as idéias e a maneira de agir de Guevara como representante do poder Executivo.
Saenz foi vice-ministro de Che na pasta de Indústria e, em seguida, vice-ministro para o Desenvolvimento Técnico. Vive no Brasil há dez anos, atualmente como pesquisador-associado do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília (UnB), e tem uma visão muito particular de tudo que aconteceu em Cuba a partir de 1959. Formado em uma faculdade estadunidense e trabalhando em uma subsidiária de uma grande empresa daquele país, resolveu continuar em Cuba quase que por acaso e, apesar de não ter uma afinidade ideológica inicial com os guerrilheiros, acabou se tornando um importante colaborador do novo regime.

Confira a entrevista a seguir.

Fórum – Como o senhor vê hoje o que significou a Revolução Cubana? Tirso Saenz – Até hoje a Revolução Cubana deixa marcas em todos os moradores do país. De cara, já dava para perceber que as pessoas que tomaram o poder não eram simples golpistas. Era um momento de uma revolução de base popular, com um imenso apoio do povo. As pessoas – entre elas, eu – começaram a ver que aqueles jovens revolucionários mudaram realmente a forma como Cuba era governada. Tinham uma preocupação de mudar o país, para melhorar a vida do povo. A diferença é que vimos uma mudança intensa, feita por pessoas desinteressadas no poder e no dinheiro. Antes deles, Havana e Guantánamo eram só prostituição e cassinos, regiões dominadas pela máfia.

Fórum – Como foi esse período de mudanças?
Saenz – Acabamos com o analfabetismo com uma campanha que começou em 1961. Jovens com uniformes de brigadistas carregavam livros e iam para o campo para trabalhar e alfabetizar os camponeses. Alguns deles foram assassinados pelos contra-revolucionários, mas o povo conseguiu conquistar um progresso educacional incrível naquele período. Esse esforço permitiu que as pessoas dessem um grande pulo em sua formação cultural. Atualmente, 18% da força laboral cubana tem nível universitário. As faculdades estão nos municípios e são cursadas inclusive pela terceira idade. Tenho um amigo que é doutor em Ciência e está aposentado. Agora, ele cursa Economia.

Fórum – À época, quais eram os maiores desafios?
Saenz – Educação, cultura e saúde pública foram prioridades desde o início. Como conto em meu livro, enfrentamos logo no começo da Revolução uma grande fuga de cérebros. Algumas das pessoas mais preparadas de Cuba deixaram o país rumo, principalmente, aos Estados Unidos (no livro, Tirso narra que só não deixou Cuba por causa da arrogância do funcionário que o recebeu na embaixada dos Estados Unidos em seu país). Hoje, Cuba tem 75 mil médicos e tem um dos maiores índices de médicos por habitante do mundo.

Fórum – Qual é a mudança cultural em Cuba após a Revolução? Saenz – Acho que é o sentimento de solidariedade, que se mostra principalmente nos momentos mais difíceis. Uma vez por mês, os moradores do quarteirão se reúnem para varrê-lo. Além disso, tratam de ajudar uns aos outros no que for necessário.

Fórum – Como isso se mostra na política internacional?
Saenz – Um exemplo importante foi o que aconteceu em Angola. Tivemos durante uma época mais de 200 mil combatentes naquele país, a maioria de pessoas que não fazia parte do exército nacional, regular. O próprio ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela reconheceu que sem a ajuda dos cubanos o apartheid continuaria sendo o que era e teria até mesmo se espalhado pelos países vizinhos. E Cuba não tem empresas nem terras em Angola e Moçambique. Não foram interesses econômicos e sim humanitários que nos levaram para lá.

Fórum – Qual foi o momento mais difícil?
Saenz – Foi a queda do socialismo em diversos países. Todos os analistas internacionais imaginavam que aconteceria o mesmo com Cuba, que era apenas uma questão de tempo. Mas Cuba teve oportunidade de mostrar que sua história era diferente, que os nossos líderes eram pessoas próximas ao povo, que agiam com transparência e dedicação. Tive a possibilidade de ser vice-ministro e trabalhar nas comissões de meio ambiente e nuclear. Mas se você for a Cuba e falar com um taxista, ele participou de grandes obras ou esteve em Angola. Essa é a diferença, em Cuba todas as pessoas têm história.

Fórum – O que existe na Cuba de hoje que é fruto do trabalho do ministro Che Guevara? Saenz – Vamos fazer uma análise. Não se podia esperar decisões e uma análise precisa de pessoas que não tinham uma experiência industrial. Havia uma intenção, uma vontade muito grande. A tecnologia que era transferida pelos países socialistas não era muito avançada (no livro, Saenz destaca também problemas com a mudança de sistemas de medidas, padrões e com equipamentos pouco adaptados à temperatura e umidade de um país caribenho). Não podíamos usar tecnologia estadunidense e tínhamos muitas dificuldades para comprar equipamentos da França e da Inglaterra, por exemplo. Tínhamos um país sem indústria mecânica e siderúrgica, que eram fundamentais. Lógico que algumas idéias não deram certo, pois foram superdimensionadas, como o projeto de construir embarcações.

Fórum – E o que teve bons resultados?
Saenz – O processo de eletrificação é um orgulho. Em 1959, praticamente só existia energia elétrica na região de Havana, agora está por 95% do país. Conseguimos desenvolver a exploração do níquel e criamos um processo muito sério de busca de recursos naturais. Qualificamos os trabalhadores. A informática avança rapidamente, apesar das nossas dificuldades de acesso às fibras óticas. Gosto sempre de lembrar que o Che foi o nosso professor no ministério, quando foi realizado o primeiro curso de informática. Os avanços na biotecnologia começaram com investimentos daquela época na indústria química.

Fórum – E no que um ministro sem conhecimento técnico foi importante neste processo de industrialização?
Saenz – Considero que a importância estava em seu pensamento, na visão estratégica e integral da situação. Ele não se preocupava apenas em resolver os problemas imediatos, mas em construir soluções para o futuro. O trabalho do Che não era só dele, se desenvolvia em equipe. A discussão era uma constante. Ele se reunia com especialistas importantes de Cuba, do Chile, da Argentina, da União Soviética, de países do Leste Europeu e debatia sobre estratégias para o desenvolvimento. A preocupação social com o emprego, com o ensino e o treinamento já estavam presentes também. Havia um grande sentimento de responsabilidade.

Fórum – Essa preocupação estratégica continua presente?
Saenz – A preocupação estrutural que existe hoje é fruto das preocupações que estavam presentes desde o início. No começo dos anos 60, Fidel fez um discurso em que dizia que o futuro era da ciência e do pensamento. Antes, havia apenas dois centros de pesquisa no país inteiro. Desenvolveu-se uma política de criar centros de pesquisa vinculados às faculdades, trazer especialistas estrangeiros e mandar jovens estudantes para se aperfeiçoar no exterior.

Fórum – Como o senhor vê a imagem de Che Guevara que existe hoje fora de Cuba? Saenz – Infelizmente, a mídia transmite uma visão muito distorcida. Criou um guerrilheiro que deu sua vida por um ideal, um sonho romântico. Tenho uma visão de alguém que trabalhou com ele e o vejo como um homem que trabalhou para construir um país. Vejo ele em algumas passagens do filme Diários de Motocicleta (de 2004, dirigido pelo brasileiro Walter Salles), porque era daquele jeito mesmo, tímido, introvertido. Mas o que me chamava a atenção é que ele era sempre muito sincero. Não era sempre agradável por conta disso. Ele chegava a dizer que fazia muitas reuniões para que os companheiros “o bombardeassem” nelas.

Fórum – O senhor não gosta também daquela famosa foto de Che Guevara, feita por Alberto Korda, celebrizada no mundo inteiro. Por quê? Saenz – Aquela imagem é do enterro de companheiros que foram mortos em um ato de sabotagem. Ele estava muito abalado com o que aconteceu e essa foto revela muito bem aquele momento. Mas não tem muito a ver com a imagem que tenho do Che. Ele era alguém que dava grandes demonstrações de amizades e era bem-humorado. Conto no livro uma brincadeira que ele fez comigo uma vez. Recebemos um técnico importante da Tchecoslováquia para uma reunião. Como estava acostumado do tempo em que trabalhei na subsidiária cubana da Procter & Gamble, passei em casa e coloquei um terno. Na hora da recepção, todos meus colegas estavam em roupas de brigadistas e riam de mim. Quando Che apresentou o convidado a todos, perguntaram a ele por que eu estava vestido daquele jeito. Che brincou e respondeu que era porque eu era o representante da burguesia local no ministério.

Fórum – “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”?
Saenz – Acho muito curiosa essa frase, porque eu e muitas outras pessoas que conviveram com o Che nunca o ouvimos pronunciá-la. E olha que é a frase mais famosa dele no Brasil. Acredito que um brasileiro inventou a frase e a atribuiu ao Che. Mas é uma frase muito boa, que eu acho que ele poderia ter dito. Além de ter um senso de humor refinado, era uma pessoa terna mesmo nos momentos mais difíceis. A sua viúva, Aleida March, conta que ele costumava recitar poemas para ela. E antes de sair de Cuba para participar das guerrilhas no Congo e na Bolívia (onde foi assassinado em outubro de 1967), Che gravou duas fitas em que recitava poemas para ela. Imagine um homem que se prepara para ir para guerra e é capaz de pensar em poesias para sua amada antes de partir.



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