O novo governo já está em disputa

Movimentos sociais debateram durante toda a campanha como deveriam proceder num novo mandato. Os partidos políticos aliados calcularam todos os seus passos só pensando nisso. A oposição que venceu mira em 2010 Por  ...

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Movimentos sociais debateram durante toda a campanha como deveriam proceder num novo mandato. Os partidos políticos aliados calcularam todos os seus passos só pensando nisso. A oposição que venceu mira em 2010

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Após um primeiro governo que, embora bem-sucedido, enfrentou uma grande crise derivada justamente da relação com outras forças políticas, o presidente Lula tem como grande desafio em seu segundo mandato equilibrar os diversos setores que lhe dão sustentação e garantiram a sua reeleição. Para isso, há dois pontos fundamentais: o relacionamento com o Congresso Nacional e o aprofundamento do diálogo com os movimentos sociais.
“As negociações vão depender muito da capacidade do presidente em liderar o processo político. Ele precisa sair da defensiva e fazer com que o Congresso comece a deliberar imediatamente, já articulando as eleições para as presidências da Câmara e do Senado”, explica o analista político Antônio Augusto Queiroz, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que publicou uma lista dos prováveis 100 deputados que exercerão maior influência na próxima legislatura. “Em um primeiro momento, o panorama desses líderes está favorável ao governo”, assegura.
A parcela do Congresso que determinou uma das maiores derrotas do governo na eleição para presidente da Câmara quando da vitória de Severino Cavalcanti, o chamado “baixo clero”, deve exercer um papel menos importante a partir do próximo ano. “A força central deles se dissolveu e agora a negociação passará pelos caciques dos partidos”, acredita Queiroz. “No PP, sem Severino, o diálogo terá que ser feito com Paulo Maluf (SP); no PTB, Múcio Monteiro (PE) e Armando Monteiro (PE) devem encabeçar esse processo e, dentro da nova legenda (fusão do PL, Prona e PTdoB), o Partido Republicano (PR), Waldemar da Costa Neto deve continuar no comando, mas com menos poder do que antes”.
Para consolidar uma maioria que lhe permita uma situação mais confortável no segundo mandato, Lula deve ceder mais espaço para o PMDB. “Precisa haver um equilíbrio maior entre as forças que governam e as que dão sustentação ao governo. Algumas forças estão sub-representadas, como o PMDB”, esclarece o presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP), sinalizando que o peso da agremiação deve aumentar no segundo mandato. “É preciso tentar trazer o partido inteiro”, assegura. Os entendimentos já avançam e, de acordo com o jornalista Franklin Martins, das 15 seções mais importantes do partido, dez são favoráveis a uma aliança com Lula. Setores antes refratários ao presidente passaram a apoiá-lo, como é o caso de Geddel Vieira Lima, à frente da seção baiana, e de Jader Barbalho, no Pará. Maioria na Câmara, os peemedebistas podem obter também a maioria no Senado com o ingresso de parlamentares que hoje são de outros partidos.
Se a base governista se fortaleceu, também a oposição perdeu força nessas eleições. As bancadas de PSDB e PFL diminuíram: o primeiro elegeu 75 deputados em 2002 e agora ficou com 65; os pefelistas conseguiram 84 parlamentares naquele ano e agora minguaram para 65. E podem perder mais até janeiro, caso se repita o que aconteceu entre a eleição de 2002 e a posse em 2003, quando o PFL perdeu oito e o PSDB, sete deputados. Figuras de proa sofreram grandes derrotas ou sequer saíram para a disputa. É o caso do senador Jorge Bornhausen, que não pôde ver concretizado o sonho de se ver “livre dessa raça”, e do deputado (e presidente do PPS) Roberto Freire, que preferiu ser suplente de senador de Jarbas Vasconcelos. Sem falar em ACM, que xingou Lula de ladrão (ao ser comparado a um hamster) e viu a Bahia eleger o petista Jaques Wagner em primeiro turno.
Outros, como o senador Arthur Virgilio, sofreram revezes que devem levar a uma nova reflexão sobre o tipo de combate exercido no primeiro mandato. O tucano ficou em terceiro lugar na disputa pelo governo do Amazonas, amargando 5,11% dos votos no estado.
Virgilio reconhece que o fato de ter feito críticas pesadas a Lula, chegando inclusive a ameaçar “dar uma surra” no presidente em discurso no Senado, lhe tirou votos. O Amazonas foi o estado em que Lula conseguiu sua maior vitória já no primeiro turno, alcançando 78% dos votos. “Claro que isso prejudicou, mas saí candidato para marcar posição e perder a eleição que eu podia, já que sou senador até 2010. Perdi a eleição, contrariando o Lula. Eu sou do meu partido, sou da minha turma e não tem conjuntura que faça mudar minha cabeça”, se defende.
Os interesses da oposição visando às próximas eleições presidenciais também podem contribuir para um segundo mandato de Lula menos turbulento politicamente. “O PSDB é um partido rachado. Para 2010, os interesses de Minas Gerais e São Paulo estão bem definidos, já que ambos têm candidatos que vislumbram a presidência”, destaca a cientista política da Universidade de Campinas (Unicamp) Raquel Meneguelo. “Não vejo a possibilidade do Tasso ou do FHC serem os possíveis articuladores nesse momento”, acredita.
“Agora a disputa é entre o Aécio e o Serra. Provavelmente, em 2010 teremos o PT, Serra ficará com os tucanos e Aécio, com o PMDB. Será uma disputa com três forças. Claro que estou especulando, mas há uma certa lógica”, explica o sociólogo Emir Sader. Há até mesmo quem aponte para a possibilidade do candidato derrotado Geraldo Alckmin migrar do PSDB para o PFL, tornando-se uma opção do partido para as próximas eleições. Ou ainda, numa articulação com Aécio Neves, caso Serra ganhe o PSDB, fazer um projeto que poderia ressuscitar a Aliança Democrática. Aécio indo para o PMDB e Alckmin para o PFL, para ser o vice numa chapa leite com café. Evidente que os movimentos do PMDB serão também definidos a partir do grau de aliança que o partido vier a fazer com Lula. E do sucesso deste novo mandato.

Movimentos sociais
Dentro da definição dos rumos do primeiro mandato, os movimentos sociais sem dúvida tiveram uma abertura maior, mas muitos interlocutores reclamam que a maior parte das suas demandas não foi atendida. Ainda assim, setores importantes como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE) desempenharam um papel fundamental em momentos agudos da crise política, posicionando-se ao lado do governo e contra o que eles denominaram de “golpismo”.
Durante o primeiro mandato, houve alguns avanços para ampliar o diálogo com a sociedade civil, criando-se canais de participação que não existiam. Foram criados novos conselhos em áreas como juventude, cidades, igualdade racial, mulheres e meio ambiente, e foram realizadas 39 conferências envolvendo 2 milhões de pessoas, debatendo políticas públicas. E os movimentos sociais também se organizaram para potencializar seu poder de pressão.
“Os movimentos sociais, durante o primeiro mandato, tiveram a iniciativa de criar a Coordenadoria de Movimentos Sociais (CMS) para manter a capacidade de mobilização e de crítica ao governo”, lembra Nalu Faria, da Marcha Mundial de Mulheres. “Por conta de divergências, a CMS não conseguiu manter todas as entidades. Algumas passaram a fazer oposição sistemática ao governo, o que acabou levando à criação, por exemplo, da Conlutas. Mas acho que a CMS conseguiu aglutinar a maior parte dos movimentos sociais e fizemos o debate crítico ao governo sem dispersar os esforços”, entende.
“O MST sempre se posicionou e apontou para os outros movimentos a necessidade de o governo realizar mudanças no modelo de país que temos. Na política econômica, foi mantido o mesmo modelo. Na reforma agrária, não se conseguiu fazer o que está no programa do partido e do governo. Houve algum avanço, mas a política econômica não permitiu uma mudança de fato”, critica José Batista de Oliveira, membro da Coordenação Nacional do MST.
Para Oliveira, um dos grandes erros cometidos durante o primeiro mandato foram as tentativas de concertação. “O governo disse que era possível conciliar a reforma agrária com a política econômica, mas no nosso entender não é”, pontua. “Parte do governo entendia que era possível conciliar os interesses dos banqueiros e do capital internacional com a mudança, mas acabou sendo engolido por eles. Eles vieram para cima, usaram o Congresso, os parlamentares, acuaram o governo com CPIs, e não se conseguiu avançar”, argumenta.
Agora, no segundo mandato, a expectativa é a de que possa haver uma relação mais intensa entre governo e movimentos sociais, ainda que, no plano da disputa do poder, forças como o agronegócio tentarão barrar avanços no âmbito da reforma agrária, por exemplo. “Esperamos mudanças, mas não criamos ilusões. Lula precisa deixar claro logo no começo o projeto que vai nortear o governo”, sustenta Oliveira, que faz uma autocrítica em relação ao papel desempenhado pelos movimentos. “Dos movimentos sociais, faltou pressionar para que o governo cumprisse o que estava no programa. Não adianta esperar que um presidente iluminado vá resolver todas as contradições do país”, comenta. “Mesmo nós precisamos fazer essa discussão do projeto, para apontar o caminho que queremos. Não vamos esperar sentados que as coisas aconteçam.”
Mesmo os mais críticos ao governo também aguardam uma mudança de rumo. “Em um segundo mandato, será a hora da verdade para os movimentos sociais. Não sei, dá a impressão de que o Lula pode atendê-los, mas essa parece ser uma das grandes incógnitas deste segundo mandato. Em 2002, ele também acenava e isso não quis dizer grande coisa”, argumenta o candidato derrotado ao governo de São Paulo, Plínio de Arruda Sampaio. Nalu Faria adverte: “não se pode afirmar com toda a certeza que um segundo mandato será mais à esquerda, mas alguma alteração vai ter que ocorrer. Senão, será aberta uma porta para contestações do movimento social e da população em geral”.
Agora, o governo e também o PT devem olhar com mais carinho para setores que lhes garantiram sustentação. “É imprescindível para a identidade do PT retomar as relações com os movimentos sociais. Esse governo conseguiu aprofundá-las, mas é preciso um avanço maior”, assegura Raquel Meneguelo. F

O mapa do Brasil é outro
Lula vence com enorme folga a eleição presidencial e amplia base de apoio nos estados
A vitória do presidente Lula é muito maior do que o mais otimista lulista poderia imaginar no início deste ano. O PT, por exemplo, que, imaginava-se, sairia completamente chamuscado das urnas, não sai menor do que em 2002. O partido elegeu cinco governadores, contra três nas últimas eleições, sendo que, agora, duas poderosas oligarquias foram derrotadas: o carlismo, na Bahia, e o grupo de Almir Gabriel, no Pará.
O PMDB sai como o maior partido, como se esperava, tanto no Congresso como nos estados. Elegeu sete governadores.
Mas teve uma derrota inesperada no Rio Grande do Sul, com Germano Rigotto. Dos sete peemedebistas eleitos, apenas dois estiveram com Geraldo Alckmin, André Puccinelli, Mato Grosso do Sul, e Luis Henrique, Santa Catarina, o que deverá facilitar a adesão do partido à base governista.
O PSDB, apesar do desastre da candidatura Alckmin no segundo turno, sai forte. Foi o segundo partido em governadores eleitos, seis. Sendo que três deles em estados importantes: São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O PFL, a outra ponta da coligação Alckmin, porém, sai humilhado das urnas. Elegeu um bom número de senadores, mas só fez o governo do Distrito Federal. Perdeu até no Maranhão, com Roseana Sarney, uma candidata que já estava escapando do partido antes mesmo das urnas serem abertas.
O PSB é a boa surpresa eleitoral. Sai forte, elegendo três governadores e todos no Nordeste, sendo que dois em estados importantes da região: Ceará e Pernambuco.
O PPS, que fez dois governadores, deve perder um já na próxima semana. O governador Blairo Maggi sai do partido por ter apoiado Lula no segundo turno. Em Rondônia, o PPS só tem o governo porque nenhum partido quer Ivo Cassol, tamanha a quadrilha a ele vinculada. Até Alckmin, para receber seu apoio, o fez de forma clandestina.
Dos eleitos, Lula, em princípio, já sai com apoio claro de 15 governadores: Amazonas, Eduardo Braga; Tocantins, Marcelo Miranda; Rio de Janeiro, Sérgio Cabral; Espírito Santo, Paulo Hartung; Paraná, Roberto Requião; Acre, Binho Marques; Bahia, Jaques Wagner; Piauí, Wellington Dias; Sergipe, Marcelo Deda; Pará, Ana Júlia Carepa; Ceará, Cid Gomes; Pernambuco, Eduardo Campos; Rio Grande do Norte, Vilma Faria; Amapá, Antônio Waldez Góes da Silva; Mato Grosso, Blairo Maggi.
Um que não pode entrar na conta porque Lula apoiou sua adversária, Jackson Lago, do Maranhão, contou com o apoio do PT local e em breve deve ter um encontro com o presidente para selar um acordo. Ainda há o tucano Teotonio Vilela Filho, de Alagoas, que teve o apoio de Renan Calheiros, do PMDB, e tem boa relação com o PT local.



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