O teatro dialético de Brecht

No dia 14 de agosto de 1956, o teatro e a literatura perderam um criador incansável. Mais do que importante autor teatral, escritor e diretor de 50 peças, Bertolt Brecht foi contista, co-editor da...

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No dia 14 de agosto de 1956, o teatro e a literatura perderam um criador incansável. Mais do que importante autor teatral, escritor e diretor de 50 peças, Bertolt Brecht foi contista, co-editor da publicação cultural russa Das Wort (A Palavra) e colaborador de diversas revistas de refugiados da Segunda Guerra Mundial.

Por Por Camila Claro e Eduardo Maretti

 

No dia 14 de agosto de 1956, o teatro e a literatura perderam um criador incansável. Mais do que importante autor teatral, escritor e diretor de 50 peças, Bertolt Brecht foi contista, co-editor da publicação cultural russa Das Wort (A Palavra) e colaborador de diversas revistas de refugiados da Segunda Guerra Mundial. Escreveu canções, diários de trabalho, ensaios, um roteiro de cinema com o cineasta Fritz Lang e até poesia. Traduziu em versos parte do Manifesto Comunista. Brecht sofreu um infarto aos 58 anos. Deixou inúmeros textos incompletos, entre eles o romance Os negócios do senhor Julio César e outros fragmentos, só recentemente descobertos.
Ugen Friedrich Bertolt Brecht nasceu em Augsburg (Alemanha), em 10 de fevereiro de 1898. Escreveu sua primeira peça, A Bíblia, na revista literária da escola aos 15 anos. A obra considerada inaugural de sua carreira é Baal, criada cinco anos depois, enquanto estudava medicina e prestava serviço militar como enfermeiro no hospital da cidade natal durante a Primeira Guerra Mundial. Baal só seria encenada em 1923, mas daí em diante Brecht alcançaria projeção rapidamente.
Exilado da Alemanha em 1933 por fazer oposição a Hitler, morou em diversos países da Europa. Foi perseguido não só pelos nazistas, como por anticomunistas e membros do movimento macarthista dos Estados Unidos. Só retornou à Alemanha em 1949, quando fundou com a atriz Helene Weigel, sua esposa, o Berliner Ensemble, grupo teatral que o acompanharia até o fim da vida.
O cinqüentenário da morte do dramaturgo é mote de alguns eventos no Brasil, com destaque para O Círculo de Giz Caucasiano, da Companhia do Latão (veja box). Na Alemanha, Brecht recebe homenagens em Augsburg, sua cidade natal, e será lembrado em um festival da própria Berliner Ensemble, que contará com mais de 80 atividades entre apresentações, palestras e oficinas. Aproveitando a ocasião, a editora Suhrkamp publica pela primeira vez as cartas trocadas entre Brecht e sua mulher, além de uma peça inédita, A Judite de Shimoda.

Ironia
O irônico é que, em um momento repleto de tantas homenagens, estatísticas da Associação de Teatro da Alemanha apontem que, entre as 20 peças mais representadas na Alemanha, Suíça e Áustria, não há nenhuma de Brecht. Já uma pesquisa da revista Bücher revelou que 42% dos alemães admitem nunca ter lido um só livro do autor. Outros 55% afirmaram que só o haviam lido na escola e apenas 2% disseram ter lido alguma de suas obras nos últimos dois anos.
Não se pode dizer, entretanto, que as peças de Bertolt Brecht sejam pouco encenadas no Brasil. A primeira montagem profissional foi realizada em 1958, no tea¬tro Maria Della Costa, em São Paulo (o texto era A Alma Boa de Setsuan). Desde então, inúmeros espetáculos colocaram em movimento idéias do dramaturgo alemão, ainda que indiretamente. O musical Ópera do Malandro, de Chico Buarque, inspirado na Ópera dos Três Vinténs; a montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, no Teatro Oficina (feita em 1967 por José Celso Martinez Corrêa), e a criação do Sistema Curinga, de Augusto Boal, inspirado no conceito de distanciamento, são exemplos da influência brechtiana no teatro nacional.
Na área editorial, a divulgação do trabalho do dramaturgo, de sua biografia e críticas a seu respeito é intensa. Já escreveram sobre ele ensaístas como Anatol Rosenfeld, Sábato Magaldi, Ingrid Koudela, Gerd Bornheim, Jacó Guinsburg, Antonio Pasta Jr. e Márcio Marciano. Seus tradutores formam igualmente um time de primeira linha, que inclui Manuel Bandeira (O Círculo de Giz Caucasiano), Fernando Peixoto (tradutor do Teatro Completo em 12 volumes), Christine Röhrig (O Declínio do Egoísta Johann Fatzer), Roberto Schwarz (A Santa Joana dos Matadouros), Paulo Cesar Souza e Geir Campos (Poemas e Canções), entre outros.

Dialética
A principal contribuição de Brecht foi ter criado recursos teatrais diferenciados, simultaneamente estéticos e políticos. Ele buscava elementos opostos aos utilizados no teatro aristotélico. Nas notas escritas para a Ópera dos Três Vinténs e Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny, critica o “teatro burguês”, que classifica como “teatro culinário”: o público compra emoções e estados de êxtase para satisfazer sua necessidade imediata de entretenimento.
Segundo Sérgio de Carvalho, da Companhia do Latão, diretor da peça O Círculo de Giz Caucasiano, “o teatro de Brecht une o conteúdo político e o experimentalismo formal, que não costumam andar juntos. É comum os autores que privilegiam uma visão política (o conteúdo) deixarem o experimentalismo (forma) de lado, e vice-versa. Brecht não, ele une as duas coisas, incorporando o materialismo dialético no texto”, analisa Carvalho. O diretor, que na montagem encenada no Rio utiliza o grupo Filhos da Mãe Terra, formado por crianças e adolescentes do Movimento dos Sem-Terra (MST), dá um exemplo de personagem-paradigma, o juiz Azdak, que incorpora essa tensão dialética: “é um personagem amoral, corrupto, que realiza justiça por vias tortas, uma figura contraditória, mas que gera movimento. Um corrupto que favorece os pobres, a marginalidade que reflete a luta de classes”.
Mas Brecht
é datado, co¬mo dizem alguns críticos? “A questão é mal colocada. Todo autor é datado”, diz José Fernando Azevedo, do grupo Teatro de Narradores e professor da Escola de Arte Dramática da USP. “Ler Brecht nos ajuda a entender como é possível interrogar o tempo presente. Ele é um modernista stricto sensu, para quem a experimentação formal é uma maneira de estar na história presente. Brecht nunca colocou em cena a utopia, mas tentou se interrogar sobre as condições que poderiam desencadear a transformação”, ensina Azevedo. Sérgio de Carvalho, em outras palavras, concorda: “Se datado for encarado como algo positivo, então Brecht é datado. Ele não é superado, porque exige um olhar histórico de quem vai ver sua obra no futuro. Sua leitura exige conhecimento histórico, exige que se olhe as datas de hoje e de ontem. É por isso um autor vivo”.
Bertolt Brecht acreditava em um teatro que pudesse “conciliar a preocupação artística com a preocupação política sem nunca submeter uma à outra, mas justamente encontrando um novo e surpreendente significado para ambas”. F

O dramaturgo e o Brasil atual
Sérgio de Carvalho, diretor da montagem de O Círculo de Giz Caucasiano (texto traduzido no Brasil por Manuel Bandeira), explica que a escolha da peça não é casual. “Primeiro, por ser um clássico; depois, por discutir a questão da terra. Acho o momento perfeito para essa encenação”, diz o dramaturgo.
As crianças e adolescentes do MST que participam do elenco são do assentamento Carlos Lamarca, de Sarapuí, no interior de São Paulo. “Essa montagem tem o objetivo de repensar o legado artístico de Bertolt Brecht em relação ao Brasil atual”, explica Carvalho.



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