O verdadeiro valor da educação

Atividade promovida no Fórum Social Mundial ratifica a necessidade de se combater o conceito de educação como mero instrumental de preparo para o mercado de trabalho. É preciso pensar além Por Glauco Faria  ...

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Atividade promovida no Fórum Social Mundial ratifica a necessidade de se combater o conceito de educação como mero instrumental de preparo para o mercado de trabalho. É preciso pensar além

Por Glauco Faria

 

Vivemos em um mundo com cada vez mais pessoas supostamente educadas, mas temos mais mortes e guerras. Daí me pergunto: para que serve a educação?” O questionamento não é de alguém que quer atacar ou subestimar o papel da educação para a formação das pessoas. Pelo contrário, o depoimento é justamente do relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Direito à Educação, Vernor Muñoz. Para ele, “a educação deve ser o elemento central do desenvolvimento, não só no sentido de maximização de recursos financeiros, mas sim como algo que possa estimular as potencialidades de cada um”.
O que Muñoz coloca é justamente a redução da importância da Educação a um mero instrumental técnico que, em geral, só serve como um índice quantitativo utilizado pelos governos para atestar a sua “eficiência” (outro termo em voga nas administrações públicas). “A educação não é competição, o êxito de uma pessoa não pode implicar o fracasso da outra. Quem não aprende, está condenado a morrer, e negar o direito à educação a uma pessoa significa condená-la à morte”, defende Muñoz. O relator da ONU participou do Dia de Mobilização e Ação Global do Fórum Social Mundial, na roda de conversa “A educação no mundo: um balanço”, atividade promovida pela Ação Educativa, Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação e Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
No que diz respeito ao Brasil, Carlos Ramiro, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), destacou que “aqui, o que se prioriza na educação é a quantidade, não a qualidade, é um ensino imediatista, domesticante. Por isso, o problema que temos que atacar na educação é o conceitual, se de fato o que se pretende é preparar, na escola pública, o jovem para o mercado de trabalho, com ocupações que têm remunerações baixas”, atacou. “Algumas instituições, como o Banco Mundial, falam que é necessário priorizar o ensino fundamental, em detrimento dos outros níveis de ensino, mas pergunte se foi isso que fizeram os países ricos”, questiona.
Para Fátima Silva, vice-presidente do Comitê Regional da Internacional da Educação para a América Latina, um dos principais interessados na elaboração e execução de políticas educacionais no Brasil, o professor, tem seu direito de opinar cerceado. “Os professores têm pouco participação nas mudanças que se fazem na área da pedagogia, feita mais nos gabinetes, muitas vezes com participação de instituições como o Banco Mundial, que financiam escolas”, assegura. “É necessário ir além da questão salarial, precisamos participar também da discussão dos rumos das políticas educacionais.”
Carlos Ramiro segue a mesma linha de Fátima Silva, mas observa a importância de se discutir de forma ampla e transparente a questão salarial, marginalizada pela grande imprensa. “Tentam impor que salário não é importante, o que os meios de comunicação repetem o tempo todo, e vem com a história de ‘sacerdócio’. Mas é claro que a baixa remuneração interfere na qualidade de ensino, já que o professor que ganha mal tem que ir atrás de uma segunda e terceira jornadas”, pondera.

Desigualdades
Um ponto importante destacado em relação à situação da educação no mundo foi a desigualdade em suas várias faces. “A discriminação social e a falta de oportunidades educativas também se produzem quando os estudantes se deparam com um entorno escolar insensível a seus direitos, suas necessidades e suas culturas, devido a um programa curricular que não considera a diversidade humana”, explica. “Existem fundamentos históricos suficientes para entender que boa parte da exclusão educacional tem sua base na estrutura da escola tradicional”, assegura.
Os Objetivos do Milênio estabelecidos pela ONU levam os países ao compromisso de combater a desigualdade, mas na prática, segundo o relator especial, diversos países não cumprem essas metas. Os dados não animam. “As opiniões mais conservadoras estimam que 80 milhões de meninos e meninas seguem sem ser escolarizados, 58 países não chegarão a universalizar a educação primária até 2015 e 72 países não conseguirão reduzir pela metade suas taxas de analfabetismo para o mesmo ano, tal como propõem os objetivos de Dacar”, destaca Muñoz. Ele aponta ainda um lado mais cruel dos números: a disparidade entre gêneros. “Vivemos em um mundo com 800 milhões de adultos que não sabem ler e escrever, nem realizar operações aritméticas básicas, e 64% dessas pessoas são mulheres.”
E essa desigualdade não se restringe apenas aos países menos desenvolvidos. “É uma perturbadora realidade que nenhum país tenha eliminado a diferença de gênero em todos os aspectos da vida social. Isso significa que essa desigualdade não é uma conseqüência mecânica da pobreza, já que também é amplamente documentada na América do Norte e na Europa, por exemplo, onde o problema persiste em relação ao acesso, o que afeta negativamente a educação das meninas e suas oportunidades de vida.” De acordo com o relator, 86 países correm o risco de não alcançar a paridade de gênero até 2015, enquanto outros 76 sequer terão alcançado a paridade na educação primária. Um claro sinal de que, por enquanto, a educação continua sendo um dado a mais nas planilhas dos burocratas.



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