Para lembrar Vandré

Um de seus trabalhos mais recentes é uma sonata para piano. Bela e triste, disse quem pôde ouvir Por Vitor Nuzzi   Santiago, Chile, final dos anos...

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Um de seus trabalhos mais recentes é uma sonata para piano. Bela e triste, disse quem pôde ouvir

Por Vitor Nuzzi

 

Santiago, Chile, final dos anos 60. O compositor Julio Navarro encontra um amigo brasileiro, que visitara um observatório. “Ele me disse: ‘Julio, nós, músicos, criadores, deveríamos ter o mesmo respeito que o astrônomo tem quando lhe dão 10 ou 20 minutos de silêncio total para olhar as estrelas’”. Eles se encontraram pela última vez dias antes do golpe de setembro de 1973, que tirou Salvador Allende da presidência e levou o país à ditadura do general Pinochet. “Gostaria de ouvi-lo novamente”, comenta Navarro.

O amigo, Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, nasceu em João Pessoa (PB), em 12 de setembro de 1935. Não se apresenta profissionalmente no Brasil desde o final de 1968 (fez show apenas no Paraguai, no início dos anos 80). Em 13 de dezembro de 1968, quando foi decretado o AI-5, ele e o Quarteto Livre estavam em Anápolis (GO). Naquele dia, fariam justamente em Brasília o show Pra Não Dizer que Não Falei das Flores. “Aí já houve o aviso: não vá pra Brasília, sai daí. Todo mundo que fazia arte era visado. A ditadura perseguia a cultura, a ciência”, diz Geraldo Azevedo, um dos integrantes do quarteto, que ficou preso durante mais de um mês em 1969. “Passei por muita violência. Acho que é o estado de espírito que segura a gente.”

A ditadura e os militares
Vandré vem do segundo nome do pai, o médico José Vandregísilo. Mas antes de assumir a identidade com a qual se notabilizou, foi Carlos Dias, referência aos cantores Carlos Galhardo e Carlos José – o Dias era de seu próprio sobrenome. Em suas poucas declarações públicas, Vandré sempre nega que tenha sofrido tortura nos tempos da ditadura. “Nunca fui preso, torturado, essas coisas que dizem por aí”, afirmou à revista VIP Exame em março de 1995. Em outra rara entrevista, ao portal CliqueMusic, em agosto de 2000, reafirmou: “Nunca fui preso. Eles nunca encostaram um dedo em mim”. E se irritou quando lhe perguntaram se não era estranho um compositor que protestou contra a ditadura fazer música em homenagem à Força Aérea. “Vocês não entendem, nunca entenderam. A minha relação com os militares não foi política e nunca vai ser. ‘Caminhando…’ [a canção intitulada ‘Pra Não Dizer que Não Falei das Flores’] era um aviso: ‘Olha gente, desse jeito não dá mais’”.

A canção “Fabiana” foi composta em 23 de outubro de 1985, no início da redemocratização. Alguns versos: “Porque só tu soubeste enquanto infante, / As luzes do luzir mais reluzente, / Pertencer ao meu ser mais permanente”. Segundo Vandré, voar era uma paixão de criança. Em 1995, na cerimônia de comemoração da Semana da Asa – cadetes da FAB, com Geraldo Vandré presente, cantaram “Fabiana” em sua homenagem. Em dezembro de 1999, o músico participou de ato de desagravo ao comandante da Aeronáutica Walter Bräuer, exonerado após criticar o governo FHC.

Nascimento e morte do mito “Vandré ainda é um grande enigma, não apenas biográfico, mas relativo aos encontros e desencontros entre arte, mercado e política”, comenta o professor Marcos Napolitano, da USP, doutor em História Social e pesquisador de MPB. À pergunta se ele teria sido um ícone da esquerda contra a vontade, o professor diz ser difícil avaliar o real projeto autoral do compositor. “Ao que parece, ele tinha consciência de seu estrelato junto à esquerda. Mas, dado o seu silêncio posterior, pouco sabemos de suas reais intenções. Esse silêncio aumentou a aura enigmática do artista.”

O músico Théo de Barros, parceiro em “Disparada”, afirma que competência e talento não lhe faltam. Mas, acrescenta: “Às vezes a pessoa se sente mais confortável sendo uma lenda”. Para Napolitano, não haveria mais volta. “Acho que, pela sua opção radical, muito clara em ‘Caminhando…’ e no LP Canto Geral (1968), ele chegou ao limite entre o profissional pop-star e o militante. Com a segunda derrota da esquerda, dessa vez da esquerda armada, e o exílio, a persona de Vandré se desintegrou e ficou sem espaço no próprio mercado. Sabiamente, na minha opinião, ele mesmo matou o personagem.”

Já vou embora…
“A gente não podia escrever nem Geraldo, quanto mais Vandré”, recorda o jornalista e pesquisador Tárik de Souza, referindo-se à censura exercida nos anos 70 sobre o jornal Opinião. Uma maneira original de driblar a proibição foi divulgar informações inéditas em um fascículo de coleção da Editora Abril sobre MPB. “Os fascículos, obviamente, não eram censurados. Muita gente achava que ele tinha sido morto, torturado. Foi uma maneira de mostrar que ele havia conseguido sair do país”, lembra Tárik.

Ele deixou o país no carnaval de 1969, com passaporte falso. Até meados de 1973, quando voltou ao Brasil, peregrinou por vários países, principalmente Chile e França – em entrevista ao jornal O Globo, que o localizou no Chile em junho de 1969, queixou-se apenas do frio. Afirmou que nunca foi comunista e que não havia sofrido pressões para viver no exílio. “Estou bem vivo, escrevendo coisas e fazendo da saudade o que posso fazer”, declarou.

No final de 1970, em Paris, Vandré gravou o seu quinto (e último) LP, Das Terras de Benvirá – que, devido à censura, ficou sem a “Canção da Despedida”, parceria dele com Geraldo Azevedo. “Já vou embora…”, cantarola o parceiro. Esse verso inicial parecia conter uma premonição: o iniciante Azevedo mostrou a música ao já consagrado Vandré justamente em 1968. Pouquíssimo tempo depois, Vandré deixaria o Brasil, a exemplo de tantos outros.

Porquês 
E o que teria levado Vandré a abandonar a carreira de músico profissional? “A gente não pode interpretar a cabeça de ninguém. É como querer premeditar o pensamento. Nem o meu eu premedito!”, diz Hermeto Paschoal, integrante do Quarteto Novo, que acompanhou Vandré nos anos 60. “O atual cenário musical brasileiro é que precisa de espaço em Vandré”, afirma Dudu Alves, tecladista do grupo Quinteto Violado, que em 1997 gravou um CD só com obras do compositor. Para ele, a sociedade de consumo “tem medo do trabalho de Vandré, porque ele faz as pessoas pensarem no que está acontecendo na política, na educação, na cultura”.

O cantor Jair Rodrigues arrisca uma explicação: um possível desencanto de Vandré ao constatar que as coisas, até hoje, não mudaram tanto assim no Brasil. Tárik não vê explicação. “Talvez ele tenha introjetado o perseguidor”, comenta. E lembra de episódio ocorrido em 1974, quando o compositor, tentando se reorganizar no Brasil, iria se apresentar no programa de Flávio Cavalcanti e, inexplicavelmente, a apresentação não foi ao ar. Para Tárik, isso pode ter causado [mais] um dano psicológico a Vandré. “Encontrei-o depois disso e ele me perguntou: ‘O que faço agora?, nem isso (o programa na TV) estão deixando’”.

A opinião mais contundente é de João Valença, ex-frei dominicano, que em 1968 assessorou Vandré na preparação da Paixão segundo Cristino, apresentada na Semana Santa e que pôs mais lenha na fogueira de um ano turbulento. “Vi muitas pessoas nessa divisória entre consciente e inconsciente, entre lucidez e loucura”, afirma o ex-frei, preso e torturado juntamente com Frei Tito (Tito de Alencar Lima), que se suicidou na França em 1974. Para Valença, mesmo que não tenha sido torturado fisicamente, Vandré passou por “um sofrimento muito atroz”. “De alguma maneira, deve ter sido colocado na parede. O torturador procura o seu calcanhar-de-aquiles. E devem ter achado o ponto fraco dele”, aponta, contradizendo o compositor.

Os festivais
Quem conta é o crítico e produtor Zuza Homem de Mello, em seu livro A Era dos Festivais – Uma Parábola. Em 1966, Vandré dirige seu fusca, acompanhado do hoje jornalista esportivo Alberto Helena Júnior e do produtor Luiz Vergueiro. Pára de repente e diz: “Eu vou cantar para vocês a música que vai ganhar o festival. É a maior revolução, porque é o sertanejo moderno com Guimarães Rosa. Vocês não têm a menor idéia do que vai ser”. Era “Disparada”.

“Ele me apresentou a letra, que era ainda maior, em duas ou três noites conseguimos fazer a composição”, lembra Théo. O festival da Record, em 1966, dividiu a torcida, a cidade, o país: “Disparada” e “A Banda”, de Chico Buarque, foram as finalistas. Repartiram o prêmio.

Mas se a imortalidade tem data, no caso de Vandré o calendário aponta para 29 de setembro de 1968. Naquela noite, no Maracanãzinho, ele saiu em defesa de Chico e de Tom Jobim, diante de milhares de pessoas que queriam “Caminhando…” como vencedora da parte nacional do 3o Festival Internacional da Canção, e por isso vaiavam a decisão do júri, que escolhera “Sabiá”. “Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Hollanda merecem o nosso respeito. (…) A vida não se resume a festivais”, disse Vandré ao público, que acompanhou o cantor acenando com lenços brancos – “caloroso adeus ao artista cuja canção vai ser cantada por muito tempo”, escreveu O Globo. Ninguém imaginaria quanto tempo.

Obra desconhecida
“A obra dele é abrangente, diversificada, original”, observa Tárik de Souza, acrescentando que Vandré foi praticamente o responsável pela aparição de talentos como Airto Moreira, Théo de Barros, Heraldo do Monte e Hermeto Paschoal, que formavam o Quarteto Novo – até a entrada de Hermeto, eles compunham o Trio Novo. “Talento a ele não falta para retornar. A obra é vastíssima. ‘Pequeno Concerto que Virou Canção’, por exemplo, é praticamente uma obra erudita.”

O compositor Eduardo Gudin é mais um a destacar o trabalho de Vandré. “Como é possível pegar a obra dele e não perceber a qualidade, a beleza dos versos, independentemente de você ser contra ou a favor da mensagem? É uma pena essa superficialidade, as pessoas elegem uns estereótipos e vão embrulhando tudo neles”, declarou à revista CartaCapital, na edição de 13 de setembro.

Todos os lugares ou lugar nenhum Fiscal da Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab), Geraldo Pedrosa foi demitido pela ditadura e reintegrado em 1979, com a anistia. Passou a brigar para que a demissão fosse retirada de sua ficha funcional. Agora, virou fiscal da Receita. A determinação veio por uma portaria do final de 2005, do Ministério do Planejamento. Em 1997, após a extinção da Sunab, a associação da categoria entrou na Justiça contra a União – e ganhou. Assim, 240 fiscais, entre eles Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, foram enquadrados no Ministério da Fazenda como auditores fiscais da Receita.

Esse homem magro e de pouco mais de 1,70 metro pode estar em São Paulo, onde mora – recebeu o título de cidadão paulistano em 1980 –, no Rio de Janeiro, na Paraíba, terra natal. Costuma usar roupas brancas, muitas vezes com o brasão da Aeronáutica. “Faço shows em vários lugares do país, e sempre me dizem que Vandré passou por lá”, conta Jair Rodrigues.

Viajante, parece não querer ser visto. Outras vezes cogita mostrar parte de seu trabalho poético. Tem os direitos sobre sua obra e não a relança. Mas a música não o deixou – por isso, muita gente espera. Lembra Geraldo Azevedo: Vandré um dia foi embora, como diz o refrão da “Canção da Despedida”, mas a continua­ção é “sei que vou voltar”. “Essa promessa ele ainda não cumpriu.”

“Sinto falta de Vandré”, diz Jair Rodrigues, que celebrizou “Disparada” com sua interpretação. “Ele é de todas as gerações. Mesmo no exterior, muitos me perguntam por onde ele anda”, acrescenta Jair, que lembra dos abraços “de quebrar a gente no meio” e do forte aperto de mão do antigo companheiro. Ano passado, eles conversaram por telefone e, segundo Jair, Vandré perguntou quando o intérprete gravaria um disco com suas músicas. “Ele ainda vai fazer um disco, tenho certeza. Talvez ache que o rei ainda é mal coroado”, brinca Geraldo Azevedo, referindo-se à letra da “Canção da Despedida”.

Um de seus trabalhos mais recentes é uma sonata para piano. Bela e triste, disse quem pôde ouvir.



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