Pra que a coisa por exemplo fique preta

São cinco anos e se alguém aí quiser contar a edição zero, pode colocar alguns meses a mais de lambuja. Por Por Renato Rovai   São cinco...

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São cinco anos e se alguém aí quiser contar a edição zero, pode colocar alguns meses a mais de lambuja.

Por Por Renato Rovai

 

São cinco anos e se alguém aí quiser contar a edição zero, pode colocar alguns meses a mais de lambuja. Afinal, tintim por tintim, o começo da história é assim: no meio do segundo semestre de 2000 começou a circular, a bem da verdade, boca a boca e pela internet, a notícia de que haveria algo com nome de Fórum Social Mundial em Porto Alegre (RS). E que seria grande. Um anti-Davos – aquele encontro que praticamente sumiu, escafedeu-se.
Por trás da idéia e da organização, gente séria e entidades com história. Então por que não se aproveita o evento para produzir uma revista? Uma só, um produto que organize um pouco esse discurso antineoliberal, que aproveite que vai ter gente falando mal do que a mídia comercial só falava bem para fazer um contraponto, um outro lado, o lado de cá.
E assim, algumas reuniões depois, o projeto da revista de uma edição começou a ser tocado. Banca? Nem sonho, a idéia foi vendê-la para as entidades que estariam no evento. E antes do FSM começar, quase metade dos 20 mil exemplares previstos já estava vendida. E fomos a Porto Alegre.
Aí vale um parêntese, não sei os outros, mas este que assina ficou entorpecido. Quando pensava o projeto editorial disto que viria a ser a Fórum, nunca imaginei que preparava um veículo para algo como foi aquele primeiro FSM. Não pelo número de países representados, quantidade de organizações, militantes etc., mas pela sua diversidade. O Fórum deu novo conteúdo a essa palavra. Depois daquele janeiro de 2001, diversidade, ao menos para o assinante, passou a ser outra coisa. Muito mais bonita.
Mas e a revista? Pois então, viria a ser trabalhada meio que quase artesanalmente durante os meses de fevereiro e março e lançada em abril. Daquele número zero, com seus 20 mil exemplares, só restam uns 20 hoje. Seria difícil abortar o projeto por ali. Uma edição de uma revista que se esgotou.
E se não tinha sido nada fácil até ali, depois o parto passou a ser ainda com tempo mais curto. Em 28 de agosto de 2001, saía o número 1. Aquele que circularia em setembro, já nas bancas. E que teria um índio na capa, que chamava a atenção para a questão da Amazônia. E uma entrevista bacana do negão Mano Brown, que nos premiou com uma exclusiva, algo incomum, já que não é dado a bater papo com jornalistas.
E assim caminhamos governo Fernando Henrique adentro, fazendo jornalismo e sem colocá-lo uma vez que fosse de costas na capa com a marca de um pontapé na bunda. Debatendo o projeto que estava em jogo. E questionando-o. À época, a revista era preta e branca, com capa às vezes colorida, 36 páginas, papel cuchê e bimestral, foi assim que Fórum chegou à edição 18, quando completou seu terceiro aniversário.
Naquele setembro de 2004 foi tomada uma decisão que desajeitou muitas noites de sono. Imagine, leitor, a revista era deficitária, algo que ainda não foi completamente resolvido nesses dias, e nos víamos na seguinte situação: ou passávamos a ser mensal ou “baubau nicolau”. Avaliava-se que a revista entraria numa fase de mais do mesmo, já que fazê-la com periodicidade tão esticada impunha uma pauta muito fria e que tinha sido em boa medida explorada naquelas 17 edições anteriores, em que Fórum talvez tenha sido o primeiro veículo brasileiro, por exemplo, a explicar o que eram os tais softwares livres, economia solidária, tecnologias sociais, a diferença teórica entre mundialização e globalização, o porquê da crítica aos alimentos transgênicos etc., etc., etc.
Agora, a revista precisava ter outro papel. Por um lado continuar a apresentar os projetos alternativos que estivessem ganhando vida em diferentes cantos do país e do globo, mas também debater um pouco mais a conjuntura política das transformações vividas, por exemplo, na América Latina. Sem deixar de continuar tentando ser aquele projeto que tinha por objetivo apresentar um outro lado da informação.
E o leitor que nos conhece sabe que isso tem a ver não só com a cobertura política. Por exemplo, bolsa de valores para nós não tem valor. Aqui o importante é debater, por exemplo, o impacto que a economia solidária pode ter na redistribuição de renda. Cultura shopping center não tem espaço na nossa prateleira. Preferimos gastar papel discutindo a importância da música erudita.
Praticamos o outro lado da informação quando abrimos um montão de páginas para dar a palavra a Rigoberta Menchu, depois de acompanhá-la por cinco momentos diferentes, onde ela discursou ou atendeu jornalistas. Nada de ficar procurando gente que defendeu a última tese em Harvard, para apresentar como o intelectual da vez.
E, apesar de ser uma pequena revista com tiragem limitada e vida difícil, Fórum teve repórteres em quase todos os continentes do planeta.
Falar de América Latina é até covardia. Quando os veículos comuns de informação ainda estavam atônitos com o que havia acontecido na Venezuela, Fórum já estava lá reportando via internet o que havia passado. E chegou à banca com uma manchete que a história viria a confirmar: Golpe Reality Show. Hugo Chávez aparecia numa tela de TV que tentava ser desligada por um controle remoto acionado por uma mão branca. Naqueles dias, só se falava de golpe militar. Era tabu dizer que a mídia venezuelana havia sido a principal articuladora do golpe.
Ou, ainda, a Bolívia e Evo Morales. Em nossas primeiras edições eles já estavam lá. Aliás, foram duas matérias de quatro páginas para explicar o que era o movimento cocaleiro. Em 2002. E ainda Índia, Arafat sendo entrevistado em seu QG, Tibet, África do Sul… Em vez do norte, o sul. Europeus, como Saramago, também passaram por aqui. É verdade que, assim como ele, quase todos têm lado. E não o de lá.
Voltando à Fórum mensal. Em conjunto com essa decisão, veio outra, a de passar a imprimi-la com cor em todas as páginas. Mas ainda se manteve o papel cuchê. No quarto aniversário, ela passa a ser a primeira revista brasileira a circular em bancas totalmente produzida em papel reciclado. O que até hoje se mantém.
Faz cinco anos neste setembro que no restaurante Gigetto, em São Paulo, a revista número 1 foi apresentada a seus primeiros leitores. E continuamos aí, tentando. Sem grandes pretensões, nem longas também. Buscando a qualidade possível, dentro dos limites que é realizar um projeto independente. Aliás, independente do quê? De grandes grupos comerciais, por exemplo, mas também de muitas outras coisas. Mas ela é dependente também. Por exemplo, dos leitores e do apoio que muitas entidades da sociedade civil têm nos dado nestes anos de trilha.
Mas já que o papel pede para que o texto se encerre, o que o escrito até aqui tem a ver com o título acima?, pode estar perguntando o leitor mais atento.
Tem a ver com o seguinte, depois desse tempo todo, de 42 edições, de algumas dúvidas e muito sorrir, se Fórum fosse a entrevistada e um jornalista daqueles piegas lhe perguntasse: – Qual o seu maior sonho, dona Fórum?
Mesmo sem muita consulta, dá para arriscar que, por consenso na redação, esta revista diria:
– Que a gente possa vir a dizer, a coisa tá preta, amigos. E todo mundo fique feliz. Porque todo mundo entendeu o recado. Se está preta, amigos, é porque também está muito boa. E os caras-pálidas, como o assinador, iriam se divertir. Sabendo que a beleza da diversidade teria futuro aqui, ali e acolá. F



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