Promovendo a terceira guerra Mundial

Neoconservadores norte-americanos classificam as atividades terroristas como o início de um conflito planetário. Discurso ganhou ainda mais força com a crise entre Israel e o Hezbollah Por Por Bill Berkowitz  ...

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Neoconservadores norte-americanos classificam as atividades terroristas como o início de um conflito planetário. Discurso ganhou ainda mais força com a crise entre Israel e o Hezbollah

Por Por Bill Berkowitz

 

Se você pensava que uma conflagração mundial em grande escala neste século era uma idéia própria de uma profecia bíblica, da ficção científica ou das novelas apocalípticas, pense novamente. Durante anos os neoconservadores dos Estados Unidos afirmaram em reuniões e em sites da internet partidários que as atividades terroristas ao redor do mundo constituem as etapas iniciais de uma nova guerra mundial. Mas esse discurso ganhou força especial durante as últimas semanas, diante da crise entre Israel e o movimento islâmico xiita libanês Hezbollah (Partido de Deus).
O ex-congressista e pensador conservador Newt Gingrich, por exemplo, aproveitou toda a plataforma para tentar convencer o público norte-americano de que se avizinha uma grande conflagração bélica global. Gingrich, ex-presidente da Câmara de Representantes, esteve nas manchetes em todo o país após afirmar, no último dia 16, no programa de televisão Meet the press (Reunião com a imprensa) da rede NBC, que os Estados Unidos deveriam “ajudar o governo libanês a eliminar o Hezbollah como força militar”. Um dia antes o jornal The Seattle Times havia informado que, durante uma viagem ao estado de Washington, Gingrich reiterou que se aproximava uma “Terceira Guerra Mundial”.
“Israel não abandonará o sul do Líbano enquanto houver um único míssil (do Hezbollah) ali. Eu entraria e tiraria todos, e anunciaria que qualquer avião iraniano que tentasse trazer mísseis para repor seria derrubado. A idéia de que temos uma guerra em uma só frente, onde a outra parte planeja nos matar enquanto tentamos conversar, é uma loucura”, afirmou. Gingrich também admitiu que falar de uma iminente “Terceira Guerra Mundial” é algo que poderia dar novas energias à base do governante Partido Republicano e formar a opinião pública.
A viagem pela mídia de Gingrich definitivamente o devolveu ao lugar de destaque no cenário político nacional, e deu uma mostra da estratégia publicitária que o Partido Republicano poderia utilizar para as eleições parlamentares de novembro. Se a “guerra contra o terrorismo” não causa medo suficiente nos eleitores, por que não estimulá-lo mencionando o fantasma de uma Terceira Guerra Mundial? Mas Gingrich, que também poderia estar testando as águas para entrar na corrida presidencial de 2008, não foi o primeiro nem o único conservador a prever um conflito apocalíptico.
O site da internet do centro independente de pesquisa sobre jornalismo, Media Matters for America, documentou várias referências a uma terceira conflagração internacional feitas por vários conservadores nas emissoras de TV a cabo. “Considero que estamos na Terceira Guerra Mundial”, afirmou o apresentador Bill O’Reilly Factor (O fator O’Reilly), da Fox News. No mesmo dia, no programa Ticker, apresentado por Tucker Carlson na MSNBC, um gráfico perguntava: “À beira da Terceira Guerra Mundial?”.
“O apresentador do “CNN Headline News” (Manchetes da CNN), Glenn Beck, começou o programa do último dia 12 com um debate com o ex-funcionário da Agência Central de Inteligência (CIA) Robert Baer, dizendo: “Estamos perto da Terceira Guerra Mundial”, enquanto advertiu um “iminente Apocalipse”, disse o Media Matters for America. Beck e Baer tiveram uma discussão semelhante no dia 13 deste mês, na qual o primeiro afirmou: “Sei absolutamente que necessitamos nos preparar para a Terceira Guerra Mundial. Já está aqui”, acrescentou a organização. Inclusive o presidente George W. Bush falou em maio de uma terceira grande conflagração internacional.
O mandatário disse à rede de TV via cabo CNBC que a ação praticada por alguns passageiros em um dos aviões seqüestrados para os atentados terroristas em 11 de setembro de 2001, enfrentando os atacantes suicidas, “foi o primeiro contra-ataque à Terceira Guerra Mundial”. Difundir a idéia de que se está em meio ou às vésperas de um grande conflito internacional não é algo novo entre os conservadores e alguns, inclusive, já haviam afirmado que a Guerra Fria (1948-1991) foi a verdadeira conflagração global, e que, na realidade, está para começar a quarta. O Projeto para o Novo Século Norte-Americano (PNAC), grupo de especialistas neoconservadores que no final dos anos 1990 defendeu uma “mudança de regime” no Iraque e promoveu uma política externa baseada no uso da força, qualificou de “Terceira Guerra Mundial” a rivalidade política, ideológica, propagandista e militar com a agora desaparecida União Soviética.
Em abril de 2003, ao participar de um seminário na Universidade da Califórnia, patrocinado pela organização Americans for Victory Over Terrorism (Norte-americanos pela Vitória contra o Terrorismo), R. James Woolsey, ex-diretor da CIA e membro-fundador do PNAC, reiterou esse conceito. “Penso que esta Quarta Guerra Mundial vai durar consideravelmente mais do que a Primeira (1914-1918) ou a Segunda (1939-1945), embora esperemos que seja mais longa do que as quatro décadas da Guerra Fria”, afirmou. Woolsey disse que os governantes religiosos do Irã, os “fascistas” do Iraque e da Síria e as organizações terroristas, como a Al Qaeda, do saudita Osama bin Laden, são os principais objetivos desta nova guerra.
Entretanto, isto poderia ser mais uma estratégia de discurso do que uma precisa leitura histórica. Essa construção “poderia ser vendida dentro do cinturão urbano, mas nas áreas rurais, onde as gerações mais jovens não podem lembrar da Guerra Fria, não serve para muito”, disse à IPS via e-mail o analista John Stauber, fundador e diretor-executivo do Centro para os Meios de a Democracia e autor do livro que em breve será publicado The Best War Ever (A melhor Guerra de todos os Tempos).
“Os estrategistas da direita pró-guerra passaram por cima do 11 de setembro de 2001. Uma guerra interminável e secreta contra um inimigo estrangeiro dedicado ao terrorismo e que adquire armas de destruição em massa é um cenário ainda melhor para os militaristas norte-americanos do que a Guerra Fria”, continuou. “Chamá-la de Terceira Guerra Mundial é um pacote sonoro. Alguém tem de dar um nome, e cinco anos depois do 11 de setembro de 2001, com Osama [bin Laden] ainda livre, o Iraque (convertido em) um atoleiro norte-americano e o Partido Republicano em risco de perder o controle do Congresso, esse estratagema tem sentido de ‘mercadotecnia’”, acrescentou. F



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