Revolução baiana

Projeto que começa a ser discutido na Universidade Federal da Bahia propõe o fim do vestibular e uma arquitetura acadêmica diferenciada, lançando uma nova luz sobre o ensino superior brasileiro Por Conceição Ferreira  ...

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Projeto que começa a ser discutido na Universidade Federal da Bahia propõe o fim do vestibular e uma arquitetura acadêmica diferenciada, lançando uma nova luz sobre o ensino superior brasileiro

Por Conceição Ferreira

 

Tão cantada e decantada na última eleição presidencial, a dita “revolução na educação” ainda não encontrou correspondência em aspectos concretos que de fato mostrem o que isso pode significar. No último dia 22 de setembro, Naomar de Almeida Filho, reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), apresentou para um grupo de professores dos diversos cursos da instituição o Projeto Universidade Nova, que visa à reestruturação do ensino superior atual. O modelo não é novo. O pioneiro desta experiência foi Anísio Teixeira, que, com o apoio de Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos e Alcides Rocha Miranda, o idealizou para ser implantado na Universidade de Brasília (UnB). Apesar de ter sido iniciada no governo de Juscelino Kubitschek, a implantação da UnB só aconteceu em 1961, pela lei 3.998, assinada por João Goulart. O projeto era considerado audacioso para a época, pois dava formação humanista e consciência crítica aos universitários. Foi extinto de forma arbitrária pelos militares, em 1965, com a cassação do reitor Darcy Ribeiro.
O livro Universidade Interrompida, de Roberto A. Salmeron, fala desse período importante para a educação brasileira e traz a versão original do projeto. A obra é presença constante no Palácio da Reitoria, no bairro do Canela, em Salvador. É ali que Naomar Filho faz questão de esclarecer todas as dúvidas referentes ao novo modelo. Segundo ele, a proposta em gestação é um estudo preliminar de uma arquitetura acadêmica alternativa que permitirá ao Brasil superar os modelos de educação do século XIX e dialogar com os modelos do século XXI.
Entre os objetivos do projeto está a construção de uma nova modalidade de processo seletivo, possibilitando que o vestibular tradicional possa ser substituído pelo Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) e seja constituída uma formação universitária geral, por meio do bacharelado interdisciplinar (BI), com período mínimo de três anos, antecedendo os cursos de graduação. Por esse BI, o estudante cursará disciplinas não relacionadas à grade da carreira de sua escolha. O bacharelado permitirá adiar a definição quanto à orientação profissional, tornando o processo mais amadurecido, e ajudará a reduzir uma das causas da evasão: a escolha precoce da profissão. Além disso, dará ao aluno a oportunidade de escolher as disciplinas que possibilitarão uma formação ampla e humanista, “o que hoje é impossível em função da rigidez das grades curriculares”, analisa Naomar.
Essas disciplinas abrangem grandes áreas do conhecimento: ciências, artes, saúde, tecnologia e humanidades. Portanto, nesta formação, haverá módulos de filosofia (lógica, ética e estética), história, antropologia, literatura, estudos clássicos, línguas modernas, expressões escritas, princípios e uso da informática, cultura brasileira, política e cidadania, ecologia, iniciação científica e atividade curricular comunitária, entre outras. Bastante semelhante ao college americano e ao bacharelado europeu, o modelo exige que o aluno acumule boas notas durante este período para ingressar no curso de graduação de sua preferência. Caso não consiga, recebe um diploma de bacharel.
O projeto tem o apoio do Ministério da Educação e adesão de outras universidades públicas, como as federais do Rio Grande do Sul e do Paraná e a UnB, mas ainda falta muito para que seja implantado. Só depois de uma longa discussão, que abrangerá especialistas em educação, reitores de todo o país e sociedade civil, é que a versão final será apresentada ao Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) e ao Conselho Universitário (Consuni). Se for aprovada, será implementada em 2008.
Para a socióloga Teresa Cristina Oliveira, “só pelo fato de o projeto propor a extinção de uma seleção arcaica e perversa, já é um grande passo”. Mesmo assim, ela teme que “o Enem se torne tão perverso quanto o vestibular”. De família pobre, ex-aluna de escola pública, Teresa participou de três processos seletivos para cursar sociologia na UFBA e concluiu o curso com muitas dificuldades. Em sua tese de mestrado Ritualidade do Fracasso Escolar nas Séries Iniciais das Escolas Públicas, ela mostra a fragilidade do ensino em escolas de Salvador, com salas sucateadas, professores com pouco preparo e alunos com aprendizado deficiente. “Fiz esta pesquisa com as séries iniciais. No entanto, verifico que a realidade do ensino médio não é diferente”, diz a socióloga. “Temos consciência de que o desempenho dos alunos de escolas públicas, nas últimas provas do Enem, não foi satisfatório. Será que eles estão preparados para enfrentar o exame, caso ele se torne extremamente competitivo? Os alunos das escolas particulares não serão beneficiados mais uma vez?”, questiona Teresa.
Para Naomar, qualquer aluno pode responder a prova do Enem. “As respostas estão nos próximos enunciados e os alunos não precisam decorar fórmulas e regras como no vestibular. O que conta é a capacidade de interpretação”, esclarece. O estudante Lázaro Paz, de 17 anos, concorda. Aluno do 3º ano do ensino médio do Colégio Estadual Odorico Tavares, em Salvador, ele é a favor do novo modelo da UFBA e aprova a substituição do vestibular pelo Enem. Lázaro afirma que o exame é voltado ao raciocínio lógico e a interpretação. “Sabemos das deficiências do ensino público, mas é necessário acabar com este estigma de que somos incapazes. O que não pode continuar é este modelo de exclusão”, pontua.
O coordenador da pós-graduação em Medicina e Saúde da UFBA, Luís Carlos Passos, garante que a mudança não vai afetar a qualidade dos cursos. Segundo ele, existe uma preocupação excessiva com os cursos mais tradicionais e concorridos como Direito, Odontologia e Medicina, que têm quase dois séculos de existência. Ele aponta algumas das vantagens do bacharelado para a formação destes profissionais. “O bacharelado vai permitir ao estudante de Medicina uma formação mais humana, mais elevada, com a garantia de entender a sociedade como um todo.” Pela proposta, na área de Medicina, o aluno que faz uma residência médica poderá ser considerado mestre e aquele que tiver interesse em seguir uma carreira acadêmica também estará preparado.

Outras experiências
Nos Estados Unidos a maioria das universidades de ponta adota o ciclo básico, o chamado College Major/Minor. Outro modelo semelhante foi adotado em 1999 pelo Processo de Bolonha, um projeto formulado pelos ministros da Educação da União Européia para harmonizar as estruturas e os programas de ensino superior dos 25 países membros. Esse é um processo de reestruturação da formação superior dos jovens, aproximando-os dos interesses da sociedade e permitindo-lhes escolhas mais amplas, maior realização profissional e satisfação pessoal. No Brasil, a Universidade Federal do ABC e a USP Leste adotaram o modelo, onde o ciclo básico é um bacharelado em Ciência e Tecnologia.
Apesar de ter dado certo na Europa e nos EUA e de ter as primeiras experiências no Brasil, a proposta não é uma unanimidade. Rogério Ferreira Silva, 25 anos, formado em Ciências Sociais pela UFBA, ex-diretor do DCE da UFBA e da UNE, acredita que o projeto apresenta sérios problemas de conteúdo. Para ele, nem tudo que é aplicado lá fora se enquadra na complexidade da formação social brasileira e nas especificidades de nossa educação. “Esse modelo é feito fundamentalmente para adaptar as instituições à formação profissional dos jovens, sem antes terem tido investimentos pesados em ciência e tecnologia. Por mais que essa seja também uma das funções da universidade, resumi-la a isso significa subordinar as instituições públicas aos interesses do capital privado, ao qual somos veementemente contra” esclarece. Rogério concorda “que um novo modelo precisa ser construído para superar o modelo universitário herdado da ditadura, mas esse debate precisa estar casado com uma perspectiva diferente de projeto nacional”.
O professor de Língua Latina da UFBA, Gilson Magno dos Santos é radical na defesa do projeto. “É preciso superar o espírito infantil de que tudo o que é novo não presta”, diz. Ele acredita ser importante chamar a sociedade para verificar se o atual sistema corresponde a uma necessidade social ou a uma demanda de classes. “Hoje quem tem dinheiro freqüenta a universidade pública, o estudante pobre está na faculdade particular, onde a concorrência é menor”. E a perspectiva de começar a transformar essa rea­li­dade não pode ser desprezada. F



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